1 de dez. de 2022

a besta e o herói (poema)





a besta sombra é um turista

no seu pisotear convicto

barulhento e desatento

tudo serve apenas para alardear

da identidade de onde veio

daquela que sempre pertencerá

e ao empilhar as memórias

dos badulaques que ostenta

destrói a fragilidade do sagrado

renega a alma rústica na vida


o herói animado é um nômade

no seu descaminho abandonado

nada conseguirá conter

a desintegração de sua imagem

e ao se despedir das lembranças

mergulhando em seu desatino

a cada passo cuidadoso

por entre as joias que contempla

louva a força da existência

reafirma a graça no espírito do mundo






blasfêmia (poema)





numa blasfêmia dos símbolos

pelo evocar da profundidade

condenaram à superficialidade

profanando o prófugo denso

na indulgência do senso iníquo





29 de nov. de 2022

long play (poema)





a janela é a capa do long play

a esfera é quando sai o gol

os olhos o lago do azul do céu

o coração o cálice sagrado graal

a solidão uma cidade cheia

a saudade é a chuva fina

a felicidade um nó que amarra a tristeza

aquilo tudo é o que se foi

nada mais é o que ainda falta

a Terra gira quando a gente anda





25 de nov. de 2022

le parole (crônica)






le parole hanno una potenza propria. quando ne pronunciamo loro tengono quello che vogliamo esprimere. io posso aggiungere qualsiasi cosa di più... ma sarebbe inutile. ogni parola porta un universo. così se dico sacrifizio... non c'é bisongno di dire più. se no perché esiste una parola? quello che deve sucedere è che ognuno potrà capire basato sulle cose che può capire gli stesso. e sono le segni e le imagine della memoria che produrrono questa conoscenza.





20 de nov. de 2022

mentira é verdade (poema)





a verdade é vertical

rara e claustrofóbica

asfixiante e assustadora


a mentira é horizontal

abundante e reconciliadora

numa profusão entediante


a verdade não se expõe

não busca ser verídica

está sempre incógnita

a mentira é convincente

concorda e é verossímil

está sempre em evidência


e nesta maldição simulacra

a donzela que se abstém

dúvida casta que canta sutilezas

foge como a caça na floresta

e a vedete que não se contém

na certeza que grita aos holofotes

oferta na promoção de prateleiras





19 de nov. de 2022

velho rio (poema)





Eu me lembro da velha terra

Eu me lembro do velho rio


Não de imagens me lembro

Mas de sensações em meu corpo

Meu sangue é que treme na lembrança

Não das bandeiras me lembro

Mas dos aromas, brisas e dias

Não dos cantos de guerra

Mas do balanço dos pinheiros na tarde

Dos caminhos de silêncio e pouca luz


Eu me lembro que sou velho também

E aqui no exílio em meu assombro de saudade

Espero ouvir a pancada do seu coração profundo

Um alívio que me leve de volta ao seu leito




12 de nov. de 2022

arqueologia da saudade (poema)





nascera esquecido

num lugar sem identidade

talvez por isso na sua sina

dum oco no peito aberto

conseguira entender

e ser tudo que fora possível


voara pelo mundo todo

num sonho das noites

e no devaneio dos dias


chorara com todos nas tribos

nas masmorras dos castelos

na solidão dos desertos

no silêncio das montanhas


dançara com todos nos campos

nas festas de colheita

nas caçadas das florestas

nos festivais dos vinhos

nos casamentos ancestrais

e rituais sagrados da iniciação


dizem que se não se está

não se pode saber de tudo

mas conhecera a compaixão

a empatia e a alteridade de si mesmo

vira espantado estranhos no seu reflexo

assim desmachara em tudo que existia


e se o corpo marcado

nunca se esquece pela cicatriz

e memória é sentimento

soube da dor e da glória de cada ser

já que o sentir viaja por dentro


andara pelo mundo em que vivemos

de lembrança em lembrança

numa arqueologia da saudade

pelos caminhos da alma

nas paisagens eternas do espírito






3 de nov. de 2022

humor negro (crônica)

 





Esqueçam os partidos. Vamos falar de humor. Não são as ideias que assemelham os palhaços, mas sim, a mesma comoção pelas anedotas. Usando de um direito o qual nunca concederam, outro dia uma senhora comemorava aqui, numa romaria de duas mil pessoas, o aniversário de um antigo humorista dessas terras. Vestindo uma camiseta com a escrita Auschwitzland. Interrogada, justificou: "É apenas humor negro". Comparava o campo de extermínio com um parque de diversões. Divertido. Como um outro palhaço noutro dia comparava a busca mórbida das famílias, por algum resto de alento de seus filhos desaparecidos, com cachorros farejando ossos enterrados. Engraçado. Hoje, passando por uma dessas feiras da cultura militar, vi isqueiros fabricados na China com o símbolo da SS sendo vendidos em praça pública. Humor refinado. Passeando por bancas amontoadas com souvenirs macabros, para quem tem senso de humor, foi que pensei que é também pelo mesmo direito de expressão que esses velhinhos sobreviventes derrotados carregavam as relíquias de guerra para lá e para cá por décadas. Relíquias de colecionador, mas isso foi também uma poderosa reserva histórica deles, potência subliminar através da qual eles mantiveram a chama acesa. Recuaram resignados, sob a humilhação de gracejos sem graça, porém, deixaram nas mãos desses colecionadores a missão de carregar todas as lembranças até melhores dias. E a piada deu certo. Tudo o que tinham estava nesse relicário. Ninguém deles escrevia mais nada, ninguém deles se atrevia a mais nada. Seguraram décadas esse fumo em brasa miúda sem deixar apagar... quietos. As relíquias de colecionadores. Depois, foram acendendo nos jovens das torcidas, pouco a pouco, a fúria da união pelas suas velhas flâmulas. Enquanto alguns libertários queriam que as emoções seguissem as ideias foi, porém, nos gritos nas curvas dos estádios que as ideias colaram nas emoções a cada gol comemorado em braço hirto. Na própria seiva da liberdade que sempre perseguiram, fundaram grupos de estudos fechados, cultivaram novas teorias em silêncio e aprenderam a dissimulação do poeta bufão. Agora, já chegaram no ouvido das crianças; as velhas canções, os antigos ritos, a fascinação pela exclusão, pelo medo, pelo escárnio, pelo sarcasmo e pelo sadismo. Agora já saem pela rua outra vez na mesma marcha de outrora. São livres na expressão de seu humor coagulado. Enquanto isso, do lado seguro do mundo, os pensadores da liberdade desconstruíam tudo que fosse possível, na ilusão de que tudo que fosse sólido desmancharia no ar, na quimera da insustentável leveza dos seres. Aqueles, por outro lado, trabalharam duro e com afinco para reconstruir cada pedaço da paixão cega de seu passado, tijolo por tijolo, medalha por medalha, ferida por ferida. Tudo isso, enquanto a democracia, nas baladas da meia noite, gargalhava dançando em cima das mesas, achando que a comédia romântica duraria para sempre.






27 de out. de 2022

vitória (prosa poética)




que a vitória seja sempre a das inteligências sobre as ignorâncias; a da compaixão da alma sobre os juízos moralistas; a da força amorosa do espírito sobre o lodo medroso da vingança; que a nossa grande vitória seja eternamente a da liberdade dos talentos sobre a escravidão dos preconceitos...

quase (aforismo)




tudo tem um lado quase certo e um lado quase errado...





vento trincado (poema)




o vento para assustado

o tempo estagnado

as árvores se calam

troncos se trincam

um lamento profundo

do fundo do mundo







24 de out. de 2022

banana papilon (flash fiction))





Banana Papillon...


Era tanto azar junto que nenhum gato preto conseguia explicar mais nada; no céu de luvas negras passava um daqueles aviõezinhos de publicidade com Jesus, O Cristo, pilotando; metido numa bata-parangolé-anamauê, com o braço pra fora soprando uma vuvuzela, puxando uma faixa escrito: "miserável é o espírito do lazarento o qual a única liberdade que concebe é a autodestruição." - e mais adiante um palco onde os Secos & Molhados decapitados cantavam O Vira... "VIRA VIRA VIRÁÁÁÁ!"... enquanto um animador de auditório, com as mãos no pinto esporreado, apresentava dois para que se escolhesse um: "Este é Ademir da Guia, O Divino; e este é..." - nem mesmo terminara a fala e a turba urrava enfurecida: "BRUNO! BRUNO! BRUNO! BRUNO!"





23 de out. de 2022

genocídios (aforismo)





comunismo, capitalismo e nazismo não têm nada em comum... cada um tem a sua própria maneira de cometer genocídios...





19 de out. de 2022

true artist (aforismo)





you only become a true artist when you have figured out that the passing of time wasn't, isn't or won't ever be lost... 

fuck the art too...





idiotas (crônica)





denunciar para os idiotas o quão idiota é um idiota é inútil... e é a pior campanha que se pode fazer contra um idiota... pois ser um idiota é justamente a grande força da campanha do idiota... e é exatamente por ser um idiota que um idiota é querido pelos outros idiotas... então, mostrar como o idiota é idiota vai apenas reafirmar mais ainda a campanha idiota do idiota... para o delírio cada vez maior da massa de idiotas...





18 de out. de 2022

terra de cego (aforismo)




em terra de cegos a lei é o tropeço e quem tem um olho vai ser apedrejado em praça pública...





15 de out. de 2022

vergonha (aforismo)





devido a escassez da vergonha na cara, chegamos ao volume morto da inteligência, comunicamos então o urgente racionamento das últimas gotas da decência...





dia do professor (crônica)




Muitos professores são péssimos e muitas vezes os que tiveram acesso a uma boa formação são ainda piores, pois, ao contrário de se transformarem nesta a usam e se defendem dos seus equívocos com isso. Essa idiotice de tentar beatificar essa atividade humana é muito mais uma maneira de se esconder das necessidades que deveria assumir alguém nessa posição. Necessidades psicológicas principalmente, e também com a própria saúde e coerência entre falar e agir, ou simplesmente apenas não mentir que é quem não se é. Ser um professor é dificílimo, penoso, uma atividade árdua e ainda por cima exigiria uma constante crítica de si mesmo e do próprio  ambiente de trabalho. Encontrei raras vezes na minha vida (ainda bem!) professores que me ajudaram, a grande maioria apenas atrapalhou, e muito! Desde a infância, na adolescência um inferno. Conheci um paspalhão professor de ensino médio que se apresentava como salvador dos injustiçados em alguns projetinhos famosos na cidade e que nas aulas ameaçava e humilhava os alunos com atitudes absurdamente agressivas até fisicamente. E mesmo quando cheguei numa das melhores universidades do Brasil encontrei agressividade pura, mesquinharia, atitudes antiquadas e extremamente ultrapassadas, na grande maioria dos casos. Teve um coitado moderninho, do departamento de psicologia de uma faculdade de educação! que arrotava Vygotsky, mas ainda corrigia os trabalhos rabiscando-os com uma caneta vermelha! Um outro, bem famoso e tido como grande filósofo da educação do lugar, que tinha o procedimento de nas primeiras provas dar notas não acima de 3, quebrando todos os seus alunos na traição, coisa que para alguém lúcido, claramente monstrava que era uma artimanha velhaca de demonstração de poder e controle. Para ser um dos bons a primeira coisa a fazer é reconhecer constantemente diante dos alunos todas as suas falhas e dificuldades... e, deixando de lado essa ilusão de ser ungido pela sacralização e personificação do bem, começar a aprender sobre si mesmo um pouco antes de se auto elogiar na frente do espelho o tempo todo ...





14 de out. de 2022

mensagem miga (flash fiction)





a última mensagem...


"cara miga,


acho incrível esses trabalhos tão importantes que a gente nem consegue mandar mais nem um oi pra nenhum, como se tomassem o lugar da própria vida; então, não é algo que se faz pra viver, porque aí nem tem mais tempo pra isso... ora ora ora, o que importa a vida em si?  é bom, assim, três preocupações a menos... os ois, os sis e os viveres... 


tchau 🖕."





alienação (aforismo)





a alienação é venenosa tanto para o bem quanto para o mal; no primeiro faz morrer à toa, no segundo, matar em cumplicidade...





13 de out. de 2022

educação (poema)




num estalo, pensava sozinho num canto da casa... "a educação faz pessoas melhores? isso é bobagem... burrice!" - aquilo realmente trincava na sua mente confusa - "existe gente mais estudada do que os estudados que estão... há séculos! destruindo o mundo?"





vitórias (poema)





Mesmo quando nada está presente

Alguma coisa real e completamente absurda

Alguém me vem dizer como continuar

Assim continuo andando sem rumo

Mantenho o ritmo dos passos sem pensar


Contribuo de uma forma para um único fim

Onde sons e assombrosas presenças nos assustam

É um movimento náufrago e obeso

Sonoro e insípido como muitos dias nublados


Estamos todos aqui sem nenhum nome real

Mas pelo menos nos reconhecemos amigos fiéis

Muitos desses ditados nos confundem

Muitas destas horas acabam por matar-nos


Nunca existiu piedade para os desertores

Mas todos eles tinham algo a dizer

Um segredo perigoso e inacreditável

Amores insuperáveis perante grandes júris

Os quais sempre se negam admitir


Estas falhas assim nos furtam do silêncio

Deixaram as simples obras sem glória

Como nos tempos das terríveis batalhas

Nos campos de honrosas medalhas


Hoje então não deixaremos de pensar

Nestes corpos solitários e abandonados

Lembraremos de todos que aqui estiveram

Faremos seus túmulos com nossos próprios corpos

Quando o momento da verdade estiver exigindo

Quando numa sublime hora nossa alma deixar

Quando nosso sangue neste instante fluir sem medo

Então estaremos entregues ao absoluto momento

Qual um pássaro inocente e viajante nos abertos espaços

Nos infinitos sonhos de um deus sem pretensão de vitórias





11 de out. de 2022

coisa nenhuma (poema)





cada coisa mesmo sendo a mesma coisa poderia ser uma coisa totalmente diferente trocando uma coisa por outra coisa sem que mudasse coisa nenhuma....





renascimento da direita (crônica)




depois de ensinar aos liberais que o liberalismo que eles inventaram estava errado; depois explicar ao mundo que Gramsci era um tirano malvado; depois ainda ensinar o que foi o nazismo para os Alemães, educação para Paulo Freire e compaixão para Jesus Cristo... chegou a hora de ensinar Pink Floyd para o Roger Waters...





10 de out. de 2022

pão no$$o (poema)





no$$o $angue e$corre de no$$a$ vida$

$ermo$ pre$o$ pela$ mão$ e pelo$ pé$ 

ne$$e$ no$$o$ $ofrimento$ e $entimento$

pelo$ medo$ do$ mórbido$ $u$pen$e$

que e$$e$ $alvadore$ fal$o$ $imulam

$obre no$$a$ dúvida$ e no$$a $orte

a$$im $em $imple$ e$perança $equer

e $erá $empre uma da$ piore$ coi$a$ 

$em $entido de$$a$ no$$a$ tri$te$ morte$





9 de out. de 2022

rima dura (poema)




rima dura


são somente três tipos históricos de candidato que o povo elegeu 

o que se esquece porque nunca fez nada do que prometeu 

o que decepciona porque rouba e vende tudo o que é seu 

e o que assassinado morreu





7 de out. de 2022

inferno (aforismo)





o inferno está cada vez mais quente por que o céu está cada vez mais fresco... ou o céu está cada vez mais fresco por que o inferno está cada vez mais quente?





5 de out. de 2022

heróis (flash fiction)





passava um filme de futuro... luta contra alienígenas invasores destruidores... dormitava um pouco de leve ali... o vizinho arrastava o latão de gelar as latinhas... epa! o sargento gritava pra ele... como!? mas os heróis não são voluntários, nunca foram convocados, e tentam sair o tempo todo da situação à qual foram condenados; e parece que a maioria das pessoas esqueceu... que os heróis não são... não são... aqueles que matam mais, mas sim aqueles que salvam mais... o cara em vez de ouvir "holyshit" alucinava que diziam: num visse? num visse? que porra era aquela?





2 de out. de 2022

os três mandrakes (flash fiction)





era uma vez, num reino no meio de um merdaçal, um povo de burros de quatro que aclamava como ídolos filósofos um veado escroto que contava estórias de um feudo das becas e charutos enquanto chicoteava a si mesmo na surdina na frente das fraldetes de direita em sacrifício: "sou uma puta! sou uma puta!" - e um bodão cafona que ronronava em putirindabas babando velhacarias antiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiigas no carvanhaque encantando as malamadas que se esfregavam na sua barrigaça: "veja bem... veja bem... veja bem..." - e um lagarto cara de drácula nosferatu careca cantando cantigas em falsete de trás pra frente na língua dos camundongos eruditos enquanto os idiotas chacoalhavam a cabeçorra oreiuda concordando com orgulho da própria mediocridade mofada: "nhén... nhén... nhén... nhén"... e assim foi, é e será nesse reino...





30 de set. de 2022

colherzinha (flash fiction)




trocou uma plantação monocultura de explotação eterna do poderia ser... por uma colherzinha de café de que bom que é...




28 de set. de 2022

galáxias (poema)





pra que alguém quer voar até galáxias distantes? elas estão todas aqui nesta noite que nunca acaba... bem aqui pertinho do meu rosto... roçando meus cílios... tocando de leve meus lábios...





Neruda (flash fiction)






- Neruda discursava poesias... ele talvez nem tenha existido... e foi apenas um sonho lindo da humanidade... (explicava o mais recatado deles)


- Nos sonhos os partidos não sobrevivem... morrem asfixiados de ignorância... é isso que ele sabia... (emenda um que chegou agora)


- E nem na poesia, no máximo, num hino desses, de arrepio... (continuou alguém lá do fundo)


- ahahahaha... (todos ali riram delicadamente entre olhares) 


- Sonharam o eleger para presidente, então, e ele dizia: “Não! Não sonhem! Escolham Allende!” (um outro se abriu emocionado)


(e sonhando a conversa andava solta)


- Talvez não tenham vontade de ser socialistas porque queiram o dinheiro só pra eles... (disse um deles mais entretido)


- Mas... se alguém não é socialista... vai ser o quê? (um outro falou espantando a todos)


(e um sossego ficou por ali entre eles por alguns minutos, mas alguém quebra o silêncio e exclama de uma vez) 


- GODZILA?!? 


- HAHAHAHAHA!!! (todos gargalham)






25 de set. de 2022

problema (alucinações)





alucinações: só se conhece o seu lugar quando fora deste ficar... quanto mais distante uma solução parece estar mais de perto o problema se deve olhar… a felicidade não vai se provar apenas forçando a boca arreganhar...





23 de set. de 2022

blessing (crônica)




wondering that as an old man in a fight you need to take advantage of the only ability that can be increased with age: the base; meanwhile, a beautiful girl approached and asked me something... and I said: "what do you want? a blessing?"




20 de set. de 2022

regra de lágrimas (poema)



regra de lágrimas: antes os que são amadores e não professam... do que os que são profissionais... mas não amam...





17 de set. de 2022

rebuliço (flash fiction)





em meio ao rebuliço, gritaria e fumaceira, atravessava tudo aquilo bem devagar, sem notar o risco de ser atingido, olhava pra cima e apertava os olhos; na sua memória esvaecida, tornava-lhe num eco mórbido aquela musicazinha... "São Paulo... de pau e pedra... São Paulo... de pedra e pau..." e alucinava, confuso, e já cantarolava outra, falando sozinho ... "hum... um kalashnikov na mão e uma estultícia na cabeça... era isso!"... e gostava de peidar alto em locais públicos...





14 de set. de 2022



A knife is the most important object in the history of human survival. In its matter and in its substance it carries, at the same time, all the meaning and reality of the human drama; it is the materialization and the most complete expression of the profound contradiction of existence; it has been revered for millennia as a tool, a weapon, a jewel and a companion that evokes in itself all the duality between life and death, all the reflection between the brutality of the condition and the hope in the destiny of humanity...
 

talento (aforismo)




o único que não vai te trair, de jeito nenhum, é o teu talento...




11 de set. de 2022

anarquia (quadra)





Anarquia não é boemia

Arroz é no prato

Xixi é no penico

Quem não dorme não acorda





o povo se conhece (alucinações)




alucinações: um povo se conhece pelas calhas que fabrica... sorte é uma coisa que se provoca... otimismo tem limite...






24 de ago. de 2022

a verdade (aforismo)



a verdade sempre acaba falando sozinha...





empadinha podre (poema)

 





quando o último pão de queijo estiver embolorado, quando a última feijoada azedar, quando último acarajé mofar e as últimas coxinhas, beijinhos, empadinhas, tutuzinhos, cuzcuzinhos, caldos de cana, viradinhos, escondidinhos,  pés de moleque, paçoquinhas, quindinzinhos e zóião estralados estiverem apodrecidos e cheios de vermes pelo descaso, vista grossa, jeitinho, gorjetinha, vagabundice, malandragem e a malemolência macunaímica... todos se darão conta de que é impossível sobreviver apenas de santinhos, sorrizinhos amarelados e cavaletes de eleição!





17 de ago. de 2022

turba enlouquecida (crônica)





do meio da turba dividida... que bufava pra lá e pra cá... o mago mendigo... sóbrio, casto, pobre e enlouquecido... gritava delicadamente: "nenhum perdão! nenhuma piedade! serão todos desse lugar surreal... abatidos pelas reversas culatras de uma chacina suicida sincronizada, estampidos num só balaço simultâneo e homogêneo e recíproco... muito antes... ou depois mesmo... que depois de tudo... e ainda antes... quando são os mesmos... se auto alimentando de seus rabos presos... pernas, mãos, pactos, cotas, sanduíches, cocaína, maconha, vestidos de noivado, casamentos e separados... arroz e feijão... pan-americano e eleição... petróleo e punheta cívica... mas de cada rabo... de acordos de rabo... e de rabos rabudos... e chifrudos... idiotas... língua de diabo... ciclovias... e esgoto ao aberto... orgulhosos... convictos... vendidos e revendidos... mas antes mesmo serão esturricados sob um sol sem água... e a água a acabou e vai acabar... numa praga... na praga do rio podre e fétido... dos rios de esgoto... a praga da imbecilidade e da insanidade comunitária e coletiva... e todos... nas torcidas de pescoço vermelho e estufado... todos... todos... todos..."






perfection and poetry (poem)





perfection and poetry are two completely different things; the first one expresses the beauty in exactitude, the second... in its mistakes...






7 de ago. de 2022

intuição condenada (aforismo)

 

é chegado enfim, o juízo final da intuição; sem nenhum julgamento, esta será sumariamente acusada e brutalmente condenada; e seus seguidores serão caçados e banidos para todo o sempre...







31 de jul. de 2022

Glenn e a besta fera (crônica)

o grande desafio do jornalista Glenn é hoje, acima de tudo, espiritual; e este não está em apenas expor a monstruosa degradação ético/criminal de juízes e promotores, assim como da própria jurisprudência nacional; mas, muito antes, é uma missão; e esta tem sido, arduamente e em vão, tentar reeducar uma mentalidade grotesca, uma mediocridade abissal, um maniqueísmo colossal de um povo que não consegue mais entender o sentido das regras sociais, dos contratos de bem estar comum, do próprio fundamento conceitual das leis; ele é um Hércules que enfrenta a mais terrível besta da terra, um mutante cego que come merda e caga pensamentos: o brasileiro...

29 de jul. de 2022

cartório fúnebre (crônica)

os cartórios pareciam erupções vulcânicas de dinheiro... jorram... ininterruptos... num fluxo alucinante... numa máquina tresloucada de hipermultiplicar a necessidade do nada... de materializar milhões em um absurdo burocrático canalha sem nenhum sentido... que pedem érreges e cepeéfes autenticados de mortos... carinbócitos de moribundos em vapor e lodo... sobre autenticações autenticadas dos que autenticam na baba... comprovações que comprovam a comprovação já comprovada... numa engrenagem na velocidade alucinante do ridículo e do pornográfico em duplicações de duplicagens... carimbadas sobre o carimbo do carimbador... a todo vapor e sem parar... e que nunca e jamais funciona para poder funcionar sempre...

20 de jun. de 2022

evil (crônica)

Spiritually speaking, enjoy life isn't the same as to believe that it's funny. For, with everything that can be known today about mankind, it's not possible that it, that fulfillment, doesn't be felt as a deep sense of a sacred grief. Because, in this present world context, just having fun in life is a kind of being evil.

regra de sebo (alucinações)

a regra de sebo (e uma consideração): se, numa disputa entre o discurso da ignorância e o discurso da coerência, tentando ambas conclamar o apoio da turba, tanto melhor a coerência se expressa, mais pontos faz a ignorância, pois, o único trunfo desta é exatamente o distanciamento daquela (por mais incrível que pareça a ignorância já descobriu isso e a coerência ainda não)...

30 de mai. de 2022

design (crônica)

o design de excelência é resultado de um grande atrito; assim, surge da fricção entre a tentativa de aproximação àquilo que, por paixão, tem-se como referência, ao mesmo tempo em que, por reverência, é o movimento de distanciamento da mesma...

22 de abr. de 2022

marinheiro (mini conto)

Ele havia trabalhado muito tempo naquela sua obra: "A Indescritível História do Marinheiro Que Não Sabia Nadar", porém, havia avançado pouco ainda. Mas mantinha isso em silêncio. - "Bem óbvio!" - Jogara-lhe sempre na cara um tal amigo. - "Nem tão, pois já, que um aviador não saberia mesmo voar" - Repondia ele iniciando ao ríspido. Nunca entenderiam, pensava ele, que o conflito estava na inenarrabilidade... e não na problemática; ou na merda da hermenêutica; era o mistério e não a lógica, que da porra toda... o ponto tocante seria, ali, a intuição, o bairro, a vizinhança. - "O Problema..." - declamava o desautor - "é que vocês todos estão muito obcecados... é... é sim... ou não, pois, política se torna muito mais contundente quando é dedicada à criação... àquilo que, supostamente, tanta crítica e indignação pudesse impulsionar e realizar..." - continuava o anti-escritor já com o saco cheio - "Política boa é negativa... negação... a destampada, que, ao contrário de ficar nessa punheta seca de sebo, mostrando o saco imundo do inimigo, que é o mais indicado pra fugir do próprio ambigo chujo, que mostre algo que me possa afetar e me fazer... bem... não é da arte que todo mundo gosta? vão para o caralho então!"

17 de abr. de 2022

ser sórdido (miniconto)

Um deus encarregado de distribuir os dons entre os seres do planeta explicava a cada um que, embora fossem receber capacidades incríveis, obrigatoriamente teriam que aceitar algumas mazelas de troco. E aí o deus fazia o seu trabalho. O urubu recebeu o voo mais lindo de todos, mas só lhe restaria a carniça. Para as árvores deu o sofrimento mais delicado do universo, porém, ficariam sempre estáticas no mesmo lugar. Às formigas o poder de carregar um imenso peso, mas tão indefesas que são esmagadas facilmente. Aos passarinhos o canto mais milagroso acompanhado de sua fragilidade e insegurança constante. E aí foi. No momento do ser humano o deus parou e disse solene: “aqui vai um corpo gracioso de beleza indefinível e mais uma inteligência extraordinariamente maravilhosa, todavia, deverá ser eternamente um monstro asqueroso, sórdido e imundo”.

13 de abr. de 2022

you don't know me (poem)

you don't know me but you know me lying here in this shadow I remember you both each day of those days we used to live together I look at them now are yellow, pink, blue these small flowers everywhere and this smooth grass under those trees on this day... alone they don't know me but they know me every morning and every night every night and every dream all this feeling is hard but I'm not like that there is little to be done he is what he is they said this unbearable continuity only to be sure that I'm walking forward and enough... forever and when we meet again if it happens to be in another city perhaps which is still unknown who doesn't know me but who knows me some petals are flying now the wind is carrying all over the land I shout your names into the night I'll return to each square and each garden at the dawn when it is empty at noon and as usual too crowed but I'm always hoping to see you every corner we've been on every bench we sit in to smile, to think... in silence I tried and often there is nothing it seems like after all what I remember is only that street where you took me by the arm and we continue like this and always after knowing our lives... in extremely love so huge that cannot even exist and to be in this very moment I don't have any body anymore I don't have anything else I'm a pure soul... waiting I'm like those winged angels who cannot never go down again I do not know them but I know them

5 de abr. de 2022

acostamento (poema)

às vezes, na beira da pista, no acostamento... teu silêncio outros poucos segundos impera. isso não é nada do que imaginamos. já não conseguimos mais viver sem o que imaginamos. ontem, na margem do sonho, no devaneio... tua desgraça me lembrou um poema. bruto. e duma solidão imensa, sem vozes, o som do teu coração me calou. outra vez. agora, na ribanceira, a poeira se cruza com a dor da luz do sol. seca. sofrida. surda. vocês têm lá suas desculpas, mas ele não existe. nada existe. mudo. profundo. os passarinhos sumiram? não se pode escutá-los cantando. os bem-te-vis? qualquer outro? e isso não é nada. simplesmente nada. os heróis que morrem são somente mais outras vítimas. o tempo... é quem sobrevive. e a grama ainda falta preencher aquelas falhas...

28 de mar. de 2022

história (poema)

a história que pouco escrevo é a dos que nunca lutaram dos que não sabiam a letra que esperaram na distância a lembrança que mais tenho é do azul dos teus olhos tristes e daquele teu constante sorriso que na noite se foi e me deixou a poesia que ainda conheço foi escrita na areia e na chuva é balbuciada em tênues sonhos numa rima embargada e torpe a vontade que nem tenho quase é a de um dia sair e muito tempo perder o que desconheço ainda tentar te achar e te ver outra vez a paixão agora é cansada e dorme em impulsos de pesares e alegrias nas ruas solitárias da nova cidade nas canções que ao longe escuto

9 de fev. de 2022

alucinações (poema)

alucinações: se é verdade que apenas com a intuição se vai a nenhum lugar, tanto mais que sem esta não se chega a lugar algum... o poder do tirano é a quantidade, já o do herói é a qualidade... entre a vigília e o sono vive o devaneio...

escala mortal (crônica)

o mundo humano já é imenso, ninguém realmente faz ideia aonde chegamos, e não há mais retorno; todas essas máquinas gigantescas, monstruosas, agora nos ditam o tempo, a velocidade e uma força tecnológica autômata que já nos é humanamente impossível acompanhar... e nessa tragédia, se o poder triturador de tal tirania absoluta, que nos torna nada em nós mesmos, está na imposição de uma quantidade colossal de movimentos grotescos e assombrosamente barulhentos e ofuscantes sobre uma escalada assustadora de nossa desumanização... a única resistência possível, e sempre foi esta, está na reescrita de uma poesia arcaica, de uma ingenuidade, simultaneamente, heróica e infantil... e que estes sejam os heróis de seu próprio cotidiano... os poetas, pela recriação da qualidade de uma alma rústica, primitiva e artesanal, para cada ínfimo pensamento, sentimento ou ato neste mundo...

alucinações (poema)

alucinações: nos infinitos cantos silenciosos do caos... a felicidade é uma tristeza adestrada... todas as oportunidades envelhecem...

6 de fev. de 2022

admiro (prosa poética)

Admiro aquele que, com profundo pesar e sobriedade, quebra uma regra imbecil. Desprezo aquele que, com inconsequência e sarcasmo, quebra uma regra imprescindível.

a melhor felicidade (prosa poética)

a melhor felicidade é dessas que está no minuto de silêncio, que podemos prestar por se estar vivo; ou naquela que sai do canto da boca quando se encontra uma frase de alguém famoso e que achamos seria um amigo nesta nossa solidão; mesmo aquela uma quando, heroicos, salvamos uma formiga do dilúvio do chuveiro; naquele certo instante quando percebemos que aquela má escolha, de repente, agora virou um bom conselho; quando num lugar qualquer e num momento por onde e por alguns segundos ninguém vai nos encontrar, descobrimos que a vida ainda é muito pouco nesta sua imensidão insuportável...

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