2 de abr. de 2026

A Raiz da Violência (proposta)



A Raiz da Violência: Uma Pedagogia da Alma

Por Fernando Henrique Catani, M.Ed.


A Pedagogia, além de desenvolver processos educativos formais, não formais e informais, é uma ciência que assume a investigação dos problemas de uma formação humana integral, articulando uma intersecção de variados saberes, sejam leigos ou científicos, imbricando as teorias e as práticas de diversas outras áreas e ciências, para propor e aplicar soluções aos grandes desafios das sociedades. A violência é um desses temas dramáticos sobre o qual a Pedagogia se debruça, não apenas para definir ou denunciar, mas, principalmente, para desenvolver ações que possam transformar situações e contextos onde aquela se manifesta explicita ou subjacentemente. Aqui se propõe uma Pedagogia da alma, artística, por uma semiose fenomenológica fincada em Umberto Eco, na reflexão sobre ações educativas desenvolvidas através do diálogo entre a educação estética de Lev Vygotsky, a poética do devaneio de Gaston Bachelard, a piedade política de James Hillman e a meditação ativa do momento a momento de Jiddu Krishnamurti.


“Daí a função de uma arte aberta como metáfora epistemológica: em um mundo em que a descontinuidade dos fenômenos colocou em crise a possibilidade de uma imagem unitária e definitiva, isso sugere uma forma de ver o vivido e, ao vê-lo, aceitando-o, integrá-lo em nossa sensibilidade. Uma obra aberta enfrenta plenamente a tarefa de oferecer uma imagem de descontinuidade: pois não a descreve, é a própria descontinuidade. É um mediador entre a categoria abstrata da metodologia científica e a matéria viva de nossa sensibilidade; quase como uma espécie de esquema transcendental que nos permite compreender novos aspectos do mundo.” (Eco, U. 1968. Obra Aberta. São Paulo: Editora Perspectiva. p158)


A partir de uma exposição crítica, incluindo alguns questionamentos pontuais aos autores citados, sobre as limitações de um pensamento afirmativo e de sua diferenciação em relação à amplitude de uma imaginação negativa, a intenção é esboçar de maneira formativa a importância da compreensão de uma situação que aqui se propõe como uma das mais significativas relacionadas ao problema da violência que é: o conflito comparativo entre reação e ação, entre o que se pensa deveria ser e o que realmente é, entre a ilusão da ideia e a verdade do fato. Desde aquela geopolítica, instrumentalizada pela ação predatória do mercado financeiro, que promove guerras pelo mundo; passando por aquela social, muitas vezes velada, que o professor usa para controlar e submeter seus alunos; tanto a cultural, da publicidade com sua constante humilhação subliminar; até aquela violência doméstica que usurpa um espaço pessoal ou a segurança física e psicológica de uma criança. Para cultivar esta especificidade imaginativa, como uma resistência possível, é interessante começar por entender a função de uma abstração poético-estética.


“Nas composições das crianças Tolstói encontrou muito mais verdade poética do que nos maiores modelos da literatura. E se nas composições apareciam algumas passagens torpes, isso acontecia sempre por culpa do próprio Tolstói; onde as crianças estavam entregues a si mesmas elas não pronunciavam nenhum som falso. Daí Tolstói concluía que o ideal da educação estética como da educação moral não está no futuro mas no passado, não está na aproximação da alma infantil à alma do adulto, mas na conservação das qualidades primitivas naturais dessa alma.” (Vygotsky, L. 2001. Psicologia Pedagógica. São Paulo: Martins Fontes. p348)

“Aqui reside a chave para a tarefa mais importante da educação estética: introduzir a educação estética na própria vida. A arte transfigura a realidade não só nas construções da fantasia, mas também na elaboração real dos objetos e situações. A casa e o vestiário, a conversa e a leitura, e a maneira de andar, tudo isso pode servir igualmente como o mais nobre material para a elaboração estética. De coisa rara e fútil a beleza deve transformar-se em uma exigência do cotidiano. O esforço artístico deve impregnar cada movimento, cada palavra, cada sorriso da criança. É de Potiebniá a bela afirmação de que, assim como a eletricidade não existe só onde existe a tempestade, a poesia também não existe só onde há grandes criações da arte, mas em toda parte onde soa a palavra do homem. E é essa poesia de ‘cada instante’ que constitui quase que a tarefa mais importante da educação estética.” (Vygotsky, L. 2001. Psicologia Pedagógica. São Paulo: Martins Fontes. p352)


É comum a ideia de que a linguagem da poesia e a imagem abstrata sejam algo fútil, decorativo ou apenas para entretenimento prazeroso e diletante, até mesmo não pragmáticas o suficiente para influenciar uma realidade trágica que exige ações concretas.  Mas é importante perceber o quanto estas são fundamentais e o quão profundamente se relacionam com a capacidade humana para essa compreensão do verdadeiro e da sua comunicação honesta, sendo que sem estes valores a experiência humana se torna incompleta. É através destes elementos que se criou desde as linguagens até as tecnologias. A maioria das línguas têm sua origem em oralidades e textos poéticos, assim como a escrita e até mesmo cálculos são elaborados a partir de abstrações imagéticas. Da mesma maneira, reversamente, ou seja, da superfície ao fundo, é através destes movimentos que se pode olhar, que se pode entender algumas das raízes da violência: a comparação, a reatividade e, principalmente, o desvio do talento.


“A abstração do belo escapa a todas as polêmicas dos filósofos. De um modo geral, tais polêmicas são curiosamente vãs em todos os casos em que a atividade espiritual é criadora, tanto no que concerne à atividade da abstração racional na matemática como à atividade estética que abstrai rapidamente as linhas da beleza essencial. Se déssemos mais importância à imaginação, veríamos muitos falsos problemas psicológicos esclarecidos.” (Bachelard, G. 2001. O Ar e os Sonhos. São Paulo: Martins Fontes, p65)

“A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema, ela deve dar uma visão do universo e o segredo de uma alma, um ser e objetos, tudo ao mesmo tempo. Se segue simplesmente o tempo da vida, ela é menos que esta; só pode ser mais que a vida imobilizando-a, vivendo no próprio lugar a dialética das alegrias e das dores. Ela é, então, o princípio de uma simultaneidade essencial em que o ser mais disperso, mais desunido, conquista sua unidade.” (Bachelard, G. 2007. A Intuição do Instante. Campinas: Verus, p99)


Esta base poético-estética da imaginação, pode ser definida como uma qualidade anímica que se sugere aqui é reconhecida em alguns elementos específicos em contraponto àqueles radicais violentos e estes são: a sobriedade, a compaixão e a atenção à vocação, como a descoberta e a vivência de uma paixão. Compaixão não é a simples bondade ou a comiseração, mas uma alma que está à disposição, é a capacidade da consciência em se dedicar e se absorver, amparada por uma visão de escala, tanto pelo sofrimento ou o pesar como pela fragilidade e a ingenuidade da sua própria condição e a dos outros. Sobriedade não é somente a abstinência, mas é a castidade de uma escolha vivenciada, seja em qualquer um de todos os seus níveis possíveis, não como a moralidade ou a penitência, mas é a abnegação de um desapego, a atenção e a prontidão desta alma diante das necessidades e da responsabilidade a si mesmo, os outros e o ambiente. É por isso que também é possível, através da compreensão do processo artístico da pintura abstrata e da elaboração do poema, propostos como um campo seguro e controlado onde seria possível descobrir algumas das origens dessas situações e desses contextos. Desta maneira, desencadeia-se uma oportunidade para encontrar mais caminhos para libertar o pensamento e a ação desses elementos da violência, retomando a sua fundação, desde sua forma simbólica até mesmo a sua manifestação física.


“A linguagem primária e irredutível desses padrões arquetípicos é o discurso metafórico dos mitos. Eles podem assim ser compreendidos como os padrões fundamentais da existência humana. Para estudar a natureza humana no seu nível mais básico, é necessário voltar-se para a cultura (mitologia, religião, arte, arquitetura, o épico, o drama, o ritual) onde esses padrões são retratados. Esse movimento, que se afasta das bases bioquímicas, histórico-sociais e comportamentais da natureza humana, e privilegia a imaginação, foi articulado por Hillman como ‘a base poética da mente’.” (Hillman, J. 1983. Psicologia Arquetípica. São Paulo: Cultrix, p23)

“A base poética da alma tira a psicologia dos limites do laboratório e do consultório, e até da subjetividade pessoal do indivíduo, e a transforma numa psicologia das coisas como encarnações de imagens com vida interior.” (Hillman, J. 1983. Psicologia Arquetípica. São Paulo: Cultrix, p49)


A proposição é que pelo exercício constante do desenvolvimento dessas qualidades, catarticamente inspiradas pela poesia imaginativa e a abstração das formas e das cores, é que essa liberdade pode renascer, ou seja, é pelo o cultivo daquilo que se apresentará como os temas primitivos de uma alma rústica que a violência pode ser neutralizada, não por um esforço pela sua extinção, não pela ideia da sua repressão, não pelo conflito constante contra o seu impulso, o que é ainda um movimento próprio da violência, porém, justamente porque este cultivo começa com uma iniciação à consciência da riqueza desta noção anímica, que deveria se manter anterior a qualquer sistematização de sua própria qualidade, como são as reflexões filosóficas, as religiões e até mesmo a racionalização científica e que muitas vezes agravam o problema. Assim, seguindo por esta aproximação se espera provocar essa expansão destes movimentos anímicos primordiais para que a violência não seja apenas suprimida, mas redimensionada e passe a ocupar o seu lugar, que de fato existe. Isto porque, assim como o falso não é o oposto do verdadeiro, mas a sua degeneração, sendo que o próprio reconhecimento desta já é a sua libertação, a violência é a degradação de uma vocação que não foi reconhecida ou possibilitada, sendo perdida, silenciada ou excluída de seu próprio meio e de si mesma. Por fim, é imperativo afirmar que a própria compreensão desta condição já é o movimento da verdade de uma vocação.


"A desordem não pode ser transformada em ordem, mas a negação da desordem é a natureza da mudança. A própria negação é a mudança. A negação da desordem é a natureza positiva da mudança. Ou seja, vejo desordem em mim mesmo – raiva, ciúme, brutalidade, violência, suspeita, culpa – você sabe como são os seres humanos – estou ciente disso; a mente está totalmente ciente de tudo isso, que é desordem. Ela pode negá-la completamente, eliminá-la? Quando a elimina por meio da negação, a natureza da mudança é a ordem positiva. O positivo só pode vir através do negativo." (Krishnamurti, J. Talk to Young People 2. Universidade de Stanford. 12 de fevereiro de 1969)

"O que vos libertará da realidade da violência? Não a ideia da não violência, mas a realidade da violência – conhecer o fato do que é, não a ideia do que não deveria ser. Já tentamos isso, pregamos incessantemente sobre a não violência; todas as religiões falam de não violência: 'Sejam bondosos, sejam gentis, não machuquem, amem o próximo'. Mas as religiões não produziram paz; pelo contrário, provocaram guerras religiosas. O que pode pôr fim à violência é encará-la, confrontá-la com a sua realidade." (Krishnamurti, J. Discurso Público 5. Saanen, 19 de julho de 1966)

"Enquanto houver uma dualidade, isto é, violência e não violência, haverá conflito e, portanto, mais violência. Enquanto eu não reconhecer que sou estúpido e impuser a isso a ideia de que devo ser inteligente, a violência começa. Quando me comparo com você, isso também é violência. Comparação, supressão e controle indicam violência. Sou assim: comparo, reprimo, sou ambicioso." (Krishnamurti, J. Discussão Pública 1. Saanen, 3 de agosto de 1969)


A abstração e a poesia têm uma relação passional, uma é substância e sem esta o poema se torna vazio, a outra é essência e sem esta o abstrato perde o sentido. O poema é para todos, desde um ditado popular até uma Odisseia, passando pelas orações, as letras das canções e até mesmo um texto publicitário, tudo isso mantém e contém a linguagem do poema. Esta abrangência e amplitude o torna um elemento insubstituível para evocar a alma rústica. O importante na frase poética, que seria interessante não necessitar ser explicada porque poemas não se explicam, pois são em si mesmos a explicação de algo, não é qualificar ou definir o que sejam os sentidos, ou qualquer outro termo em separado de uma maneira racionalista, mas, sob um afetamento poético e subjetivo criado pela sua leitura intuitiva, provocar o entendimento de uma maneira direta. Por isso se propõe usar a forma do poema, pois somente uma metáfora pode ser entendida diretamente, na descoberta de que a imaginação é negativa e, nunca, positiva, ou seja, na sua subjetividade o que diz a sua verdade é o que não é evidente, não é aparente, não é afirmativamente objetivo, mas é negação e transgressão de ideias e ações condicionadas. É um “não fazer”, porque é somente neste estado reverso que se fomenta a intenção artística. Sem o impulso poético nunca haverá a realização estética e, por mais que se promova técnicas e explicações antes do encontro com essa sua significação verdadeira mesmo que insuficiente e ingênua, o texto criativo não nascerá jamais.

Um exemplo de atividade prática realizada é um laboratório da criação de  poemas a partir de palavras recortadas de jornais, revistas, cartazes ou folhetos para um rearranjo montando um poema inédito. A proposta é disponibilizar esse material aos participantes e, que pela necessidade de encontrar as palavras, acabe sendo afetado pela própria mensagem do texto onde estão inseridas, gerando um contexto para a elaboração do seu poema criado com estes retalhos e influenciado pela realidade contada nas páginas impressas. É uma maneira de demonstrar como o poeta encontra os seus motes espalhados pelo ambiente onde vive. Assim, o participante pode sentir a dificuldade que tem o poeta em reescrever os significados daquilo que vê e ao mesmo tempo provocar a capacidade de expor as próprias significações de sua realidade. Uma questão é fundamental na organização da escrita poética, principalmente para iniciantes: o melhor caminho não é pela apresentação de técnicas, mas sim, pela provocação dos movimentos do impulso poético que motiva o escritor. Uma aproximação pelo elemento poético e pela qualidade estética das realizações literárias, no cultivo dessa qualidade de imaginação, vai gerar muito mais qualidade na elaboração dos textos. Aqui é necessário dar espaço para que o iniciante exista em suas dúvidas e despreparo, pois, o que é importante é essencialmente um diálogo fenomenológico, uma dialética espiritualidade/materialidade, poética/estética, como principal elemento dessa proposta artística. Como o desencadeamento de uma tensão filosófica entre um possível mote latente e a realidade imediata e insustentável que force o aparecimento desse impulso e não apenas um conjunto de regras, normas, medidas e gráficos em que seja possível se enquadrar e se reconhecer. A técnica da escrita poética, de um modo ou de outro, surge ou se adaptará no momento certo se esta for uma necessidade do escritor. 

Uma imagem abstrata, seja bidimensional ou tridimensional, também tem o poder de manifestar uma sensibilidade atávica desse potencial da imaginação negativa por excelência, é a linguagem da alma, onde a imagem reversa é irracional, é alegórica, pois se revela pelo que não se enxerga imediatamente, pelo que não é explícito, não é descritivo, porém, inerentemente onírica e plena de lirismo. E mesmo quando a abstração é geométrica, esta carrega muito mais de significações cosmogônicas e metafóricas do que planos de uma descrição objetiva. As cores são belas em si mesmas, suas combinações encantam a qualquer pessoa sem nenhuma restrição. As formas afetam quem quer que se aproxime destas. A intencionalidade da combinação de formas em composição e das cores em arranjo traduzem o próprio movimento de uma alma rústica. Se o processo artístico é subjetivo, então pode ser algo inconsciente e irracional. Em sua essência, pode ser coletivo e, portanto, anônimo. Essa qualidade surpreende em algumas criações espontâneas que falam sobre uma existência comum. Uma parede com uma textura sublime, um outdoor raspado que se transforma em uma abstração maravilhosa, composta de texturas, formas e cores incríveis. Pedras, peças antigas ou galhos dispostos em um charmoso arranjo poético que revelam uma imensa história e a poesia dos atos e sonhos humanos em uma única visão estonteante. Descobrir essas obras incomuns é um impulso poético, como uma arqueologia da melancolia, que cativa o artista abstrato na busca por decifrar e recriar, intencionalmente, a manifestação de sua estética misteriosa.

Um exemplo prático de ação já aplicado para o encontro com este fenômeno é uma atividade propondo provocar o aparecimento das formas e o desdobramento das cores a partir das três cores primárias. O círculo das cores é uma demonstração tradicional das cores primárias e da formação das secundárias da maneira objetiva, positiva, em que seu surgimento é resultado de um conhecimento dado e pragmático, sem o fomento da reflexão intuitiva tão importante ao artista. Apresentar o surgimento das cores desta maneira é como querer construir um telhado antes das paredes da casa. A maneira como se propõe que as misturas possíveis das cores sejam encontradas pela primeira vez e de como as formas se abstraem intuitivamente é que estas devam ser descobertas subjetivamente, antes de mais nada, devem ser vistas realmente durante o fazer artístico. Assim, a proposta é que se parta de uma folha de papel em branco e que as cores primárias sejam disponibilizadas por tintas e pincéis.  Antes de tudo, o participante é avisado a “fazer algo que não existe” e que comece a aplicá-las sobre o papel devagar e com muita atenção para que cada cor tenha sua própria manifestação ao criar formas inusitadas e que, ao encontrar as outras cores diretamente sobre o papel, sejam misturadas ao acaso gerando as combinações com sua revelação acontecendo em tempo real. Neste movimento o participante entra em contato com a augestão de "manter a beleza" e, caso ultrapasse e as misturas percam a clareza e as formas a estrutura, inicia-se outro trabalho. Para uma educação estética que visa formar a intuição das cores e das formas, além de também exercitar a atenção da execução, há aqui uma diferença fundamental entre um modelo cartesiano fixo e imposto e a emoção de uma expressão fluida sendo descoberta diretamente por quem realiza o trabalho.


“O imaginador, o apaixonado pela alma rústica, artística, é despertado e parte para retificar a sacralidade da sua vida, ao retomar constantemente a reflexão filosófica ingênua sobre os temas primitivos. Afirma neste ato que cada uma dessas potências atávicas, que podem ser conquistadas intuitivamente simplesmente na evocação desses temas, desencadeiam neste ser imaginador os elementos arquetípicos fundamentais para o processo de criação de imagens que, simultaneamente, mantêm-no apto ao instante silencioso da presença mítica do espírito do mundo.” (Catani, F.H. 2011. Uma Visão da Alma Artística. Dissertação de Mestrado. Campinas: FE-Unicamp. p203)


A expectativa é, então, de que o próprio intento em direção à retomada desta condição anímica já seja, em si mesmo, o maior e mais importante passo para a inauguração desta libertação da violência e que, mesmo se não exclusivamente o que a provoca, provavelmente sem este movimento esta nunca aconteça. Uma violência que é intrínseca e subjacente a esse pensamento que exige o positivo, à  necessidade da comparação, da conquista, da superação que a ideia do sucesso e a ânsia do vir a ser a qualquer custo impõe, alimentando um perene conflito com o que julga defeito, desqualificando o talento ingênuo em todos os ambientes, moralizando-o como incompetência ou deficiência, sendo o epicentro de onde esta reverbera, estando subliminarmente infiltrada na sociedade e se manifestando sempre se não se desvela e se age sobre suas verdadeiras raízes. Deste modo, ao realinhar os sentidos da poesia e as dimensões da abstração, é imprescindível a ampliação da potência da imaginação para diluir a violência e a adequar à sua necessidade, cultivando aquilo que é em si mesma a sua própria negação, essa alma rústica que a mitiga. Não como uma entidade mística ou sobrenatural, mas sim como este signo potente, este arquétipo polissêmico em movimento que carrega tudo o que dá especificidade ao ser e o seu mundo, que inspira a manifestação do fenômeno de uma integralidade profunda e a própria fundação da humanidade, da sua espiritualidade. Firmada no compromisso entre as vocações de cada um, que então passa a amparar o instinto reativo pela intuição que instaura, compartilhada, sóbria e compassiva, enfim, a gênese de uma consciência liberta, integradora e universalizada.