29 de nov. de 2022

long play (poema)





a janela é a capa do long play

a esfera é quando sai o gol

os olhos o lago do azul do céu

o coração o cálice sagrado graal

a solidão uma cidade cheia

a saudade é a chuva fina

a felicidade um nó que amarra a tristeza

aquilo tudo é o que se foi

nada mais é o que ainda falta

a Terra gira quando a gente anda





25 de nov. de 2022

le parole (crônica)






le parole hanno una potenza propria. quando ne pronunciamo loro tengono quello che vogliamo esprimere. io posso aggiungere qualsiasi cosa di più... ma sarebbe inutile. ogni parola porta un universo. così se dico sacrifizio... non c'é bisongno di dire più. se no perché esiste una parola? quello che deve sucedere è che ognuno potrà capire basato sulle cose che può capire gli stesso. e sono le segni e le imagine della memoria che produrrono questa conoscenza.





20 de nov. de 2022

mentira é verdade (poema)





a verdade é vertical

rara e claustrofóbica

asfixiante e assustadora


a mentira é horizontal

abundante e reconciliadora

numa profusão entediante


a verdade não se expõe

não busca ser verídica

está sempre incógnita

a mentira é convincente

concorda e é verossímil

está sempre em evidência


e nesta maldição simulacra

a donzela que se abstém

dúvida casta que canta sutilezas

foge como a caça na floresta

e a vedete que não se contém

na certeza que grita aos holofotes

oferta na promoção de prateleiras





19 de nov. de 2022

velho rio (poema)





Eu me lembro da velha terra

Eu me lembro do velho rio


Não de imagens me lembro

Mas de sensações em meu corpo

Meu sangue é que treme na lembrança

Não das bandeiras me lembro

Mas dos aromas, brisas e dias

Não dos cantos de guerra

Mas do balanço dos pinheiros na tarde

Dos caminhos de silêncio e pouca luz


Eu me lembro que sou velho também

E aqui no exílio em meu assombro de saudade

Espero ouvir a pancada do seu coração profundo

Um alívio que me leve de volta ao seu leito




12 de nov. de 2022

arqueologia da saudade (poema)





nascera esquecido

num lugar sem identidade

talvez por isso na sua sina

dum oco no peito aberto

conseguira entender

e ser tudo que fora possível


voara pelo mundo todo

num sonho das noites

e no devaneio dos dias


chorara com todos nas tribos

nas masmorras dos castelos

na solidão dos desertos

no silêncio das montanhas


dançara com todos nos campos

nas festas de colheita

nas caçadas das florestas

nos festivais dos vinhos

nos casamentos ancestrais

e rituais sagrados da iniciação


dizem que se não se está

não se pode saber de tudo

mas conhecera a compaixão

a empatia e a alteridade de si mesmo

vira espantado estranhos no seu reflexo

assim desmachara em tudo que existia


e se o corpo marcado

nunca se esquece pela cicatriz

e memória é sentimento

soube da dor e da glória de cada ser

já que o sentir viaja por dentro


andara pelo mundo em que vivemos

de lembrança em lembrança

numa arqueologia da saudade

pelos caminhos da alma

nas paisagens eternas do espírito






3 de nov. de 2022

humor negro (crônica)

 





Esqueçam os partidos. Vamos falar de humor. Não são as ideias que assemelham os palhaços, mas sim, a mesma comoção pelas anedotas. Usando de um direito o qual nunca concederam, outro dia uma senhora comemorava aqui, numa romaria de duas mil pessoas, o aniversário de um antigo humorista dessas terras. Vestindo uma camiseta com a escrita Auschwitzland. Interrogada, justificou: "É apenas humor negro". Comparava o campo de extermínio com um parque de diversões. Divertido. Como um outro palhaço noutro dia comparava a busca mórbida das famílias, por algum resto de alento de seus filhos desaparecidos, com cachorros farejando ossos enterrados. Engraçado. Hoje, passando por uma dessas feiras da cultura militar, vi isqueiros fabricados na China com o símbolo da SS sendo vendidos em praça pública. Humor refinado. Passeando por bancas amontoadas com souvenirs macabros, para quem tem senso de humor, foi que pensei que é também pelo mesmo direito de expressão que esses velhinhos sobreviventes derrotados carregavam as relíquias de guerra para lá e para cá por décadas. Relíquias de colecionador, mas isso foi também uma poderosa reserva histórica deles, potência subliminar através da qual eles mantiveram a chama acesa. Recuaram resignados, sob a humilhação de gracejos sem graça, porém, deixaram nas mãos desses colecionadores a missão de carregar todas as lembranças até melhores dias. E a piada deu certo. Tudo o que tinham estava nesse relicário. Ninguém deles escrevia mais nada, ninguém deles se atrevia a mais nada. Seguraram décadas esse fumo em brasa miúda sem deixar apagar... quietos. As relíquias de colecionadores. Depois, foram acendendo nos jovens das torcidas, pouco a pouco, a fúria da união pelas suas velhas flâmulas. Enquanto alguns libertários queriam que as emoções seguissem as ideias foi, porém, nos gritos nas curvas dos estádios que as ideias colaram nas emoções a cada gol comemorado em braço hirto. Na própria seiva da liberdade que sempre perseguiram, fundaram grupos de estudos fechados, cultivaram novas teorias em silêncio e aprenderam a dissimulação do poeta bufão. Agora, já chegaram no ouvido das crianças; as velhas canções, os antigos ritos, a fascinação pela exclusão, pelo medo, pelo escárnio, pelo sarcasmo e pelo sadismo. Agora já saem pela rua outra vez na mesma marcha de outrora. São livres na expressão de seu humor coagulado. Enquanto isso, do lado seguro do mundo, os pensadores da liberdade desconstruíam tudo que fosse possível, na ilusão de que tudo que fosse sólido desmancharia no ar, na quimera da insustentável leveza dos seres. Aqueles, por outro lado, trabalharam duro e com afinco para reconstruir cada pedaço da paixão cega de seu passado, tijolo por tijolo, medalha por medalha, ferida por ferida. Tudo isso, enquanto a democracia, nas baladas da meia noite, gargalhava dançando em cima das mesas, achando que a comédia romântica duraria para sempre.