2 de abr. de 2026

A Raiz da Violência (proposta)




A Raiz da Violência: Uma Pedagogia da Alma.


(Um diálogo entre James Hillman, Gaston Bachelard e Jiddu Krishnamurti)


A partir de uma exposição sobre as limitações de um pensamento afirmativo e de sua diferenciação em relação à amplitude de uma imaginação negativa, a intenção é esboçar de maneira formativa a importância da compreensão de uma situação que aqui se propõe como uma das mais significativas relacionadas ao problema da violência: o conflito entre reação e ação, entre o que se pensa deveria ser e o que realmente é, entre a ilusão da ideia e a verdade do fato. Para cultivar esta especificidade imaginativa é interessante começar por entender a função da abstração poético-estética.


É comum a ideia de que a linguagem da poesia e a imagem abstrata sejam algo fútil, decorativo ou apenas para entretenimento, mas é importante perceber o quanto estas são fundamentais e o quão profundamente se relacionam com a capacidade humana para essa compreensão do verdadeiro e da sua comunicação honesta (Bachelard). É através destes elementos que se criou desde as linguagens até as tecnologias. A maioria das línguas têm sua base em oralidades e textos poéticos, assim como a escrita e até mesmo cálculos são elaborados a partir de abstrações das imagens. Da mesma maneira, reversamente, ou seja, da superfície ao fundo, é através destes movimentos que se pode olhar, que se pode entender algumas das raízes da violência: a comparação, a reatividade e, principalmente, o desvio da vocação.


Esta base poético-estética da imaginação (Hillman), pode ser definida como uma qualidade anímica que se sugere aqui é reconhecida em alguns elementos específicos em contraponto àqueles radicais e estes são a sobriedade, a compaixão e a atenção aos talentos. É por isso que também é possível, através da compreensão do processo artístico da pintura abstrata e da elaboração do poema, propostos como um campo seguro e controlado onde seja possível descobrir algumas das origens dessa situação e que desta maneira se possa encontrar mais caminhos para libertar o pensamento e a ação desses elementos da violência, retomando a sua fundação, desde sua forma simbólica até mesmo a sua manifestação física.


A proposição é que pelo exercício constante do desenvolvimento dessas qualidades, catarticamente inspiradas pela poesia imaginativa e a abstração das formas e das cores, é que essa liberdade pode renascer, ou seja, é pelo o cultivo daquilo que se apresentará como uma alma rústica que a violência pode ser neutralizada, não por um esforço pela sua extinção, não pela ideia da sua repressão, não pelo conflito constante contra o seu impulso, o que é ainda um movimento próprio da violência, porém, justamente porque este cultivo começa com uma iniciação à consciência da riqueza desta noção anímica, que deveria se manter anterior a qualquer sistematização de sua própria qualidade, como são as reflexões filosóficas, as religiões e até mesmo a racionalização científica e que muitas vezes agravam o problema. Assim, seguindo por esta aproximação se espera provocar essa expansão destes seus movimentos primordiais para que a violência não seja apenas suprimida, mas redimensionada e passe a ocupar o seu lugar, que de fato existe, pois, assim como o falso não é o oposto do verdadeiro, mas a sua degeneração, a violência é a degradação de uma vocação que não foi reconhecida ou possibilitada, sendo perdida, silenciada ou excluída de si mesma (Krishnamurti).


A expectativa é, então, de que o próprio intento em direção à retomada desta condição anímica já seja, em si mesmo, o maior e mais importante passo para a inauguração, que provavelmente sem este movimento nunca aconteça verdadeiramente, desta libertação da violência, que é intrínseca e subjacente a esse pensamento que exige o positivo, à  necessidade da comparação, da conquista, da superação que a ideia do sucesso e a ânsia do vir a ser impõe, alimentando um perene conflito com o que julga defeito, desqualificando o talento ingênuo em todos os ambientes, moralizando-o como incompetência ou deficiência, sendo o epicentro de onde reverbera toda a violência que está subliminarmente infiltrada na sociedade e que se manifestará sempre se não se desvela e se age sobre suas verdadeiras raízes.  É apenas pela ampliação da potência da imaginação que a vocação diluirá a violência e a adequará à sua necessidade, cultivando aquilo que é em si mesma a sua própria negação, a alma rústica que a mitiga, mas, não como uma entidade mística ou sobrenatural e sim como este signo potente, que inspire a manifestação do fenômeno de uma integralidade profunda do ser humano, da sua espiritualidade firmada no compromisso dos talentos, que aí passa a amparar o instinto reativo pela intuição que instaura, compartilhada, sóbria e compassiva, enfim, a base de uma consciência humana.