16 de jan. de 2014

A mulher... (conto)




A mulher era já madura e assim indescritível. Mas três coisas nela faziam dessa sua presença algo estonteante. Duas escancaradas e outra, um segredo total. O segredo era a obcessão pelo ato sexual. Não pela pornografia, pela especulação, mas pelo ato concreto, extremamente honesto e ingênuo. Para ela o sexo se desdobrava desde seu momento único até depois, na sua lembrança, mas nunca, nunca, em sua antecipação. Ela o sentia maravilhoso, porém, rústico, primitivo e fiel.

Bem, isso era o segredo. Já uma das coisas explícitas era, sem nenhuma dúvida, a beleza absurda. Que aparecia, nesse caso, feita numa pela branca, lisa e homogênia a ponto que, no primeiro olhar, até se abismava e, como numa aparição, causava um tipo de silêncio imediato que corrompia o conforto de um ambiente um pouco mais apertado que fosse. Em elevadores, por exemplo, essa presença beirava a tirania. O corpo lânguido em seu movimento equilibrado como uma dança sem ritmo, dominava, impunha e subjugava a atenção e o desejo de alguns desavisados imediatamente. Bem, a segunda explicitude, curta e grossa, era o modo como dirigia. Em uma frase, uma transgressão constante e totalmente inconsequente.

A mistura desses dois elementos aparentes, e claro, mais a influência subjacente daquele seu segredo, fazia dela algo tão simultaneamente doce, obsceno e agressivo que sua visão simplesmente nunca mais deixava a memória, mas, que a fixava de um modo perigosamente agradável e provocante para sempre, tanto que o fatídico vidente passava o resto da vida tentando encontrá-la uma outra vez por sorte. Determinantemente adulta, passava a toda velocidade com seus cabelos ruivos e longos, sempre soltos, um pouco cacheados e cheios, no entanto, algumas vezes presos num daqueles coques lindos, dando um nó no próprio cabelo, bem alto, deixando à mostra as orelhas. As orelhas e o pescoço... pernas, joelhos, pés, mãos e dedos com ossos e veias delicadamente proeminentes, de aparência forte, mas sem exagero, e unhas... impecáveis.

A boca, com a língua ali e tudo, e dentes, que não eram retinhos, mas marcantes também como os olhos de cor verde claros, com cílios naturalmente alongados, brilhando entre os vidros, espelhos e os reflexos da lataria reluzente. Seu cheiro natural, quiçá com algum pouco complemento de um perfume bem etéreo, se espalhava pelo caminho de ruas e calçadas e se evaporava desorientando os passantes. Nessa lindeza, quase sinistra, saía dirigindo seu carro de uma maneira tão absurda e natural que, estarrecendo a todos sem que pudessem distinguir entre a bondade e a maldade naquele espectro milagroso, prendiam seu olhar e sua emoção que sempre sugeria a espera de uma surpresa qualquer, de um rompante, um sobressalto.

Naquela manhã ao acordar havia sentido novamente um imenso calor por todo seu corpo. Sentia dois bicos afiados e tão hirtos que até doíam, como espinhos despontando o seu anseio de pura e bruta vontade por serem beijados. Ali na sua cama se arrepiava em espasmos dos pés à cabeça ao sentir a brisa que vinha da janela a lhe acariciar e as pernas, já então entreabertas, esfregarem levemente no seu amante até que ela se abrisse libertando sua vontade completamente úmida e latejante.

Recuou um pouco e se encaixou de uma vez e empurrou tudo e manteve empurrando. Assim, mais uma vez, perdeu a noção do tempo, num ímpeto de movimentos enlouquecidos derreteu todo o seu delírio numa exaltação incompreensível. Num tipo de celebração antiga, uma reverência. Isso a preenchia espiritualmente. Isso era ela em si mesma. Sua alma se expunha nessa volição. Sem dúvidas ou mais nada. Batera com tanta força e por tantas vezes que o imaginava como uma lenha em brasa, um coisa colhida de algum ritual sagrado, e que ela tanto idolatrava num mantra repetitivo, até que chegara outra vez arrebatamento que a deixava extenuada por alguns minutos. Era tão forte que sempre a largava pelo dia com aquela sensação enquanto depois voava pelas ruas sem noção de qualquer possível perigo eminente.

Ao sair nesse dia ela estava num de seus mais lindos momentos. Mulher, metida num de seus vestidos preferidos, dirigia como de costume a digitar suas mensagens em seu celular. Excitante, com um decote entreaberto que quase a mostrava de todo, quando se lembrava de relance dos gritos que deu, no peso do outro corpo sobre o seu, os seios voltavam a endurecer e sentia subir pela sua barriga um frio e quente simultâneo que agora lhe apertava a garganta com uma suavidade deliciosa.

Com as pernas claríssimas, expostas em suas linhas de músculos aparentes e bem definidos por seus movimentos, alternando rapidamente os pedais do carro, quem a via poderia julgar confusamente ser uma bruxa, um demônio ou uma diva pagã encarnada qualquer, definitivamente sem nenhuma compaixão ou humildade por nada ou ninguém. Flutuando por aí e estarrecendo as pessoas, que quase passava por cima, assombrando-as com a visão de seu corpo ali no carro, como os que estavam nas janelas dos ônibus e que inadvertidamente caiam enfeitiçados ao vê-la quando emparelhavam por alguns segundos antes que ela rompesse mais um sinal vermelho sem pensar em nada.

Ao olhar no retrovisor viu a si mesma com o mesmo orgulho e alegria de sempre, mas percebeu que se esquecera de passar o batom que tanto gostava. Sem nenhum pudor deixa o celular alguns instantes sem resposta, vasculha na bolsa o batom e começa a passar em seus lábios olhando no espelho retrovisor bem ali durante uma curva num balão de retorno de via expressa. Quase ao final da delineação, coincidentemente do balão e da boca, sente um solavanco e ouve um ruído de lata rasgando. Para mais adiante numa pequena entrada de acostamento e percebe que um senhor estaciona logo atrás de seu carro. Desce e escuta aquele estranho atribulado que de tão irritado nem teve tempo para se espantar também com aquela visão feminina sem igual, como era comum aos que da primeira vez se aproximavam dela; e berrava dizendo algo sobre o que ela teria na cabeça e coisas do tipo. Ela viu então seu carro, e o do senhor ali à sua frente, raspados nas laterais, mas tudo lhe pareceu estranho e ela percebeu que estava um tanto ausente.

Compreendeu que os dois veículos talvez houvessem se chocado, mas não era uma sensação conhecida e nem provável, por isso talvez demorasse a discernir os fatos desse instante, já que nunca nem se imaginou uma situação dessas. Ela havia se acostumado certamente de que essas coisas nunca lhe aconteceriam. Sempre se sentiu imune ao mundo e às pessoas que não fazia questão nenhuma de conhecer. E entendeu de relance que ainda estava absorta e envolvida em suas sensações de memória. Precisou forçar a atenção para entender a cena realista na sua frente e deixar de fruir os momentos de seu êxtase, daquela sensação maravilhosa que havia vivido toda manhã, mas que não queria realmente abandonar e que ainda tomava seu corpo e cortava intermitente sua visão em pequenos estalos de imagem embaralhando aquele instante da sua compreensão do que havia acontecido.

Entre um grito e outro daquele senhor desconhecido envolvido nesse acidente, ela vislumbrava o seu amor na sua frente, como um totem, e ela mesma o abocanhando enquanto o apertava levemente entre as mãos; róseo e inchado pulsando na sua boca, quente entre seus lábios, enquanto ela o engolia, escutando e se alegrando com o gemido surdo que escutava. Arrepiava-se completamente em outros novos espasmos ali mesmo em pé na rua diante daquele alheio a gritar. Conseguiu, porém, forçar o olhar novamente por um instante para o dono do outro carro, o som da sua voz aparece do fundo daquela realidade desinteressante, viu que ele ainda esbravejava exigindo dela alguma explicação sobre por que ela não viu o carro dele ao lado do dela na conversão.

Ela para pra pensar... e indignada não acredita que aquele senhor ainda não tenha compreendido. As lembranças cessam de todo, apagam rapidamente e desaparecem no nada e ela se percebe ali na rua só. Levanta um pouco a mão delicadamente como uma rainha mítica, pedindo silêncio e o olha nos olhos... O homem se cala inesperadamente, pasmo ao ver o brilho molhado e simples de seus lindos olhos, recebendo todo o impacto daquele ser de estonteante e sobrenatural encanto, emudece e... e ela lhe diz: - “O senhor por acaso sabe como é dificílimo passar batom dirigindo?” 















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