16 de mai. de 2026

A Raiz da Violência (ensaio)



Uma Pedagogia da Alma:
A Educação Estética e a Raiz da Violência


Por Fernando Henrique Catani, M.Ed.




1.  Introdução

 

É uma particularidade da alma ser não apenas mãe e origem de toda ação humana, como também expressar-se em todas as formas e atividades do espírito; não podemos encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação. (Jung, 1985, p. 74)

 

A Pedagogia, além de desenvolver processos educativos formais, não formais e informais, é uma ciência que assume a investigação dos problemas humanos, articulando uma intersecção de variados saberes, sejam leigos ou científicos, imbricando as teorias e as práticas de diversas outras áreas e ciências, para propor e aplicar soluções aos grandes desafios das sociedades. A violência é um desses temas dramáticos sobre o qual a Pedagogia se debruça, não apenas para a definir ou a denunciar, mas, principalmente, para desenvolver ações que possam transformar situações e contextos onde esta se manifesta explícita ou subjacentemente. Este pequeno ensaio se dedica a um olhar específico sobre o fenômeno da violência, expondo um conflito comparativo e uma objetificação do talento. Embasado por um trabalho reflexivo mais extenso ainda em desenvolvimento (Catani, 2026), através da proposição de uma educação poético-estética, pretende redimensionar e defender a importância do signo anímico na formação humana integral. É um recorte para uma fundamentação conceitual de um curso de formação de atores dos diversos âmbitos da educação, que propõe que cada indivíduo é capaz e deve descobrir e desenvolver por si próprio uma concepção dessa alma, que é propositadamente apenas sugerida nesta proposta, porque se admite que é exatamente esta intenção de retificação do signo o que provoca uma transformação mais profunda.

Propondo assim uma pedagogia da alma, artística, que não deixa de ser inspirada em alguns autores que, de maneira bem interessante, têm em comum o fato de talvez serem um pouco negligenciados em sua abrangência. Ao mesmo tempo, além de apresentarem uma significativa ruptura de paradigmas em suas obras, todos estes autores também convergem para enriquecer em especial o tema da alma enquanto um conceito determinante para este trabalho, mesmo que não exatamente pela mesma aproximação. Então, começando pelos estudos dos arquétipos de Carl Jung (1985), um marco histórico em que o universo anímico é extensamente descrito, definido e reelaborado, sendo uma referência indispensável quando se tenta refletir sobre esta alma, pois, a partir de sua obra surge uma perspectiva totalmente nova em relação às anteriores. Seguindo na fundação do alicerce desta reflexão a adoção de uma semiose fenomenológica embasada em Umberto Eco (2016), na sua sugestão da obra artística com significação aberta e que, redimensionando a discussão sobre uma descontinuidade inerente aos signos, seria capaz de provocar uma integração transcendente entre uma subjetividade ingênua e uma objetividade científica.

Definida esta base metodológica, a seguir se assume mais alguns autores completando o escopo desta reflexão e que, embora nem os dois primeiros e nem os seguintes sejam em si o objeto de um estudo direto, são citados pela excelência de algumas das suas definições dos elementos aqui propriamente abordados. A visão de educação estética da psicologia pedagógica de Lev Vygotsky (1968, 2016), com a sua determinação de que o talento é inerente à qualidade humana sem restrição e a sua valorização da importância de manutenção da expressão de uma alma infantil. A filosofia do não e a poética do devaneio de Gaston Bachelard (1978, 2001, 2007), na sua exigência por uma fenomenologia da alma e a revolucionária concepção de uma dialética da existência diante de uma intuição reversa no instante. A piedade política na psicologia arquetípica de James Hillman (1983, 1986, 2016), na sugestão da necessidade do cultivo da imaginação e sua valiosa e transgressora crítica que amplia a noção de alma para a reconhecer manifestada em todos os lugares do mundo. Finalmente, como um contraponto não acadêmico, a negação libertadora e a meditação ativa do momento a momento de Jiddu Krishnamurti (1973, 1982, 1985) que, embora não pareça ser entendido em todo o mérito da sua expressão de vanguarda e não tenha uma sistematização propriamente científica, é talvez uma reflexão ontológica tão profunda que represente uma das mais avançadas e pertinentes de seu tempo.

A partir destes pilares teóricos, redimensionando paradigmas e modelos ideológicos ineficientes e inapropriados, inicia-se então uma reflexão sobre ações educativas possíveis, desenvolvidas através de um diálogo com estas referências e a intenção desta proposta: organizar um ambiente onde se busque entender qual é a raiz desta violência, retomar uma noção abrangente da qualidade e da importância de uma concepção da alma e sugerir alguns meios para transformar os fatos da realidade desta condição violenta.

 

2.  Uma Raiz da Violência

 

A etimologia da palavra violência vem claramente do substantivo latino vis que, além de traduzir violência em si mesma, agrupa muitos outros significados como autoridade, poder, resolução, pressão, energia, vigor, recursos, mas também capacidade, valor, virtude e até mesmo define a essência que faz uma coisa ser o que é, ou ainda, um princípio e força primária de um organismo. As constantes definições atuais de violência, no entanto, parecem focar mais no ato violento já concretizado do que nesta qualidade de força vital. A aproximação acadêmica ao fenômeno, embora assuma uma impossibilidade de se cunhar uma definição absoluta do termo, prefere deixar que definições multifacetadas se manifestem a partir de suas inúmeras especificidades, do que manter uma definição geral que poderia ser reducionista. Para este trabalho, na tentativa de oferecer mais uma dessas visões complementares, o que importa é a possibilidade de uma qualidade remanescente, como uma raiz da violência herdada de uma necessidade instintiva atávica, talvez de sobrevivência ou como uma reação a qualquer ameaça. Porém, a preocupação é que esta, não reconhecida e compreendida, impregnou de alguma maneira algumas formas do pensar que, por sua vez, é capaz de contaminar o sentir e o agir. Esta pode ser uma realidade que vai além da própria criminalidade violenta e que se manifesta intrínseca desde uma violência geopolítica, instrumentalizada pela ação predatória das corporações financeiras, que promove a exploração econômica e até guerras pelo mundo; tanto uma cultural, como a do racismo, ou a do domínio psicológico das celebridades sobre seus seguidores e também a da publicidade com sua constante humilhação subliminar; passando pela social, seja a de um vizinho arruaceiro que não respeita nada nem ninguém, ou aquela muitas vezes velada que os eruditos usam para controlar e submeter os leigos, assim como a de muitos professores contra seus alunos; até, enfim, aquela violência doméstica que usurpa um espaço pessoal de alguém ou a segurança física e psicológica de uma criança.  

A denúncia principal, embora não inédita, é de um positivismo deste pensar comprometido, formado talvez por essa agressividade competitiva ancestral, que quando oferece propostas para os problemas humanos, como contra a violência, apenas exige uma ação punitiva e vingativa que aprofunda o problema por nunca conseguir perceber esta sua estruturação complexa. De certa maneira, em um conflito subconsciente entre ímpetos violentos que é muitas vezes calcado na identidade ideológica, esta é instrumentaliza como indesejável apenas quando está naquele que ameaça a estabilidade do outro violento, de um contexto social ou uma estrutura institucionalizada violenta. Reafirmando a violência até mesmo na racionalização que a pretende controlar, exigindo atos não violentos dos indivíduos quando a própria repressão ou o próprio ambiente onde esta se manifesta é extremamente violento. Mas, se flagramos os apelos pela exclusividade dessa intervenção positivista, que quase sempre está inquieta por um imediatismo que reaja também violentamente, percebemos que a punição que espera como solução vem inutilmente somente depois do ato violento. Sendo este, geralmente, o resultado de um impulso reativo que não considera a racionalidade da proibição no seu momento passional. O que contradiz a ideia de que a repressão violenta da violência seja a solução total, porque observando a história da aplicação da punição severa e da extensão absurda de que foi e ainda é implementada, se esta realmente produzisse resultados, hoje a violência deveria ter sido extinta, mas, o que se constata é que na realidade tem aumentado.

Se realmente se pretende agir contra a violência, é fundamental que a prevenção de sua manifestação seja ainda mais antecipada, na pessoa ou na sociedade, desarticulando a instalação dos gatilhos de seu desencadeamento no cotidiano, que de tão incorporados na cultura, apenas provocarão mais violência. Pois é uma violência instintiva, intrínseca e subjacente a esse pensamento positivo, à necessidade da conquista, da superação que a ideia do sucesso e a ânsia do vir a ser a qualquer custo impõe. Alimentando um perene conflito, fomentando uma comparação detratora, a reatividade impulsiva e, principalmente, o desvio, a coisificação, a reificação ou um fetichismo dos talentos. Julgando e condenando, como defeito moral apenas a identificação de seu oposto, ou até mesmo desqualificando um talento ingênuo que não se adapta ao ímpeto da competição em todos os ambientes, também moralizando-o como incompetência ou uma deficiência. Sendo este o epicentro de onde esta violência reverbera, autointoxicando a pessoa e estando subliminarmente infiltrada na sociedade, ou aflorando na fragmentação entre grupos de identidades irreconciliáveis. Sempre instrumentalizada como um ativo de arregimentação das vontades, dos desejos imediatistas e da dominação de uma mentalidade pragmática que desilude e abandona a vocação para viabilizar a exploração. Manifestando-se sempre em todos estes níveis da malha social e expressões culturais, dificultando seu desvelamento e reafirmando estas suas verdadeiras raízes. Deste modo, assumindo que a educação é um momento de excelência para o desafio da sua prevenção, é uma urgência resgatar e estabelecer novos lugares, imunes tanto psicológica como socialmente, pela refundação da alma que criará um espaço onde essa violência nunca consiga existir na forma como tem há séculos se disseminado.

 

3.  A Educação Poético-Estética

 

O que queremos empreender aqui, com efeito, é apenas uma tarefa de libertação pela intuição. Como a intuição do contínuo nos oprime com frequência, é indubitavelmente útil interpretar as coisas com a intuição inversa.” (Bachelard, 2007, p. 59)

 

As primeiras oportunidades de cultivar um talento na vida são muito sutis e delicadas, são espontâneas e se emanam pacificamente do seu entorno. Porém, são as que mais, maior e melhor impacto produzem na qualidade e na completude da vida de uma pessoa e, assim, podem afetar de volta o seu meio com esta mesma qualidade. Historicamente, uma sociedade só desenvolve mais amplamente um equilíbrio e equanimidade coletiva, transforma eventuais injustiças ou consegue mudar o rumo das coisas também pacificamente, quando as pessoas têm mais possibilidades de encontrar e não perder essas oportunidades iniciais, bem específicas de uma vocação, incorporando-as, desta maneira, em um ritmo sóbrio e compassivo. Entretanto, em alguns sistemas e algumas organizações sociais que ainda se vivencia hoje, tanto como no passado, são tão disfuncionais que acabam banindo a preocupação com a diversidade dos talentos, chegando a ser tão brutais e cruéis na imposição de um enquadramento, que podem autodestruir essa possibilidade. Assim, no desejo de reencontrar algum contexto e oportunidades, se estas não são oferecidas estrategicamente, muitas dessas pessoas continuam a ser induzidas, quase obrigadas, a pensar, sentir e agir refletindo a mesma brutalidade deste seu meio hostil, antes de tudo contra si mesmas e depois em uma tentativa aflita por reconquistar as situações favoráveis àquelas oportunidades iniciais perdidas. Quando se deixa de recriar este ambiente favorável se instaura uma condição que alimenta cada vez mais profundamente aquele desequilíbrio psicossociológico, provocando um círculo vicioso de desumanização que se fecha mais em si mesmo, gerando um coágulo social denso também cada vez mais caótico, conflituoso e, como consequência, violento.

 

Nas composições das crianças Tolstói encontrou muito mais verdade poética do que nos maiores modelos da literatura. E se nas composições apareciam algumas passagens torpes, isso acontecia sempre por culpa do próprio Tolstói; onde as crianças estavam entregues a si mesmas elas não pronunciavam nenhum som falso. Daí Tolstói concluía que o ideal da educação estética como da educação moral não está no futuro, mas no passado, não está na aproximação da alma infantil à alma do adulto, mas na conservação das qualidades primitivas naturais dessa alma. (Vygotsky, 2001, p. 348)

 

Por este motivo se propõe o cultivo da imaginação como uma grande oportunidade. É por isso que também é possível através dessa compreensão do processo artístico, justamente pela potência destas significações anímicas que proporciona, estabelecer um campo seguro e controlado onde seria possível expor algumas das origens dessas situações e desses contextos brutalizados se movimentando em tempo real. Desta maneira, surgem mais caminhos para o pensamento, o sentimento e a ação se desvencilharem desses elementos que possam reproduzir violência, retomando a sua fundação para a transcender, seja desde suas formas simbólicas até a sua manifestação física. A proposição é que pelo exercício constante dessa manutenção e desse desenvolvimento das qualidades primordiais da alma, anteriores a qualquer sistematização de sua própria qualidade, catarticamente inspiradas por uma poetização e uma abstração imaginativas, é que se pode decifrar e repudiar essa violência nas suas piores formas. Não por um mero esforço pela sua extinção, não pela ideia apenas da sua repressão, não pelo conflito constante contra o seu impulso, o que é ainda um movimento próprio desta violência. Porém, com a atenção de não a provocar ainda mais, agravando o problema, como acontece com as ideologias, as religiões e até mesmo a racionalização científica, mas, pela evocação desta perspectiva ampliada da alma espalhada pelo cotidiano.

 

Aqui reside a chave para a tarefa mais importante da educação estética: introduzir a educação estética na própria vida. A arte transfigura a realidade não só nas construções da fantasia, mas também na elaboração real dos objetos e situações. A casa e o vestiário, a conversa e a leitura, e a maneira de andar, tudo isso pode servir igualmente como o mais nobre material para a elaboração estética. De coisa rara e fútil a beleza deve transformar-se em uma exigência do cotidiano. O esforço artístico deve impregnar cada movimento, cada palavra, cada sorriso da criança. É de Potiebniá a bela afirmação de que, assim como a eletricidade não existe só onde existe a tempestade, a poesia também não existe só onde há grandes criações da arte, mas em toda parte onde soa a palavra do homem. E é essa poesia de ‘cada instante’ que constitui quase que a tarefa mais importante da educação estética. (Vygotsky, 2001, p. 352)

 

Assim, a partir de algumas atividades artísticas práticas e de uma exposição crítica, incluindo alguns questionamentos e ajustes pontuais aos autores citados, pretende-se acusar as limitações desse pensamento afirmativo e de sua diferenciação em relação à amplitude de uma imaginação que aqui se propõe seja negativa. A intenção é esboçar de maneira formativa a importância da compreensão e da negação daquela condição da violência que também pode afetar todas as iniciativas educativas e educacionais e que, embora aparentemente passiva e até mesmo julgada como louvável, está significativamente relacionada aos problemas desse pensar positivo. Na tentativa de desfazer aquela ansiedade pelo possível, que ignora a necessidade da atenção e da compreensão de seu comprometimento com preconceitos e condicionamentos psicológicos e culturais, estes baseados naquele conflito comparativo entre reação e ação, entre o que se pensa deveria ser e o que realmente é, entre a ilusão da ideia e a verdade do fato. Nesta proposta se espera, então, através do reconhecimento da origem dessa violência específica, apresentar algumas provocações pedagógicas para enriquecer a consciência do processo artístico, com o intuito de estabelecer uma base para um novo paradigma, a partir e para além de uma educação estética que já aspirava a uma formação humana integral, mas que talvez seja insuficiente para as exigências desta contemporaneidade, incorporando novos elementos e propondo uma ampliação para uma nova conceitualização que aqui se nomeia de educação poético-estética (Catani, 2026).  

 

3.1.  A Abstração e a Poetização

 

Aquilo que é abstrato e aquilo que é poesia podem ser definidos como o cerne desta experiência anímica. Um fenômeno que tem subjacente uma relação dialética passional, um é substância e sem este a poesia se torna vazia, a outra é essência e sem esta o abstrato perde o sentido. Revertendo a ideia comum de que a poetização e a abstração sejam esse algo fútil, inútil, decorativo ou apenas para entretenimento prazeroso e diletante. Até mesmo sem um pragmatismo suficiente para influenciar uma realidade trágica que exige ações concretas. É importante provocar a percepção do quanto estes são fundamentais e o quão profundamente se relacionam com a capacidade humana para essa compreensão do verdadeiro e da sua comunicação honesta, sendo que sem estes valores a experiência humana se torna incompleta. É através de uma conjunção entre o pensar, o sentir e o agir que a vivência destes elementos tem o potencial de provocar uma combinação capaz de proporcionar, de desencadear a perspectiva anímica por excelência e que por si mesma tem o poder de iniciar essa completude, pois, sem este alinhamento esta nunca pode ser alcançada e se manifestar. Não na redução de uma especulação sensitiva ou na ilusão de algo extrassensorial, porém, por toda a significação que esta alma carrega para a organização da própria natureza do ser.

É através destes mesmos elementos, no seu melhor exemplo, que se criou a música e que também foi a base para o desenvolvimento desde as linguagens até muito das tecnologias. A maioria das línguas têm sua origem também em oralidades e textos poetizados, assim como a escrita e até mesmo cálculos são elaborados a partir de abstrações imagéticas. Da mesma maneira, por uma maiêutica alegórica reversa, ou seja, da superfície ao fundo, é através destes mesmos movimentos que se pode olhar, que se pode entender algumas dessas raízes da violência, originadas no desalinhamento deste pensar em relação ao sentir e o agir. Para fazer essa viagem de volta no tempo e retificar esses problemas que a racionalidade sozinha nunca conseguiu resolver, exatamente porque foi esta mesma que os inventou, nada pode ser mais original do que se dedicar à poetização e à abstração. Desta maneira, o encaminhamento central desta proposta é que se pode tomar o poema literário e a obra de arte abstrata, enquanto uma concretização destas qualidades, como a inauguração do processo artístico e que qualquer iniciativa de educação estética deveria assumir estes como o seu fundamento. Porque esta combinação é em si mesma a gênese de toda a movimentação do imaginário, é a sua verdadeira fonte e muito provavelmente, anterior a estas manifestações, ainda não seria possível uma definição de humanidade.

 

3.2.  Disposições e Temas da Alma

 

Daí a função de uma arte aberta como metáfora epistemológica: em um mundo em que a descontinuidade dos fenômenos colocou em crise a possibilidade de uma imagem unitária e definitiva, isso sugere uma forma de ver o vivido e, ao vê-lo, aceitando-o, integrá-lo em nossa sensibilidade. Uma obra aberta enfrenta plenamente a tarefa de oferecer uma imagem de descontinuidade: pois não a descreve, é a própria descontinuidade. É um mediador entre a categoria abstrata da metodologia científica e a matéria viva de nossa sensibilidade; quase como uma espécie de esquema transcendental que nos permite compreender novos aspectos do mundo. (Eco, 1968, p. 158)

 

Para cultivar esta especificidade imaginativa como essa transcendência potencial, é preciso descobrir as suas disposições que, anteriores a novas idealizações, são a negação desse positivismo radical. Porque senão este acaba bloqueando as possibilidades da compreensão dessa raiz da violência, pelo próprio paroxismo da continuidade especulativa de propostas que fomenta irrefletidamente. Para tanto, é imperativo começar por entender a função de uma reflexão poético-estética inerente à imaginação. Esta sempre surge na elaboração da significação de uma obra artística como este signo semiótico ao qual se dedica o processo artístico, em seu poder de revelar os movimentos dessa alma transcendente que, por este princípio, está disponível a qualquer ser humano. Uma inerência que está exatamente na essência e na substância dessa qualidade anímica, através da tentativa de criação do que pode ser descrito como as disposições poéticas do significado e as disposições estéticas do significante nessa obra artística.

O conceito das disposições poético-estéticas foi elaborado em uma dissertação anterior (Catani, 2011), que registrou e refletiu sobre atividades de formação de professores, partindo de uma decodificação semiótica de algumas obras icônicas relacionadas às definições mais banalizadas dos períodos da história da arte. Foi tomado desta maneira porque, enquanto significações e ainda pelo mesmo princípio, estariam presentes tanto nesta simplória quanto nas mais elaboradas. Sendo que esta escolha poderia então abranger mais possibilidades de compreensão, o que realmente se confirmou na sua apropriação pelos participantes, que reconheciam os períodos baseados nestas disposições e não na obrigação de decorar as imagens e suas datas. Deste modo, formam uma visão conjectural que de alguma maneira estariam incorporadas aos processos de ação, invenção ou criação de que é capaz o ser humano e também expressas, sem nenhuma restrição, em todos os movimentos da imaginação. Estas teriam sido sedimentadas através dos milhares de anos da experiência psicológica e cultural humana, ou seja, não são inatas, mas, por outro lado, também não representam exclusivamente um cenário de evolução do primitivo ao contemporâneo, pois, talvez sempre estiveram orbitando essa experiência como sentido, esperando apenas a sua descrição. Destiladas como uma alegoria a partir desse senso comum dos períodos, foram arranjadas em duplas, sendo que cada uma destas contém um elemento de característica poética subjetiva e um outro correspondente de característica estética objetiva e que, por sua vez, cada dupla gera um dos temas primitivos de uma alma artística: Primitivo - Ritmo / Ritual = O Tempo; Antigo - Reflexão / Mitologia = O Divino; Medieval - Devoção / Religiosidade = O Sacrifício; Renascimento - Identidade / Humanidade = A Verdade; Moderno - Dinamização / Sociedade = O Ser; Contemporâneo - Equanimidade / Panculturalidade = A União (Catani, 2011).

Cada uma destas palavras escolhidas, em sua própria etimologia, é apresentada como o mínimo contido em uma obra qualquer, como se fosse uma senha ou mesmo uma equação, para a aproximação à significação de qualquer criação imaginativa humana. Se tornam, então, um elemento de um conceito arquetípico complexo, responsável por evocar as qualidades que podem representar algumas qualidades anímicas fundamentais. Como disposições intrínsecas a um signo anímico, tentam abranger o espectro de seus conflitos e de suas aptidões, da pessoa e dos seus ambientes. Criam um cenário imagético em que figuram como uma espécie de elementos inerentes ao processo criativo, sugeridos então como motes, noções bem estáveis que podem ser relacionadas conceitualmente a qualquer obra de arte ou peça literária, como os temas mais primitivos de uma alma artística. Retomando e redimensionando uma semiose em seus conceitos fundantes (Eco, 2016), apenas reconsiderando a importância de todo espectro da intelectualidade, inclusive e imprescindivelmente aquela ingênua que conquista sua voz com as novas conexões midiáticas, recusando a concepção de que apenas na erudição está sua melhor manifestação e afirmando, porém, que são intrinsecamente complementares. Desta maneira, o significado, como a gestão do impulso, a semente do processo criativo, uma intenção ou uma necessidade que pressiona o imaginador, é a pulsão anímica; o significante, como a gestão da manifestação, da execução necessária, onde a materialidade se estabiliza, é o momento em que a força invisível da criação assume os limites da matéria, para finalmente florescer no seu mundo. Enfim, na síntese dessa dialética vertical, aberta e descontínua (Bachelard, 1963), surgem os temas primitivos como a declaração extrema da sua significação. Reaprendendo daí somente que a intuição não necessariamente deva ser superada para que exista uma sistematização metodológica, mas que se incorpora a esta simultaneamente, em uma simbiose filosófica necessária. Carregando aquilo que pode ser apresentado como a descrição de um arquétipo conceitual que toda e qualquer expressão vai se inspirar por princípio, como o reflexo dessa manifestação de uma alma humana comum. 

 

3.3.  O Poema

 

A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema, ela deve dar uma visão do universo e o segredo de uma alma, um ser e objetos, tudo ao mesmo tempo. Se segue simplesmente o tempo da vida, ela é menos que esta; só pode ser mais que a vida imobilizando-a, vivendo no próprio lugar a dialética das alegrias e das dores. Ela é, então, o princípio de uma simultaneidade essencial em que o ser mais disperso, mais desunido, conquista sua unidade. (Bachelard, 2007, p. 99)

 

O poema é para todos, desde um ditado popular até uma Odisseia, passando pelas orações, as letras das canções e até mesmo um texto publicitário, tudo isso mantém e contém a linguagem do poema. Esta abrangência e amplitude o torna um elemento insubstituível para evocar aquelas qualidades da alma. O importante na frase poética, que seria interessante não necessitar ser explicada porque poemas não se explicam desde que são em si mesmos a explicação de algo, não é qualificar ou definir o que sejam os sentidos, ou qualquer outro termo em separado de uma maneira racionalista, mas, sob um afetamento poético e subjetivo criado pela sua leitura intuitiva, provocar o entendimento de uma maneira direta. Por isso se propõe usar a forma do poema, pois somente sua expressão pode ser entendida diretamente, na descoberta de que a imaginação é negativa. Ou seja, na sua subjetividade o que diz a sua verdade é o que não é evidente, não é aparente, não é afirmativamente objetivo, mas, é negação e transgressão de ideias e ações condicionadas. É um “não fazer”, porque é somente neste estado de reversibilidade que se fomenta a intenção artística. Sem o impulso poético nunca haverá a realização estética e, por mais que se promova técnicas e explicações antes do encontro com esta sua significação verídica, mesmo que insuficiente e ingênua, o texto criativo, ou sua leitura, não nascerá jamais.

Um exemplo de atividade prática, realizada em cursos de qualificação de professores (Catani, 2011), é uma oficina de criação de poemas a partir de palavras recortadas de jornais, revistas, cartazes ou folhetos, provocando um rearranjo destas na montagem de um poema inédito. A proposta é disponibilizar esse material aos participantes para que, pela necessidade de encontrar e ressignificar as palavras, acabem sendo afetados pela própria mensagem do texto onde estão inseridas, gerando um contexto para a elaboração do seu poema criado com estes retalhos e influenciado pela realidade contada nas páginas impressas. É uma maneira de demonstrar como o poeta encontra insuspeitadamente os seus motes espalhados pelo ambiente onde vive. Assim, o participante pode sentir a dificuldade que tem o poeta em reescrever aquilo que vê e ao mesmo tempo provocar a capacidade de expor as próprias significações de sua realidade. Aqui uma questão é fundamental na organização da escrita poética, principalmente para iniciantes: o melhor caminho não é pela apresentação de técnicas, mas sim, pela provocação dos movimentos do impulso poético que motiva o escritor. Uma aproximação pelos elementos poéticos e estéticos das realizações literárias, pelo seu fenômeno e no cultivo dessa provocação da imaginação, vai gerar muito mais qualificação na elaboração dos textos. Assim é necessário dar espaço para que o iniciante exista em suas dúvidas e despreparo, pois, o que é importante é essencialmente este diálogo fenomenológico, uma dialética espiritualidade/materialidade, poética/estética, como principal elemento dessa proposta artística. Como o desencadeamento de uma tensão filosófica entre um possível mote latente e a realidade imediata e insustentável que inspire o aparecimento desse impulso e não apenas um conjunto de regras, normas, medidas e gráficos em que seja possível se enquadrar forçando uma identificação. A técnica da escrita poética, de um modo ou de outro, surge ou se adaptará no momento certo se esta for uma necessidade do escritor em potencial.

 

3.4.  A Pintura Abstrata

 

A abstração do belo escapa a todas as polêmicas dos filósofos. De um modo geral, tais polêmicas são curiosamente vãs em todos os casos em que a atividade espiritual é criadora, tanto no que concerne à atividade da abstração racional na matemática como à atividade estética que abstrai rapidamente as linhas da beleza essencial. Se déssemos mais importância à imaginação, veríamos muitos falsos problemas psicológicos esclarecidos. (Bachelard, 2001, p. 65)

 

Uma imagem abstrata, seja bidimensional ou tridimensional, também tem o poder de manifestar uma sensibilidade atávica desse potencial da imaginação negativa por excelência. É a linguagem da alma, onde a imagem reversa é irracional e nessa sua negação da razão é alegórica, pois se revela pelo que não se enxerga imediatamente, pelo que não é explícito, não é descritivo, porém, inerentemente onírico e pleno de lirismo. E mesmo quando a abstração é geométrica, esta carrega muito mais de significações metafóricas do que planos de uma descrição objetiva. As cores são belas em si mesmas, suas combinações encantam a qualquer pessoa sem nenhuma restrição. As formas afetam quem quer que se aproxime destas. A intencionalidade da combinação de formas em composição e das cores em arranjo traduzem o próprio movimento de uma alma. Se o processo artístico é subjetivo, então pode ser algo inconsciente e irracional, mas ao mesmo tempo ecumênico. Em sua essência, pode ser coletivo e ainda assim, anônimo. Essa qualidade surpreende ao ser encontrada em algumas criações, pode-se dizer, espontâneas que falam sobre esta existência comum. Uma parede com uma textura sublime, um outdoor raspado que se transforma em uma abstração maravilhosa, composta de texturas, formas e cores incríveis. Pedras, peças antigas ou galhos dispostos em um charmoso arranjo poético que revelam uma imensa história e a poesia dos atos e sonhos humanos em uma única visão emocionante. Descobrir essas obras incomuns é um impulso poético, como uma arqueologia sublime, que cativa o artista abstrato na busca por decifrar e recriar, intencionalmente, a manifestação de sua estética misteriosa.

Um exemplo prático de ação, aplicado em laboratórios com adolescentes internados sob medidas socioeducativas (Catani, 2004), para o encontro com este fenômeno é uma atividade propondo provocar o aparecimento das formas e o desdobramento das cores a partir das três cores primárias. O mais recorrente exercício é apresentar antes o círculo das cores para uma demonstração intelectual das cores primárias e da formação das secundárias de maneira objetiva, onde sua reprodução posterior é resultado de um conhecimento dado e pragmático, sem o fomento da reflexão intuitiva tão importante ao artista. Apresentar o surgimento das cores desta maneira é como querer construir um telhado antes das paredes de uma casa. Em contraste a esta tradição, a maneira como se propõe que as misturas possíveis das cores sejam encontradas pela primeira vez e de como as formas se abstraem intuitivamente é que estas devam ser descobertas subjetivamente; antes de mais nada, devem ser vistas realmente surgindo durante o fazer artístico. Assim, a proposta é que se parta de uma folha de papel em branco e que as cores primárias sejam disponibilizadas por tintas e pincéis. O participante é avisado a “fazer algo que não existe”, como um incentivo para que se evite a reprodução viciada de temas recorrentes. Começando a aplicá-las sobre o papel devagar e com muita atenção para que cada cor tenha sua própria manifestação criando formas inusitadas e que, ao encontrar as outras cores diretamente sobre o papel, sejam misturadas ao acaso gerando as combinações com sua revelação acontecendo em tempo real. Neste movimento, o participante entra em contato com a sugestão de “manter o que já está bonito”, fazendo com que um nível de atenção e concentração seja despertado exclusivamente pela observação durante a execução do exercício. A surpresa da beleza da combinação das cores e a delicadeza da aparição das formas é uma oportunidade para um momento de sensibilidade inédita. Para uma educação estética que visa formar a intuição das cores e das formas, além de também exercitar a atenção da sua realização, há aqui uma diferença fundamental entre um modelo cartesiano fixo e imposto e a emoção de uma expressão fluida sendo descoberta diretamente por quem realiza o trabalho.

 

4.  Sobriedade, Compaixão e Vocação

 

A base poética da alma tira a psicologia dos limites do laboratório e do consultório, e até da subjetividade pessoal do indivíduo, e a transforma numa psicologia das coisas como encarnações de imagens com vida interior. (Hillman, 1983, p. 49)

 

Esta base da imaginação, que foi redimensionada nas sessões anteriores para ser entendida como uma manifestação poético-estética complexa, pode ser definida como uma qualidade anímica imprescindível à integralidade e à incorruptibilidade do ser, capaz de desenvolver uma personalidade necessária e comprometida com o melhor coletivo. No entanto, é importante também redefinir uma concepção de personalidade ideal, que na melhor hipótese do senso comum é sabida apenas como um lugar do bem estar, redimensionando esta base poética afirmada como mais reflexiva e conhecedora da sua situação dramática, onde a “ironia, humor e compaixão será a sua marca” (Hillman, 1983, p.89), pois, acredita-se ser possível ir além. Desta maneira, a ironia ou o humor são vistos aqui, na verdade, como derivados fragmentados, variações facetadas ou mesmo desfigurações da compaixão. Esta última é que figura assim no primeiro plano, pois é tomada como um fundamento anímico, como um elemento atômico e não apenas uma manifestação de ânimo, sendo uma das fontes de onde fluem estes outros aspectos que podem constituir uma personalidade. Outro fundamento primário, que aqui se inclui ao lado da compaixão e que também torna essa personalidade muito mais profunda é a sobriedade, sendo também capaz de se desdobrar em inúmeros elementos que, a partir desta, estabilizar-se-iam. Desta maneira, são a sobriedade e a compaixão que equilibram seja a ironia, o humor ou mesmo a raiva, a agressividade, ou seja, qualquer outra manifestação possível desses estados de ânimo, que sem estas poderiam facilmente degenerar como poderosos instrumentos da violência, assumindo estas características reativas agressoras ou mesmo autodestrutivas.

Entretanto, aqui se sugere seja incluída ainda mais um aspecto fundante desta alma que pode enriquecer essa personalidade na sua integridade e que poderia estabilizar a violência. Esta é a vocação, que através da sua evocação anímica será também reconhecida nestes elementos específicos mais aprofundados e engajados, manifestando-se como o eixo onde todo o movimento anímico irá se apoiar, onde todo o impulso de uma realização humana tem a sua força motriz. A partir daqui se apresenta uma elaboração de um arranjo que talvez venha a ser mais significativo na definição desta prioridade anímica, amplificando a sua manifestação espiritual. Deste modo, teríamos então esta trindade a ser cultivada: a sobriedade, a compaixão e a atenção à vocação. Esta última, figura como a descoberta e a vivência de uma paixão que se torna o sentido da experiência do viver, a expressão máxima daquilo que se pode perceber como o agir anímico. A compaixão, o sentir anímico, como mais do que o simples sentimentalismo da bondade, negando a mera comiseração. Um elemento de uma alma que está à disposição, é a capacidade da consciência em se dedicar e se absorver, amparada por uma visão além de si mesmo, tanto pelo sofrimento ou o pesar como pela fragilidade e a ingenuidade da sua própria condição em relação à mesma situação imediatamente reconhecida nos outros. A sobriedade, o pensar anímico, não como o pedantismo da erudição ou da disciplina imposta, nem a simples austeridade da abstinência, mas como a castidade de uma escolha vivenciada. Seja em qualquer um de todos os seus níveis possíveis nunca se manifesta como apenas moralidade ou penitência, mas na abnegação de um desapego, a negação profunda da alienação, como uma atenção e prontidão desta alma diante das necessidades e da responsabilidade consigo mesma, os outros e a sua realidade. Enfim, os três elementos alinhados configuram como a configuração conclusiva deste arquétipo conceitual, ou um conceito arquetípico, elaborado nesta proposta. Uma peça dinâmica e complexa que, movimentando-se simultaneamente, é a entidade que pode organizar as disposições e ratificar os temas primitivos como o álibi dessa presença anímica pensando, sentindo e agindo. A expressão de um fenômeno que suporta em si mesmo, juntando na força de um questionamento e no poder de uma definição, toda a possibilidade da perspectiva e da concepção de uma alma.

 

A linguagem primária e irredutível desses padrões arquetípicos é o discurso metafórico dos mitos. Eles podem assim ser compreendidos como os padrões fundamentais da existência humana. Para estudar a natureza humana no seu nível mais básico, é necessário voltar-se para a cultura (mitologia, religião, arte, arquitetura, o épico, o drama, o ritual) onde esses padrões são retratados. (Hillman, 1983, p. 23)

 

Ao sugerir esta trindade, uma metáfora máxima de uma conceitualidade mitológica, como matéria-prima durante a organização desta educação poético-estética, buscando esta base arquetípica na potência do processo artístico através da poetização e da abstração, um tênue reequilíbrio recomeça quando a vocação de cada um tem a chance de reaparecer naturalmente, realinhando-se ao seu contexto harmoniosamente ao se encontrar com novas circunstâncias intencionalmente preparadas e favoráveis nestes ambientes. Quando um contexto permite a reaproximação e a circulação destas inúmeras vocações em todos os seus espaços, passa a oferecer diversificações e diversidade de movimentações culturais de fácil acesso, cotidianas. Onde aquela comparação e aquela reatividade não encontram apenas a sua reverberação violenta e perdem a força, uma transformação pode realmente iniciar. Com a atenção a essas possibilidades e a esse consentimento o talento se expressa sem pressão, coação ou outra imposição competitiva qualquer que, apenas baseada na corrida pela fama, sucesso e exclusividade, o sufocava desvirtuando este seu destino. Será isso, simplesmente, a melhor ajuda que se poder dar, principalmente às crianças e aos mais jovens, para que descubram e se apaixonem pelo aprofundamento nas incontáveis formas de expressão, habilidades e realização humanas. Revela-se, então, uma fonte que fomentará, ao longo do tempo, relacionamentos enriquecedores e um consistente desenvolvimento psicológico, social e cultural, em que responsabilidades são voluntariamente assumidas. Uma natureza tão especial que poderá se expandir como um cristal, refletindo suas infinitas faces e luminosidades para todos os cantos deste seu mundo.

 

5.  Considerações Finais

 

O imaginador, o apaixonado pela alma rústica, artística, é despertado e parte para retificar a sacralidade da sua vida, ao retomar constantemente a reflexão filosófica ingênua sobre os temas primitivos. Afirma neste ato que cada uma dessas potências atávicas, que podem ser conquistadas intuitivamente simplesmente na evocação desses temas, desencadeiam neste ser imaginador os elementos arquetípicos fundamentais para o processo de criação de imagens que, simultaneamente, mantêm-no apto ao instante silencioso da presença mítica do espírito do mundo. (Catani, 2011, p.203)

 

A expectativa é, então, de que o próprio intento em direção à retomada desta condição anímica vital já seja, em si mesmo, o maior e mais importante passo para a inauguração desta libertação da violência. Porque a liberdade só é liberdade se está no começo não no fim e até mesmo alguém encarcerado deve ser livre em algum aspecto para conseguir suportar esta realidade. Quando se deixa de tentar impor o que é o verdadeiro, de especular qual é a melhor solução e de empilhar mais uma ideia acerca de como a realidade deveria ser, a decisão de estabelecer esta base originária capaz de discernir essa realidade e negar o que é falso começa enfim a observar toda a extensão da violência e, neste exato momento, já está em vigor a verdade. Antes de retornar ao ponto onde esta especulação afirmativa ainda não havia inventado toda essa fragmentação, nada vai se libertar dessa violência. Sem negar o que é fragmentário, nenhuma integralidade poderá existir e qualquer movimento apenas vai produzir mais violência, pois a verdade é complexa, polissêmica e reversa, ou seja, a verdade é tudo aquilo que ela não é. Porque a verdade não pode ser afirmada senão no desprendimento de tudo o que é falso, no abandono de tudo o que pretende ser para o encontro com o que é. Porque é essa liberdade que desfoca a aglutinação do pensamento positivista, abrindo espaço para a imaginação dissipar este condicionamento, o que permite que novas concepções aflorem. Ao se encontrar o inusitado, instigado pelas disposições e pelos temas primitivos, surge um alento inédito neste instante intuitivo. É quando uma expressão poético-estética, ao mesmo tempo mergulhada e envolvida nesta trindade anímica apresentada, consegue afetar a superficialidade da personalidade pelo sentido profundo de sua alma. Quando neste momento o imaginador se enxerga nessas qualidades anímicas e se espanta pela extensão daquilo que apenas acabou de realizar intuitivamente. Isto é, a importância do cultivo desta vitalidade é tal que, mesmo se aquela perspectiva da alma não é exclusivamente o que a provoca, mesmo se esta não garanta automaticamente a resolução deste ou todos os problemas humanos, certamente a sua ausência torna qualquer tentativa neste sentido simplesmente impossível. É uma condição de que qualquer projeto de solução para qualquer problema humano, principalmente o da violência, deve impreterivelmente começar desta base esboçada aqui.

 

Então, o que é o amor? Sabe, para descobrir o que é, é preciso negar, deixar de lado completamente o que não é. Através da negação, chega-se ao positivo; não busque o positivo, mas chegue a ele compreendendo o que ele não é. Ou seja, se eu quiser descobrir o que é a verdade, sem saber o que ela é, preciso ser capaz de ver o que é falso. Se eu não tiver a capacidade de perceber o que é falso, não posso ver o que é a verdade. Portanto, preciso descobrir o que é falso. (Krishnamurti, 1973, p. 6)

 

Assim, seguindo por esta aproximação se espera provocar a expansão destes movimentos anímicos primordiais para que a violência não seja apenas suprimida, mas redimensionada e passe a ocupar o seu lugar, que de fato existe, enquanto a força vital que carrega também a sua significação. Isto porque, assim como o falso não é o oposto do verdadeiro, mas a sua degeneração, essa violência em metástase é a degradação de uma vocação, a perda de sua sobriedade em acolher e o despreparo de sua compaixão em entender, sendo que o próprio reconhecimento desta realidade já é a retomada de um processo para a sua regeneração. Seja um fenômeno da vocação coletiva como a da cultura de um povo ou individual como a desse talento único reconhecido na expressão da vocação, sua tragédia começa quando não é reconhecida ou possibilitada, sendo perdida, silenciada ou excluída de seu próprio meio e de si mesma. É assim porque a revolução mais profunda quem faz são os relacionamentos cotidianos dessas vocações apenas quando compartilhadas. E ainda que não baste apenas se dedicar completamente ao próprio talento, pois, inúmeros são os exemplos em que a vocação é vivenciada plenamente, mas mesmo assim a desordem, o conflito e a violência não estão controlados, esta é um elemento inadiável, porque é somente ao se alinhar com aquela sobriedade e aquela compaixão que se cria a única estrutura dinâmica possível, aqui se acredita, para a equilibração desta experiência humana. Por fim, é imperativo declarar que a própria compreensão desta condição desequilibrada já é a negação do seu domínio e é o principal movimento para o enriquecimento da própria vocação de toda a humanidade. Deste modo, ao ser realinhada pelos sentidos da poesia e pelas dimensões da abstração, na imprescindível ampliação da potência da imaginação, a violência se dilui ao se adequar à sua necessidade. Cultivando esta alma rústica que é em si mesma a sua própria liberdade, para a superação deste pensamento escravizado ou autossabotado. Não apenas como uma entidade mística ou sobrenatural, vencendo inclusive um preconceito acadêmico que recusa uma aproximação. Mas sim como este signo potente, este arquétipo universal e polissêmico em movimento que carrega tudo o que dá especificidade ao ser, inspirando a manifestação do fenômeno de uma integralidade profunda e a própria fundação da humanidade, da sua espiritualidade. Firmada no compromisso entre as vocações de cada um em uma relação cosmogônica com sua época e o espírito de seu mundo, que assim passa a amparar o instinto reativo pela intuição que instaura, compartilhada, sóbria e compassiva, enfim, a gênese de uma consciência já liberta, integradora e universalizada.

 

 

 







Referências:
 
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