16 de mai. de 2026

A Raiz da Violência (ensaio)



Uma Pedagogia da Alma:
A Educação Estética e a Raiz da Violência


Por Fernando Henrique Catani, M.Ed.




1.  Introdução

 

É uma particularidade da alma ser não apenas mãe e origem de toda ação humana, como também expressar-se em todas as formas e atividades do espírito; não podemos encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação. (Jung, 1985, p. 74)

 

A Pedagogia, além de desenvolver processos educativos formais, não formais e informais, é uma ciência que assume a investigação dos problemas humanos, uma intersecção de saberes, leigos ou científicos, imbricando teorias e práticas de diversas áreas, propondo e aplicando soluções aos desafios das sociedades. A violência é um tema da pedagogia define e denuncia, principalmente, desenvolvendo ações para transformar situações e contextos onde esta manifesta explícita ou subjacentemente. Este ensaio olha especificamente um fenômeno da violência, expondo um conflito comparativo e uma objetificação dos talentos. Embasado por um trabalho em desenvolvimento (Catani, 2026), propondo uma educação poético-estética, defendendo a importância do signo anímico na formação humana. Um recorte para fundamentação conceitual de um curso para atores da educação, propondo que todos são capazes de desenvolver uma concepção dessa alma, propositadamente apenas sugerida, admitindo que é a retificação do signo que provoca uma transformação profunda.

Propondo uma pedagogia da alma, artística, inspirada em autores que talvez sejam um pouco negligenciados e, além de apresentarem uma ruptura de paradigmas, todos convergem para enriquecer o tema da alma como determinante. Então, começando pelos estudos dos arquétipos de Carl Jung (1985), marco histórico do universo anímico, sendo uma referência indispensável sobre esta alma por uma nova perspectiva. Adotando uma semiose fenomenológica inspirada em Umberto Eco (2016), da obra aberta na transcendência entre subjetividade ingênua e objetividade científica.

A seguir se assume mais alguns autores que, como os outros não sejam em si o objeto de estudo, são citados pela excelência de algumas das suas definições. A visão de educação estética da psicologia pedagógica de Lev Vygotsky (1968, 2016), na importância do talento como inerente ao humano e da manutenção da alma infantil. A filosofia do não e a poética do devaneio de Gaston Bachelard (1978, 2001, 2007), na exigência da fenomenologia da alma e a dialética da existência na intuição instante. A piedade política na psicologia arquetípica de James Hillman (1983, 1986, 2016), sugerindo o cultivo da imaginação e sua crítica que encontra a alma manifestada no mundo. Finalmente, a negação libertadora e a meditação ativa do momento a momento de Jiddu Krishnamurti (1973, 1982, 1985) que, embora não tenha uma sistematização científica, é uma reflexão ontológica inédita.

A partir de uma reflexão sobre ações educativas possíveis, redimensionando modelos ideológicos inapropriados, a intenção desta proposta é: organizar um ambiente para entender esta raiz desta violência, retomar uma noção da importância de uma concepção da alma, para transformar os fatos da realidade desta condição violenta.

 

2.  Uma Raiz da Violência

 

A etimologia da palavra violência vem do substantivo latino vis que, além de traduzir violência em si mesma também define uma essência que faz uma coisa ser o que é, um princípio e força primária. Definições atuais de violência, no entanto, parecem focar mais no ato violento do que nesta força vital. A aproximação acadêmica, embora assuma uma impossibilidade da definição absoluta do termo, prefere definições multifacetadas do que uma definição geral reducionista. Oferecendo uma dessas visões complementares, o que importa é uma qualidade remanescente, violência herdada do instinto atávico de sobrevivência ou reação a qualquer ameaça.

A preocupação é que, não reconhecida e compreendida, esta impregnou algumas formas do pensar que contamina o sentir e o agir de todo ser humano. É uma realidade além da criminalidade violenta e intrínseca desde uma violência geopolítica na exploração da miséria; tanto uma cultural, como a do racismo, das celebridades sobre seus seguidores ou da publicidade na humilhação subliminar; passando pela social, na violência do privilégio, ou aquela que os eruditos usam para submeter os leigos, ou de professores contra seus alunos; até, enfim, aquela violência doméstica que usurpa a segurança física e psicológica de uma criança.  

A denúncia, embora não inédita, é de um positivismo comprometido com esta agressividade competitiva ancestral que, quando oferece propostas contra a violência, exige uma ação vingativa que aprofunda o problema não percebendo sua complexidade. Um conflito subconsciente entre ímpetos violentos das identidades ideológicas, reafirmando a violência até mesmo na racionalização que a pretende controlar, exigindo atos não violentos dos indivíduos quando o próprio ambiente é extremamente violento. O que contradiz a ideia de que a repressão violenta seja a solução total, porque observando a história da punição severa, se realmente produzisse resultados, a violência estaria extinta, mas, na realidade tem aumentado.

Uma violência subjacente a esse pensamento positivo, pela necessidade da conquista, do sucesso a qualquer custo. Um perene conflito fomentando a comparação detratora, a reatividade impulsiva e, principalmente, a coisificação dos talentos. Desqualificando o talento ingênuo que não se adapta à competição, moralizando-o como deficiência. Sendo este o epicentro de onde a violência reverbera, autointoxicando a pessoa e infiltrando na sociedade, na fragmentação entre identidades irreconciliáveis. Instrumentalizada na arregimentação das vontades, dos desejos imediatistas e da dominação pragmática que desilude os talentos, viabilizando a exploração em todos os níveis sociais e culturais, reafirmando suas verdadeiras raízes.

 

3.  A Educação Poético-Estética

 

O que queremos empreender aqui, com efeito, é apenas uma tarefa de libertação pela intuição. Como a intuição do contínuo nos oprime com frequência, é indubitavelmente útil interpretar as coisas com a intuição inversa.” (Bachelard, 2007, p. 59)

 

Assumindo que a educação é um momento de excelência para o desafio da sua prevenção, é uma urgência resgatar e estabelecer novos lugares, imunes tanto psicológica como socialmente, pela refundação da alma que criará um espaço onde essa violência nunca consiga existir na forma como tem há séculos se disseminado. Para agir contra a violência, incorporada na cultura, é fundamental que a prevenção seja ainda mais antecipada, para a desarticular do cotidiano. As primeiras oportunidades do talento são muito sutis e delicadas, fluem espontâneas e pacificamente do ambiente. Porém, produzem grande impacto na vida de uma pessoa e enriquecem o seu meio. Uma sociedade desenvolve equilíbrio e equanimidade, transforma injustiças pacificamente, quando as pessoas não perdem essas oportunidades iniciais, incorporando-as equilibradamente. Entretanto, alguns sistemas são tão disfuncionais que a diversidade dos talentos é banida, são tão brutais na imposição positivista, que autodestroem essa possibilidade. Assim, para reencontrar oportunidades, se não oferecidas estrategicamente, essas pessoas continuam a ser induzidas a pensar, sentir e agir refletindo essa brutalidade, contra si mesmas e depois no seu contexto. Quando se deixa de recriar este ambiente favorável se instaura cada vez mais profundamente aquele desequilíbrio psicossociológico, provocando um círculo vicioso de desumanização, gerando um coágulo social caótico, conflituoso e, consequentemente, violento.

 

Nas composições das crianças Tolstói encontrou muito mais verdade poética do que nos maiores modelos da literatura. E se nas composições apareciam algumas passagens torpes, isso acontecia sempre por culpa do próprio Tolstói; onde as crianças estavam entregues a si mesmas elas não pronunciavam nenhum som falso. Daí Tolstói concluía que o ideal da educação estética como da educação moral não está no futuro, mas no passado, não está na aproximação da alma infantil à alma do adulto, mas na conservação das qualidades primitivas naturais dessa alma. (Vygotsky, 2001, p. 348)

 

O cultivo da imaginação é uma grande oportunidade. É através do processo artístico, pelas significações que proporciona, estabelecer um campo seguro e controlado para expor as origens dessa violência se movimentando em tempo real. Surgem caminhos para o pensamento, o sentimento e a ação não reproduzirem violência, retomando e transcendendo sua fundação, desde formas simbólicas até as físicas.  Pelo exercício constante dessa manutenção das qualidades primordiais da alma, anteriores a qualquer sistematização, catarticamente inspiradas pela poetização e abstração imaginativas, decifrar e repudiar essa violência. Não pelo esforço da sua extinção, não apenas na sua repressão, não pelo conflito contra o seu impulso, porque é ainda um movimento violento. Não a provocando ainda mais, agravando o problema, como acontece com ideologias, religiões e até mesmo a racionalização científica, mas, pela ampliação da perspectiva da alma no cotidiano.

 

Aqui reside a chave para a tarefa mais importante da educação estética: introduzir a educação estética na própria vida. A arte transfigura a realidade não só nas construções da fantasia, mas também na elaboração real dos objetos e situações. A casa e o vestiário, a conversa e a leitura, e a maneira de andar, tudo isso pode servir igualmente como o mais nobre material para a elaboração estética. De coisa rara e fútil a beleza deve transformar-se em uma exigência do cotidiano. O esforço artístico deve impregnar cada movimento, cada palavra, cada sorriso da criança. É de Potiebniá a bela afirmação de que, assim como a eletricidade não existe só onde existe a tempestade, a poesia também não existe só onde há grandes criações da arte, mas em toda parte onde soa a palavra do homem. E é essa poesia de ‘cada instante’ que constitui quase que a tarefa mais importante da educação estética. (Vygotsky, 2001, p. 352)

 

A partir de atividades práticas e de uma exposição crítica, incluindo alguns questionamentos aos autores citados, acusa-se as limitações desse pensamento afirmativo diante de uma imaginação negativa. A intenção é a compreensão desta condição da violência que afeta todas as iniciativas educacionais, estando significativamente relacionada a esse pensar positivo que é até normalizado como louvável na sua aparente passividade. Para desfazer esta ansiedade pelo possível, que ignora a necessidade da atenção e da compreensão de seu comprometimento com preconceitos e condicionamentos psicológicos e culturais, baseados neste conflito comparativo entre reação e ação, entre o que se pensa deveria ser e o que realmente é. Então, através do reconhecimento da origem dessa violência específica, apresenta-se algumas provocações pedagógicas para enriquecer a consciência do processo artístico como vetor e eixo transformador, escapando de que apenas a produção do belo é seu ápice. O intuito é estabelecer uma base que anseia um novo paradigma, a partir e para além da educação estética conhecida, que é insuficiente para exigências contemporâneas complexas. Incorporando novos elementos que provoquem uma ampliação para uma nova conceitualização que planeja uma educação poético-estética (Catani, 2026). 

 

3.1.  A Abstração e a Poetização

 

O abstrato e a poesia são o cerne desta experiência anímica. Um fenômeno subjacente a uma dialética passional, um é substância e sem este a poesia é vazia, outra é essência e sem esta o abstrato perde sentido. Revertendo a ideia de que a poetização e a abstração sejam fútil ou apenas entretenimento prazeroso. Sem um pragmatismo suficiente para influenciar uma realidade trágica que exige ações concretas. É importante a percepção de que são fundamentais para a capacidade humana da compreensão verdadeira e a comunicação honesta, pois sem estes valores a experiência é incompleta. Provocar a conjunção entre pensar, sentir e agir como uma combinação capaz de desencadear a perspectiva anímica, que tem o poder de iniciar essa completude que, sem este alinhamento, nunca é alcançada. Não na especulação sensitiva ou extrassensorial, porém, na significação que esta alma carrega na organização da natureza do ser.

É através destes elementos que se criou a música, que também foi base para linguagens e tecnologias. Línguas têm origem em oralidades e textos poetizados, a escrita e cálculos são elaborados a partir de abstrações. Assim, por uma maiêutica alegórica reversa, da superfície ao fundo, através destes movimentos se pode olhar e entender as raízes da violência, originadas no seu desalinhamento. Para retificar esses problemas que a racionalidade nunca resolve, exatamente porque esta mesma os inventou, nada é mais original do que a poetização e a abstração. Como encaminhamento central se toma o poema literário e a obra de arte abstrata, concretizando estas qualidades, inaugurando o processo artístico que a educação estética deveria assumir como seu fundamento. Porque esta combinação é a gênese da movimentação do imaginário e anterior a esta, provavelmente, ainda não seria possível uma definição de humanidade.

 

3.2.  Disposições e Temas da Alma

 

Daí a função de uma arte aberta como metáfora epistemológica: em um mundo em que a descontinuidade dos fenômenos colocou em crise a possibilidade de uma imagem unitária e definitiva, isso sugere uma forma de ver o vivido e, ao vê-lo, aceitando-o, integrá-lo em nossa sensibilidade. Uma obra aberta enfrenta plenamente a tarefa de oferecer uma imagem de descontinuidade: pois não a descreve, é a própria descontinuidade. É um mediador entre a categoria abstrata da metodologia científica e a matéria viva de nossa sensibilidade; quase como uma espécie de esquema transcendental que nos permite compreender novos aspectos do mundo. (Eco, 1968, p. 158)

 

Para cultivar esta especificidade imaginativa como essa transcendência potencial, é preciso descobrir quais são as disposições, anteriores a novas idealizações, para a negação desse positivismo radical. Porque este acaba bloqueando a compreensão dessa raiz da violência, pelo próprio paroxismo de propostas que fomenta. Para tanto, é imperativo entender a função de uma reflexão poético-estética inerente à imaginação. Esta surge na elaboração da significação de uma obra como este signo semiótico ao qual se dedica o processo artístico, em seu poder de revelar os movimentos dessa alma transcendente. Uma inerência que está exatamente na essência e na substância dessa qualidade anímica, revelada na tentativa de criação do que se descreve como disposições poéticas do significado e disposições estéticas do significante de uma obra artística.

O conceito das disposições poético-estéticas foi elaborado em uma dissertação anterior (Catani, 2011), que registrou e refletiu sobre atividades de formação de professores, partindo de uma decodificação semiótica de algumas obras icônicas relacionadas às definições mais banalizadas dos períodos da história da arte. Foi tomado desta maneira porque, enquanto significações e ainda pelo mesmo princípio, estariam presentes tanto nesta simplória quanto nas mais elaboradas. Sendo que esta escolha poderia então abranger mais possibilidades de compreensão, o que realmente se confirmou na sua apropriação pelos participantes, que reconheciam os períodos baseados na significação destas disposições e não na simples obrigação por decorar as imagens e suas datas. Deste modo, formam uma visão conjectural que de alguma maneira estariam incorporadas aos processos de ação, invenção ou criação de que é capaz o ser humano e também expressas, sem nenhuma restrição, em todos os movimentos da imaginação. Estas teriam sido sedimentadas através dos milhares de anos da experiência psicológica e cultural humana, ou seja, não são inatas, mas, por outro lado, também não representam exclusivamente um cenário de evolução do primitivo ao contemporâneo, pois, talvez sempre estiveram orbitando essa experiência como sentido, esperando apenas a sua descrição. Destiladas como uma alegoria a partir desse senso comum dos períodos, foram arranjadas em duplas, sendo que cada uma destas contém um elemento de característica poética subjetiva e um outro correspondente de característica estética objetiva e que, por sua vez, cada dupla gera um dos temas primitivos de uma alma artística: Primitivo - Ritmo / Ritual = O Tempo; Antigo - Reflexão / Mitologia = O Divino; Medieval - Devoção / Religiosidade = O Sacrifício; Renascimento - Identidade / Humanidade = A Verdade; Moderno - Dinamização / Sociedade = O Ser; Contemporâneo - Equanimidade / Panculturalidade = A União (Catani, 2011).

Cada uma destas palavras escolhidas, em sua própria etimologia, é apresentada como o mínimo contido em uma obra qualquer, como se fosse uma senha ou mesmo uma equação, para a aproximação à significação de qualquer criação imaginativa. Se tornam, então, um elemento de um conceito arquetípico complexo, responsável por evocar as qualidades que podem representar algumas qualidades anímicas fundamentais. Como disposições intrínsecas a um signo anímico, tentam abranger o espectro de seus conflitos e de suas aptidões, da pessoa e dos seus ambientes. Criam um cenário imagético em que figuram como uma espécie de elementos inerentes ao processo criativo, sugeridos então como motes, noções bem estáveis que podem ser relacionadas conceitualmente a qualquer obra de arte ou peça literária, como sendo os temas mais primitivos desta alma artística. Retomando e redimensionando uma semiose em seus conceitos fundantes (Eco, 2016), apenas reconsiderando a importância de todo espectro da intelectualidade, inclusive e imprescindivelmente aquela ingênua que conquista sua voz com as novas conexões midiáticas, recusando a concepção de que apenas na erudição está sua melhor manifestação e afirmando, porém, que estas são intrinsecamente complementares. O significado, como a gestão do impulso, a semente do processo criativo, uma intenção ou uma necessidade que pressiona a imaginação, é a pulsão anímica. O significante, como a gestão da manifestação, da execução necessária, onde a materialidade se estabiliza, é o momento em que a força invisível da criação assume os limites da matéria, para finalmente florescer no seu mundo. Enfim, na síntese dessa dialética vertical e descontínua (Bachelard, 1963), surgem os temas primitivos como a declaração extrema de uma significação. Reaprendendo daí somente que a intuição não necessariamente deva ser superada para que exista uma sistematização metodológica, mas que se incorpora a esta simultaneamente, em uma simbiose filosófica.

Carregando aquilo que induz à criação dos arquétipos e dos mitos, que toda e qualquer expressão vai se inspirar por princípio como um reflexo da manifestação de uma alma comum, as disposições e os temas primitivos são apresentados durante atividades práticas como elementos capazes de provocar uma reflexão, neste caso sobre a raiz da violência, justamente no momento primevo da concepção da obra imaginativa.

 

3.3.  O Poema

 

A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema, ela deve dar uma visão do universo e o segredo de uma alma, um ser e objetos, tudo ao mesmo tempo. Se segue simplesmente o tempo da vida, ela é menos que esta; só pode ser mais que a vida imobilizando-a, vivendo no próprio lugar a dialética das alegrias e das dores. Ela é, então, o princípio de uma simultaneidade essencial em que o ser mais disperso, mais desunido, conquista sua unidade. (Bachelard, 2007, p. 99)

 

O poema é para todos, desde um ditado popular até uma Odisseia, passando pelas orações, as letras das canções e até mesmo um texto publicitário, tudo isso mantém e contém a linguagem do poema. Esta abrangência e amplitude o torna um elemento insubstituível para evocar aquelas qualidades da alma. O importante na frase poética é não necessitar ser explicada porque esta é em si mesma a explicação de algo, no afetamento subjetivo de sua leitura intuitiva. Por isso se propõe usar a forma do poema, pois somente sua expressão pode ser entendida diretamente, na descoberta de que a imaginação é negativa. Ou seja, na sua subjetividade o que diz a sua verdade é o que não é evidente, não é aparente, não é afirmativamente objetivo, mas, é negação e transgressão de ideias e ações condicionadas. É um “não fazer”, porque é somente neste estado de reversibilidade que se fomenta a intenção artística. Sem o impulso poético nunca haverá a realização estética e, por mais que se promova técnicas e explicações antes do encontro com esta sua significação verídica, mesmo que insuficiente e ingênua, o texto criativo ou sua leitura, não acontecerá.

Um exemplo de atividade prática, realizada em cursos de qualificação de professores (Catani, 2011), é uma oficina de criação de poemas a partir de palavras recortadas de jornais, revistas, cartazes ou folhetos, provocando um rearranjo destas na montagem de um poema inédito. A proposta é disponibilizar esse material aos participantes para que, pela necessidade de encontrar e ressignificar as palavras, acabem sendo afetados pela própria mensagem do texto onde estão inseridas, gerando um contexto para a elaboração do seu poema criado com estes retalhos e influenciado pela realidade contada nas páginas impressas. É uma maneira de demonstrar como o poeta encontra insuspeitadamente os seus motes espalhados pelo ambiente onde vive. Assim, o participante pode sentir a dificuldade que tem o poeta em reescrever aquilo que vê e ao mesmo tempo provocar a capacidade de expor as próprias significações de sua realidade. Aqui uma questão é fundamental na organização da escrita poética, principalmente para iniciantes: o melhor caminho não é pela apresentação de técnicas, mas sim, pela provocação dos movimentos do impulso poético que motiva o escritor. Uma aproximação pelos elementos poéticos e estéticos das realizações literárias, pelo seu fenômeno e no cultivo dessa provocação da imaginação, vai gerar muito mais qualificação na elaboração dos textos. Assim é necessário dar espaço para que o iniciante exista em suas dúvidas e despreparo, pois, o que é importante é essencialmente este diálogo fenomenológico, uma dialética espiritualidade/materialidade, poética/estética, como principal elemento dessa proposta artística. Como o desencadeamento de uma tensão filosófica entre um possível mote latente e a realidade imediata e insustentável que inspire o aparecimento desse impulso e não apenas um conjunto de regras, normas ou medidas em que seja possível se enquadrar forçando uma identificação. A técnica da escrita poética, de um modo ou de outro, surge ou se adaptará no momento certo se esta for uma necessidade do escritor em potencial.

 

3.4.  A Pintura Abstrata

 

A abstração do belo escapa a todas as polêmicas dos filósofos. De um modo geral, tais polêmicas são curiosamente vãs em todos os casos em que a atividade espiritual é criadora, tanto no que concerne à atividade da abstração racional na matemática como à atividade estética que abstrai rapidamente as linhas da beleza essencial. Se déssemos mais importância à imaginação, veríamos muitos falsos problemas psicológicos esclarecidos. (Bachelard, 2001, p. 65)

 

Uma imagem abstrata, seja bidimensional ou tridimensional, também tem o poder de manifestar uma sensibilidade atávica desse potencial da imaginação negativa por excelência. É a linguagem da alma, onde a imagem reversa é a negação da razão, é alegórica, pois se revela pelo que não se enxerga imediatamente, pelo que não é explícito, porém, inerentemente onírico e pleno de lirismo. E mesmo quando a abstração é geométrica, esta carrega muito mais de significações metafóricas do que planos de uma descrição objetiva. As cores são belas em si mesmas, suas combinações encantam a qualquer pessoa sem nenhuma restrição. As formas afetam quem quer que se aproxime destas. A intencionalidade da combinação de formas em composição e das cores em arranjo traduzem o próprio movimento anímico. Se o processo artístico é subjetivo, então pode ser algo inconsciente e irracional, porém, é ao mesmo tempo ecumênico. Em sua essência, pode ser coletivo e ainda assim, anônimo. Essa qualidade surpreende ao ser encontrada em algumas criações espontâneas que falam sobre esta existência comum. Uma parede com uma textura sublime, um outdoor raspado que se transforma em uma abstração maravilhosa, composta de texturas, formas e cores incríveis. Pedras, peças antigas ou galhos dispostos em um arranjo estético que revela uma imensa história dos atos e sonhos humanos em uma única visão emocionante. Descobrir essas obras incomuns é um impulso artístico, como uma arqueologia do sublime, que cativa o artista abstrato na busca por decifrar e recriar, intencionalmente, a manifestação de sua obra misteriosa.

Um exemplo prático de ação, aplicado em laboratórios com adolescentes internados sob medidas socioeducativas (Catani, 2004), para o encontro com este fenômeno é uma atividade propondo o descobrimento das formas e das cores a partir das três cores primárias. O mais recorrente exercício é apresentar antes o círculo das cores para uma demonstração intelectual das cores primárias e da formação das secundárias de maneira objetiva, onde sua reprodução posterior é resultado de um conhecimento pragmático, sem o fomento da reflexão intuitiva tão importante ao artista. Apresentar o surgimento das cores desta maneira é como querer construir um telhado antes das paredes de uma casa. Em contraste a esta tradição, a maneira como se propõe que as misturas possíveis das cores sejam encontradas pela primeira vez e de como as formas se abstraem é que estas devam ser descobertas subjetivamente. Antes de mais nada, devem ser vistas realmente surgindo durante o fazer artístico. Assim, a proposta é que se parta de uma folha de papel em branco e que as cores primárias sejam disponibilizadas por tintas e pincéis. O participante é avisado a “fazer algo que não existe”, como um incentivo para que se evite a reprodução viciada de temas recorrentes. Começando a aplicá-las sobre o papel devagar e com muita atenção para que cada cor tenha sua própria manifestação, criando formas inusitadas que ao encontrar as outras cores diretamente sobre o papel, sejam misturadas ao acaso gerando as combinações com sua revelação acontecendo em tempo real. Neste movimento, o participante entra em contato com a sugestão de “manter o que já está bonito”, fazendo com que um nível de atenção e concentração seja despertado exclusivamente pela observação durante a execução do exercício. A surpresa da beleza da combinação das cores e a delicadeza da aparição das formas é uma oportunidade para um momento de sensibilidade inédita. Para formar a intuição das cores e das formas, além de também exercitar a atenção da sua realização, há aqui uma diferença fundamental entre um modelo fixo e imposto e a emoção de uma expressão fluida sendo descoberta diretamente por quem realiza o trabalho.

 

4.  Sobriedade, Compaixão e Vocação

 

A base poética da alma tira a psicologia dos limites do laboratório e do consultório, e até da subjetividade pessoal do indivíduo, e a transforma numa psicologia das coisas como encarnações de imagens com vida interior. (Hillman, 1983, p. 49)

 

Esta base da imaginação, que foi redimensionada nas sessões anteriores como uma manifestação poético-estética complexa, pode ser definida como, uma qualidade anímica imprescindível à integralidade e à incorruptibilidade do ser, capaz de incentivar uma personalidade necessária e comprometida com o melhor coletivo. No entanto, antes é importante redefinir a concepção de personalidade ideal que, na maior redução possível, é a de um senso comum em que esta figura apenas como o lugar do bem estar positivo. Na sua melhor definição, a aproximação da noção arquetípica (Hillman, 1983), esta é reflexiva sobre sua situação dramática, reagindo bem humorada ou irônica e até mesmo já afirma a compaixão como uma de suas marcas, porém, acredita-se é possível ir além. Algumas dessas características são vistas aqui apenas como derivados, variações ou mesmo desfigurações daquela compaixão. É esta última que figura no primeiro plano como um fundamento anímico, como um elemento atômico e não apenas uma manifestação de ânimo, sendo uma das fontes de onde fluem outros aspectos que constituem uma personalidade. Outro fundamento primário, que aqui se inclui ao lado da compaixão é a sobriedade, sendo também esta capaz de se desdobrar em inúmeros elementos. Desta maneira, a sobriedade e a compaixão são dois vetores desta base anterior onde se equilibra qualquer outra manifestação possível desses estados de ânimo que sem esta, como interessa aqui, poderiam facilmente degenerar como poderosos instrumentos da violência, assumindo características reativas, agressoras ou autodestrutivas.

Entretanto, aqui se sugere seja incluída ainda mais um aspecto fundante desta base da alma na sua integridade. Esta é a vocação, a fonte da expressão de todos os talentos, que através da sua evocação anímica será também reconhecida nestes elementos específicos aprofundados e engajados. Manifestando-se como o eixo onde todo o movimento anímico irá se apoiar, onde todo o impulso de uma realização humana tem a sua força motriz. Deste modo, surge um novo arranjo desta prioridade anímica amplificando a sua manifestação espiritual, esta trindade a ser cultivada: a sobriedade, a compaixão e a vocação. Esta última, figura como a descoberta e a vivência de uma paixão que se torna o sentido da experiência do viver, a expressão máxima daquilo que se pode perceber como o agir anímico. A compaixão, o sentir anímico, como mais do que o simples sentimentalismo da bondade, negando a mera comiseração. Um elemento de uma alma que está à disposição, é a capacidade da consciência em se dedicar e se absorver, amparada por uma visão além de si mesmo, tanto pelo sofrimento e o pesar como pela fragilidade e a ingenuidade da sua própria condição em relação à mesma situação imediatamente reconhecida nos outros. A sobriedade, o pensar anímico, não como o pedantismo da erudição e da disciplina imposta, nem a simples austeridade da abstinência, mas como a castidade de uma escolha vivenciada. Seja em qualquer um de todos os seus níveis possíveis nunca se manifesta como apenas moralidade ou penitência, mas na abnegação de um desapego, a negação profunda da alienação, como uma atenção e prontidão desta alma diante das necessidades e da responsabilidade consigo mesma, os outros e a sua realidade.

 

A linguagem primária e irredutível desses padrões arquetípicos é o discurso metafórico dos mitos. Eles podem assim ser compreendidos como os padrões fundamentais da existência humana. Para estudar a natureza humana no seu nível mais básico, é necessário voltar-se para a cultura (mitologia, religião, arte, arquitetura, o épico, o drama, o ritual) onde esses padrões são retratados. (Hillman, 1983, p. 23)

 

Os três elementos alinhados são a configuração conclusiva de um arquétipo conceitual, ou um conceito arquetípico. Uma peça dinâmica, complexa e uma entidade que pode trabalhar, simultaneamente, a matéria-prima que é as disposições e os temas primitivos como o álibi dessa presença anímica pensando, sentindo e agindo. Uma manifestação que suporta a si mesma, sendo ao mesmo tempo a força de um questionamento e o poder de uma definição, juntando toda a perspectiva e a concepção de uma alma. Ao sugerir esta trindade durante a organização desta educação poético-estética, não somente se descobre uma metáfora máxima para uma conceitualidade mitológica, mas, muito mais importante ainda, encontra-se aquilo que é o âmago primordial da consciência que cria o discurso metafórico e suas materializações. Estudar a natureza humana pelos seus padrões fundamentais pode ser interessante e foi uma jornada necessária até aqui, no entanto, é insuficiente porque projeta e espera a transformação no devir, enquanto esta é necessária no agora. É infinitamente mais revolucionário e libertador negação dos padrões, abrindo espaço para a descoberta de qual é a energia original que os produziu. É a trindade da sobriedade, da compaixão e da vocação, enquanto um fenômeno em movimento, que instaura a consciência de uma transformação no mesmo instante de sua concepção.

 

5.  Considerações Finais

 

O imaginador, o apaixonado pela alma rústica, artística, é despertado e parte para retificar a sacralidade da sua vida, ao retomar constantemente a reflexão filosófica ingênua sobre os temas primitivos. Afirma neste ato que cada uma dessas potências atávicas, que podem ser conquistadas intuitivamente simplesmente na evocação desses temas, desencadeia neste ser imaginador os elementos arquetípicos fundamentais para o processo de criação de imagens que, simultaneamente, mantêm-no apto ao instante silencioso da presença mítica do espírito do mundo. (Catani, 2011, p.203)

 

O próprio intento em direção à retomada desta condição anímica vital é, em si mesmo, o maior e mais importante passo para a inauguração desta libertação da violência. Antes da afirmação das respostas, ao tomar a abstração e a poesia, as disposições e os temas, mais essa trindade que os acessa, nasce a paixão pelas grandes questões misteriosas. Porque a liberdade só é liberdade se está no começo não no fim. Quando se deixa de tentar impor o que é o verdadeiro, de especular qual é a melhor solução e de empilhar mais uma ideia acerca de como a realidade deveria ser, a decisão de estabelecer esta base originária capaz de discernir essa realidade e negar o que é falso começa enfim a observar toda a extensão da violência e, neste exato momento, já está em vigor a verdade. Antes de retornar ao ponto onde esta especulação afirmativa ainda não havia inventado toda essa fragmentação, nada vai libertar dessa violência. Sem negar a especulação ideológica, nenhuma integralidade poderá existir e qualquer movimento apenas vai produzir mais violência, pois a verdade é complexa, polissêmica e reversa, ou seja, a verdade é tudo aquilo que ela não é.

Porque a verdade não pode ser afirmada senão no desprendimento de tudo o que é falso, no abandono de tudo o que pretende ser para que se instaure o encontro com o que é. Porque é essa liberdade que desfoca a aglutinação do pensamento positivista, abrindo espaço para a imaginação dissipar este condicionamento, o que permite que novas concepções aflorem. Ao se encontrar o inusitado, instigado pelas disposições e pelos temas primitivos, surge um alento inédito neste instante intuitivo. É quando uma expressão poético-estética, ao mesmo tempo mergulhada e envolvida nesta trindade anímica apresentada, consegue afetar a superficialidade da personalidade pelo sentido profundo de sua alma. Quando neste momento o imaginador, porque a excelência humana não está na razão positiva e sim na imaginação negativa, enxerga-se nestas qualidades anímicas e se espanta pela extensão daquilo que é capaz de realizar intuitivamente. Isto é, a importância do cultivo desta vitalidade é tal que, mesmo se a perspectiva da alma não é exclusivamente o que provoca esta libertação, mesmo se esta não garanta automaticamente a resolução deste ou todos os problemas humanos, certamente a sua ausência torna qualquer tentativa neste sentido simplesmente impossível. É uma condição de que qualquer anseio de solução para qualquer problema humano, principalmente o da violência, deve impreterivelmente começar desta base esboçada aqui.

 

Então, o que é o amor? Sabe, para descobrir o que é, é preciso negar, deixar de lado completamente o que não é. Através da negação, chega-se ao positivo; não busque o positivo, mas chegue a ele compreendendo o que ele não é. Ou seja, se eu quiser descobrir o que é a verdade, sem saber o que ela é, preciso ser capaz de ver o que é falso. Se eu não tiver a capacidade de perceber o que é falso, não posso ver o que é a verdade. Portanto, preciso descobrir o que é falso. (Krishnamurti, 1973, p. 6)

 

Seguindo por esta aproximação se espera provocar a expansão destes movimentos anímicos primordiais para que a violência não seja apenas suprimida, mas redimensionada e passe a ocupar o seu lugar, que de fato existe, enquanto a força vital que carrega também a sua significação. Isto porque, assim como o falso não é o oposto do verdadeiro, mas a sua degeneração, essa violência em metástase é a degradação das vocações, a perda da sua sobriedade em acolher e o despreparo da sua compaixão em entender. Sendo que o próprio reconhecimento desta realidade já é a retomada da sua regeneração, seja a da vocação coletiva, como a da cultura de um povo, ou a da vocação individual, como a desse talento único. É assim porque a revolução mais profunda quem faz são os relacionamentos cotidianos dessas vocações apenas quando compartilhadas. E ainda que não baste apenas se dedicar completamente ao próprio talento, pois, inúmeros são os exemplos em que a vocação é vivenciada plenamente, mas mesmo assim a desordem, o conflito e a violência não estão controlados, esta é um elemento inadiável, porque é somente ao se alinhar com aquela sobriedade e aquela compaixão que se cria a única estrutura dinâmica possível para a equilibração desta experiência humana.

Por fim, é imperativo declarar que a própria compreensão desta condição desequilibrada já é a negação do seu domínio e é o principal movimento para o enriquecimento da vocação da própria humanidade. Deste modo, ao ser realinhada pelos sentidos da poesia e pelas dimensões da abstração, na imprescindível ampliação da potência da imaginação através da reflexão sobre as disposições e os temas, talvez se adequando àquela trindade da sobriedade, compaixão e vocação, a violência se dilua em sua própria necessidade. Cultivando esta alma rústica que é em si mesma a sua própria liberdade. Para a superação daquele pensamento escravizado ou autossabotado, não como uma entidade mística ou sobrenatural, mas sim como este signo potente, este arquétipo universal e polissêmico em movimento que carrega tudo o que dá especificidade ao ser. Inspirando a manifestação do fenômeno de uma integralidade profunda e a própria fundação da sua espiritualidade. Firmada no compromisso vocacional de cada um em uma relação cosmogônica com sua época e o espírito de seu mundo, que assim passa a amparar o instinto reativo pela intuição que instaura, compartilhada, sóbria e compassiva, enfim, a gênese de uma consciência já liberta, integradora e universalizada. 

 

 







Referências:
 
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