O Autodilema Oroboenigmático do Jornalismo
"Eles lerão muitas coisas sem aprender, de modo que parecerão saber
muitas coisas, mas na realidade permanecerão em grande parte ignorantes,
incapazes de acompanhar esses assuntos, visto que não são sábios, mas apenas
têm a aparência de sê-lo." Platão
Historicamente, sem a pretensão de defender uma tese sobre
o aprendizado de um ofício, é relativamente sabido que este se dava, ainda sendo em
alguns casos, pela imersão em um ambiente de trabalho ou desenvolvido na
relação entre mestre e aprendiz, e é na evolução deste último movimento que
surgem os contextos de formação das primeiras academias e que de certa maneira a própria gênese das universidades.
O requisito para essa imergência numa profissão era a vontade que a vocação
impunha ou a necessidade de um contexto, e o direito de se tornar um aprendiz
ou não era proveniente das relações de poder e interesses entre uma oficina (surgida
pela iniciativa, capacidade e talento de um indivíduo) diante das exigências de
uma coletividade. Deixando o acaso e a sorte para outra discussão, o aprendiz
ingressava nessas oficinas pela insistência de sua vontade e sua paixão, e também
pela aceitação ao convite de um mestre, que era quem julgava ser o aprendiz
capaz ou não para continuar e absorver o ofício. Era a eloquência e a
habilidade que um voluntário apresentava o que seria avaliado para sua admissão
nas primeiras tentativas de uma profissão, mas certamente em alguns casos uma
doação ao mestre para acolher ao discípulo. Desta maneira, o grande critério
para alguém receber o direito de exercer um ofício seria, sendo financiado ou
não, a demonstração de sua capacidade, surpreendentemente, exatamente como ainda
é com o jornalismo nas maiores e mais democraticamente avançadas sociedades da
atualidade, ou seja, ou pelo apadrinhamento ou pela genialidade.
A discussão superficial da necessidade ou não do
diploma reduz a complexidade do drama das profissões. Não é o diploma realmente
aquilo que é relevante para um profissional, mas, a sua formação em si. No entanto,
a incompreensão do valor simbólico do diploma carrega consigo a ignorância do
que este deveria representar: apenas o registro de que quem o porta esteve
inserido num contexto prático-reflexivo que tanto o expôs aos fundamentos e
princípios daquilo que será uma profissão, como à necessidade de uma produção
de conhecimentos orientada pelos pares por uma sistematização (seja de um TCC na
graduação, de uma dissertação num mestrado ou de uma tese num doutorado). Este é
basicamente o sistema existente que visa estruturar, produzir e disponibilizar
tais conhecimentos para enriquecer os ambientes das profissões. É a chamada
academia, onde a excelência é buscada para a evolução das profissões e das
sociedades. No entanto, existe uma nuance histórica que é a própria expressão de
uma contradição do licenciamento oficial das profissões, porque é anterior a
esta: o autodidatismo. São indivíduos tão apaixonados por uma atividade que, ao
se dedicarem ao extremo, conseguem o conhecimento e a realização completa de um
ofício fora deste sistema. Este último, inclusive, até mesmo prevê a
possibilidade de absorver esses alienados por várias vias, desde programas que
aceitam pesquisas e teses para validação baseadas na comprovada capacidade ou
mesmo concedendo títulos honorários.
Na verdade, por uma pressuposição libertária que aqui
se admite como premissa política, nenhuma profissão deveria exigir diploma,
senão a capacidade comprovada, se o critério for a existência de autodidatas
geniais e de contextos que absorvam a paixão de cada um destes para o melhor
coletivo. E é o jornalismo, com a eterna discussão sobre a validade ou não da
exigência de formação acadêmica para ser exercido, o grande exemplo desta
possibilidade e que tanto os jornalistas se gabam e se justificam ao enaltecer
os autodidatas que exercem magistralmente a profissão sem vida acadêmica e seu
consequente diploma; porém, é importante notar que todas as atividades humanas
demonstram este mesmo fenômeno e, se o argumento é de que a liberdade de
expressão é garantida, também o seria a liberdade de salvar uma vida como, por
exemplo, a de um grande nadador sem diploma de guarda vidas que pula no mar
para resgatar alguém afogando. Do mesmo modo, se assim pode ser, seria também a
de um cidadão treinado em lutas marciais que, como também garante a própria jurisprudência,
poderia dar voz de prisão e imobilizar um ladrão incauto para proteger os
cidadãos indefesos. Não há evidência lógica ou qualquer racionalidade possível que
distinga a importância entre o direito de falar a verdade e o direito de
defender a vida alheia.
Se os exemplos de autodidatas altruístas do jornalismo
valem para dispensar um diploma como a prova da formação acadêmica, é possível
entender o mesmo sobre qualquer que seja a profissão ou atividade humana, visto
a existência de inúmeros desses casos por todas estas e até mesmo na medicina,
que é sempre referenciada como uma profissão para a qual o diploma seria
imprescindível. Como tantos exemplos notórios, um extremamente interessante é
Vivien Thomas, que foi um técnico de laboratório que revolucionou a cirurgia
cardíaca na década de 1940 e, mesmo sem ter diploma ou faculdade de medicina,
desenvolveu e testou em animais a técnica cirúrgica que corrigiria a Tetralogia
de Fallot (síndrome do bebê azul). Outro caso extraordinário nas ciências
médicas é o de Hamilton Naki, um sul-africano de origem humilde que começou
como jardineiro e, a partir de 1954, puramente pela observação e prática
autodidata, tornou-se o cirurgião de laboratório mais habilidoso da
Universidade da Cidade do Cabo. Mesmo sem diploma ou educação formal, Naki
desenvolveu técnicas cirúrgicas complexas e passou cinco décadas ensinando
transplantes e suturas de alta precisão para mais de 30.000 estudantes de
medicina diplomados. Ainda mais emblemático, pelo distanciamento completo de
qualquer ambiente médico, é o caso de Benjamin Jesty, um fazendeiro inglês que,
em 1774, criou a base do conceito de imunidade induzida sem ter qualquer diploma ou nenhum treinamento
em medicina. Ele, ao notar que as ordenhadoras de sua região que contraíam a
varíola bovina (uma versão muito mais leve da doença) ficavam imunes à mortal
varíola humana, decidiu agir por conta própria durante uma epidemia. Usando uma
agulha de tricô, Jesty retirou o pus das feridas de uma vaca infectada e o
introduziu na pele de sua esposa e de seus filhos. O experimento prático
funcionou perfeitamente e sua família ficou protegida, representando a primeira
imunização documentada da história, vinte e dois anos antes do meio médico
diplomado testar e oficializar o método que daria origem ao próprio termo
"vacina" (derivado do latim vacca).
Por que então proibir um cidadão de exercer uma
profissão se auto educando e agindo pela própria decisão se tantas provas
existem, assim como entre os jornalistas, de que é possível a excelência de uma
profissão, até mesmo manifestações de heroísmo, sem o santificado diploma?
Desta pergunta se desdobra uma questão consequente e inevitável: a quem então caberia
validar a competência desses gênios autodidatas para que a sociedade não fosse
privada do grande serviço que poderiam prestar? Bastaria apenas uma
autodeclaração, ou seria necessária a aprovação dos seus pares? E, se a
notoriedade de seus resultados bastasse, quem poderia afirmar que são realmente
um resultado relevante? Para recolher e reunir, então, os melhores tópicos
dessa discussão, seria necessária, antes de tudo, uma suspensão filosófica que
negasse por princípio toda identificação ideológica ou exclusivamente
pragmática. Portanto, é preciso entender que essa confusão começa justamente porque
os diplomas assumiram o valor agregado de uma simples licença, de um alvará que
hoje substituem, indevidamente, aquilo que foi um atestado daquilo que seria uma
certificação de um caminho dedicado percorrido e de uma contribuição teórica e
sistemática registrada para o escopo de uma profissão então reconhecida. Porém,
o diploma é hoje uma permissão (fetichizada e burocratizada), uma
autorização para explorar uma demanda comercial da sociedade. Praticamente, e não em poucos casos, simula-se uma formação que dissimula inadvertidamente um contrato de venda de um
licenciamento. O diplomado então é aquele que comprou o direito de explorar um
mercado de necessidades, e não mais a garantia de uma iniciação a uma expertise fundamentada, responsável
e continuada.
Talvez o grande problema deste direito assumido, como
é o do jornalismo, é o seu saber notório ser avalizado apenas pelo sucesso
financeiro, e não pela ética e abnegação pelas quais toda e qualquer profissão
deve impreterível e utopicamente se responsabilizar. Assim como aquele lutador
ou aquele nadador assumem um dever supostamente heroico, assumem também o posto
apenas no momento do seu ato, pois, se existem profissões, o heroísmo não é uma
delas (ser herói não é profissão). E, então, quanto ao argumento de que ao
jornalismo é garantida a iniciativa plena porque é liberdade, todas as outras
iniciativas não deveriam estar privadas dessa mesma liberdade, pois o principal
indício da liberdade é que esta deva ser para todos, irrestritamente, senão deixa de
ser liberdade e passa a ser apenas um privilégio. No entanto, aqui não se
defende que se restrinja a amplitude do jornalismo proibindo os autodidatas de
agir heroicamente, mas de estender essa grande liberdade a todos os autodidatas
apaixonados deste mundo. É, então, o jornalismo a última fortaleza do potencial
e respeito ao autodidatismo anárquico que a grande maioria das profissões
perdeu, ou por pressão da dominação de uma certa classe exclusiva ou por
repressão à essa mesma liberdade potencial coletivizada. Subsequentemente, a
reflexão não deveria se situar no âmbito da legitimidade de tolher ou não esta
possibilidade dos jornalistas, mas, de entender o porquê de outras profissões
não terem mais resguardado este sagrado direito às mesmas possibilidades e
liberdades. A grande inquietação não é aquela que admite que o jornalismo seja
o único grande momento da liberdade de expressão e da garantia da equilibração
da defesa de toda espécie de direitos, em extensão da proteção da verdade, todavia,
que este, muito provavelmente, seja o derradeiro lugar para a possibilidade do autodidatismo
e onde este ainda consegue sobreviver no seu máximo esplendor.