Uma Pedagogia da Alma:
A Educação Estética e a Raiz da Violência
Por Fernando Henrique Catani, M.Ed.
1. Introdução
É uma particularidade da alma ser não apenas mãe e origem de toda ação
humana, como também expressar-se em todas as formas e atividades do espírito;
não podemos encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas
somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação.
(Jung, 1985, p. 74)
A Pedagogia, além de desenvolver processos
educativos formais, não formais e informais, é uma ciência que assume a
investigação de grandes problemas humanos. Por uma intersecção de saberes, leigos
ou científicos, imbricando teorias e práticas de diversas áreas, busca soluções
para os desafios das sociedades. A violência é um desses temas dramáticos que a
pedagogia, além de definir e denunciar, também organiza ações para transformar
situações e contextos onde esta se manifesta explícita ou subjacentemente. Este
ensaio é um olhar específico sobre uma expressão da violência, embasado por um
trabalho mais extenso em desenvolvimento que, através de uma educação
poético-estética (Catani, 2026), defende a importância de um senso anímico na
formação humana. É um recorte para a fundamentação conceitual de um curso para
atores da educação, sugerindo que todos são capazes de desenvolver uma nova aproximação a este drama,
propositadamente apenas sugerida aqui, admitindo que é a retificação da sua
perspectiva o que provoca essa transformação profunda.
Antes da pretensão de uma revisão da literatura
sobre o tema, este artigo é uma comunicação que propõe os movimentos iniciais para
uma pedagogia da alma. Tomando alma não apenas na sua especulação sensitiva,
extrassensorial, mística ou qualquer particularidade patológica, senão na
potência crua de um signo complexo que desencadeia a compreensão da natureza
exclusiva do ser humano. No entanto, algumas referências convergem em especial
para inspirar esta reflexão. Então, partindo dos estudos dos arquétipos de Carl
Jung (1985), um marco histórico do universo anímico e uma referência
indispensável para uma nova perspectiva sobre sua redescoberta. Adota-se uma
semiose fenomenológica, inspirada por Umberto Eco (2016) com a sua obra aberta,
na transcendência entre subjetividade ingênua e objetividade científica que
desvela um mundo novo a cada olhar.
A seguir o encontro com mais alguns autores que, como
os primeiros, não são em si mesmos o objeto de estudo, todavia, são citados
pela excelência de algumas de suas definições. Assume-se a visão de educação
estética da psicologia pedagógica de Lev Vygotsky (2001), na importância do
talento como inerente ao humano e da manutenção da alma infantil no cotidiano. Seguindo
pela filosofia do não e a poética do devaneio de Gaston Bachelard (2001), na exigência
de uma fenomenologia da alma e uma dialética da existência na intuição instante.
Somada a piedade política na psicologia arquetípica de James Hillman (1983), que
sugere o cultivo da imaginação com sua crítica da sociedade atual e que
encontra a alma manifestada no mundo. E, finalmente, a negação libertadora da
tradição das imagens em Jiddu Krishnamurti (1973) que, embora não tenha uma
sistematização científica, é um contraponto necessário e ontologicamente inédito.
Assim, a partir de uma reflexão sobre ações
educativas possíveis, redimensionando modelos ideológicos inapropriados, a
intenção desta proposta é: sugerir a organização de um ambiente para entender
esta violência, retomando a noção da importância e das implicações de uma
concepção de alma, para oferecer uma possibilidade de transformação dos fatos da
realidade desta condição violenta pela sua antecipação.
2. Uma Raiz
da Violência
A etimologia da palavra violência vem do substantivo
latino vis que, além de traduzir brutalidade em si mesma, também refere a
uma essência que faz uma coisa ser o que é, um princípio e força primária. Definições
atuais de violência, no entanto, parecem focar mais no ato agressivo do que
nesta força vital. A visão acadêmica, embora assuma uma impossibilidade da
definição absoluta do termo, prefere aceitar definições multifacetadas do que uma
definição geral reducionista. Oferecendo uma dessas visões complementares, o
que importa aqui é uma remanescência do instinto atávico de sobrevivência predatória
ou da reação para eliminar qualquer suposta ameaça.
A preocupação é que não compreendida e desvirtuada desse outro aspecto essencial do ser, que talvez pudesse equilibrá-la, a violência abusiva impregnou formas do pensar contaminando o sentir e o agir de todo ser humano. É uma realidade enraizada até mesmo antes da ação criminosa, intrínseca desde uma violência geopolítica na exploração da miséria; tanto a cultural, como o racismo, aquela das celebridades sobre seus seguidores ou a da publicidade na sua humilhação subliminar; uma social, na violência do privilégio ou a que os eruditos usam para submeter os leigos, ou ainda a de professores contra seus alunos; até, enfim, aquela violência doméstica que usurpa a segurança física e psicológica de uma criança.
A denúncia, embora não inédita, é de um positivismo comprometido com esta agressividade competitiva ancestral que, inclusive quando oferece propostas contra a violência, exige uma ação vingativa que aprofunda o problema não percebendo sua complexidade. Um confronto subconsciente entre ímpetos combativos, reafirmando a violência até mesmo na racionalização que a pretende controlar, exigindo atos não violentos dos indivíduos quando seu próprio ambiente é extremamente violento. O que contradiz a ideia de que apenas a repressão seja a solução total, porque observando a história da punição severa, se esta realmente produzisse resultados, a violência estaria extinta, mas, na realidade tem aumentado.
Uma violência subjacente a esse pensamento
positivo, pela necessidade da conquista, do sucesso a qualquer custo. Um perene
conflito fomentando a comparação detratora, a reatividade impulsiva e,
principalmente, uma coisificação dos talentos. Desqualificando o talento
ingênuo que não se adapta à competição e o moralizando como deficiência. Sendo este
o epicentro de onde esta violência reverbera, autointoxicando a pessoa e se
alastrando na sociedade, pela fragmentação entre identidades irreconciliáveis.
Instrumentalizada na arregimentação das vontades, dos desejos imediatistas e da
dominação pragmática que desilude estes talentos, viabilizando uma exploração em
todos os níveis sociais e culturais, reafirmando sempre suas verdadeiras
raízes.
3. A Educação
Poético-Estética
O que queremos empreender aqui, com efeito, é apenas uma tarefa de
libertação pela intuição. Como a intuição do contínuo nos oprime com
frequência, é indubitavelmente útil interpretar as coisas com a intuição
inversa.” (Bachelard, 2007, p. 59)
Sendo a educação um momento de excelência para o
desafio da prevenção da violência, é urgente resgatar e estabelecer novos
lugares, imunes psicológica e socialmente. Organizar a refundação de um espaço
onde esta nunca exista na forma como há séculos é disseminada. Para agir contra
a violência, incorporada na cultura, é crítico que a prevenção seja ainda mais antecipada,
para a desarticular do cotidiano. Porque as primeiras socializações devem ser
protegidas, pois, sendo muito sutis e delicadas, precisam fluir desde cedo espontâneas,
enriquecendo as pessoas e o seu ambiente. Uma sociedade somente desenvolve a
equanimidade e transforma injustiças pacificamente, quando as pessoas não perdem
muito dessas oportunidades iniciais, incorporando-as equilibradamente. Entretanto,
alguns sistemas educacionais são tão disfuncionais que a diversidade dos
talentos é banida, tão brutais na imposição positivista, que a autodestroem
internamente. Portanto, para reencontrar oportunidades, se não oferecidas estrategicamente,
essas pessoas continuam a ser induzidas a reproduzir essa brutalidade, contra
si mesmas e depois em seu contexto. Instaurando-se cada
vez mais profundamente um desequilíbrio psicossociológico, provocando um
círculo vicioso de desumanização e um coágulo social caótico e, consequentemente,
violento.
Nas composições das crianças Tolstói encontrou muito mais verdade
poética do que nos maiores modelos da literatura. E se nas composições
apareciam algumas passagens torpes, isso acontecia sempre por culpa do próprio
Tolstói; onde as crianças estavam entregues a si mesmas elas não pronunciavam
nenhum som falso. Daí Tolstói concluía que o ideal da educação estética como da
educação moral não está no futuro, mas no passado, não está na aproximação da
alma infantil à alma do adulto, mas na conservação das qualidades primitivas
naturais dessa alma. (Vygotsky, 2001, p. 348)
O cultivo da imaginação é um destes grandes momentos.
É o processo artístico que, pelas significações que proporciona, estabelece sempre
um campo seguro para o desenvolvimento humano e, no caso dessa violência, consegue
ainda expor suas origens desde sua forma simbólica até a sua manifestação
física. Justamente pelo exercício constante da manutenção dessas qualidades
primordiais, sempre anteriores a qualquer sistematização. Catarticamente
inspiradas por uma poetização e uma abstração imaginativas, é este processo
artístico imaginativo que decifra e nega a violência. Não pelo esforço da sua
extinção, não apenas na sua repressão, não pelo silenciamento de seu impulso,
porque seria ainda um movimento violento. Não a provocando ainda mais, agravando
o problema, como acontece com ideologias, religiões e até mesmo a
racionalização científica, mas, pela ampliação dessa perspectiva da imaginação
no cotidiano.
Aqui reside a chave para a tarefa mais importante da educação estética:
introduzir a educação estética na própria vida. A arte transfigura a realidade
não só nas construções da fantasia, mas também na elaboração real dos objetos e
situações. A casa e o vestiário, a conversa e a leitura, e a maneira de andar,
tudo isso pode servir igualmente como o mais nobre material para a elaboração
estética. De coisa rara e fútil a beleza deve transformar-se em uma exigência
do cotidiano. O esforço artístico deve impregnar cada movimento, cada palavra,
cada sorriso da criança. É de Potiebniá a bela afirmação de que, assim como a
eletricidade não existe só onde existe a tempestade, a poesia também não existe
só onde há grandes criações da arte, mas em toda parte onde soa a palavra do
homem. E é essa poesia de ‘cada instante’ que constitui quase que a tarefa mais
importante da educação estética. (Vygotsky, 2001, p. 352)
Esta condição que também afeta iniciativas
educacionais, muitas vezes normalizada em uma aparente passividade, é historicamente
relacionada a esse positivismo que julga como louvável a comparação e a
competitividade em detrimento da participação e da coletividade. É preciso desfazer
essa ansiedade pelo resultado idealizado, que ignora a compreensão de seu
comprometimento com preconceitos e condicionamentos psicológicos e culturais, baseados
na confusão entre agir e reagir, entre o que realmente é e o que se pensa
deveria ser. É necessário então apresentar os conceitos e as ações que poderiam
desconstruir as limitações desse pensamento afirmativo através da perspectiva abordada
até agora. Promovendo então o reconhecimento da origem dessa violência
específica, apresenta-se algumas provocações pedagógicas para enriquecer a
consciência do processo artístico como vetor e eixo transformador. Cuidando
para escapar da concepção de que apenas a produção do belo e do prazeroso é seu
ápice, ao incorporar novas percepções que valorizem também a da crítica e da política
na proposição artística. Desta maneira, exemplificadas a seguir por atividades práticas
e uma exposição de reflexões precedentes em iniciativas educativas, o intuito é
esboçar uma base para uma nova orientação. A partir e para além de uma educação
estética consolidada, porém talvez insuficiente para exigências contemporâneas mais
complexas, incorporando outros valores ainda inéditos que provoquem uma
ampliação para a conceitualização de uma educação poético-estética (Catani,
2026).
4. As
Disposições e os Temas Primitivos
Daí a função de uma arte aberta como metáfora epistemológica: em um
mundo em que a descontinuidade dos fenômenos colocou em crise a possibilidade
de uma imagem unitária e definitiva, isso sugere uma forma de ver o vivido e,
ao vê-lo, aceitando-o, integrá-lo em nossa sensibilidade. Uma obra aberta
enfrenta plenamente a tarefa de oferecer uma imagem de descontinuidade: pois
não a descreve, é a própria descontinuidade. É um mediador entre a categoria
abstrata da metodologia científica e a matéria viva de nossa sensibilidade;
quase como uma espécie de esquema transcendental que nos permite compreender
novos aspectos do mundo. (Eco, 1968, p. 158)
Para cultivar esta especificidade imaginativa como
transcendência potencial, é preciso descobrir quais são suas as disposições,
anteriores a novas idealizações, que negam o positivismo radical. Porque este
bloqueia a compreensão ampla, pelo seu próprio paroxismo de propostas. Para
tanto, é imperativo entender a função de uma reflexão poético-estética. Esta surge
na elaboração da significação de uma obra como signo semiótico que se dedica ao
processo artístico, no poder de revelar os movimentos dessa transcendência. Uma
inerência que está exatamente na essência e na substância de uma qualidade
anímica, revelada na tentativa de criação do que se descreve como disposições
poéticas do significado e disposições estéticas do significante de uma obra artística.
O conceito das disposições poético-estéticas foi
elaborado em uma dissertação anterior que registrou e refletiu sobre atividades
de formação de professores. Partindo de uma decodificação semiótica de algumas
obras icônicas relacionadas às definições mais banalizadas dos períodos da
história da arte que, enquanto significações, estariam presentes tanto nesta visão
simplória quanto nas mais elaboradas. Foi uma escolha visando abranger mais
possibilidades de compreensão, o que realmente se confirmou na sua apropriação
pelos participantes, que reconheciam os períodos baseados na significação destas
disposições e não na simples obrigação por decorar as imagens pela sua datação.
Deste modo, formam uma visão conjectural que estaria incorporada aos processos
de ação, invenção ou criação humana e também expressas, sem nenhuma restrição,
em todos os movimentos da imaginação. Estas representam uma sedimentação de
milhares de anos da experiência psicológica e cultural que, mesmo não sendo
inatas, também não representam exclusivamente um cenário de evolução do
primitivo ao contemporâneo, orbitando essa experiência como sentido, à espera
apenas da sua descrição. Destiladas como uma alegoria, a partir deste senso
comum dos períodos, foram arranjadas em duplas em que cada uma contém um
elemento de característica poética subjetiva e um outro correspondente de
característica estética objetiva e que, por sua vez, cada dupla gera um dos que
foram definidos como temas primitivos: Primitivo - Ritmo / Ritual = O Tempo;
Antigo - Reflexão / Mitologia = O Divino; Medieval - Devoção / Religiosidade =
O Sacrifício; Renascimento - Identidade / Humanidade = A Verdade; Moderno -
Dinamização / Sociedade = O Ser; Contemporâneo - Equanimidade /
Panculturalidade = A União (Catani, 2011).
Cada uma destas palavras escolhidas, desde sua
própria etimologia, é apresentada por uma fractalidade como signos mínimos
dentro da obra como signo total. Criam um cenário imagético em que figuram
inerentes a este processo criativo, sugeridos então como motes, senhas ou mesmo
uma equação que podem ser relacionadas conceitualmente a qualquer obra de arte
ou peça literária, representando os temas mais primitivos desta alma artística.
Se tornam, então, peças de um arquetipo complexo, responsável por evocar algumas
qualidades básicas do processo artístico. Como suas disposições intrínsecas,
tentam abranger o espectro de seus conflitos e de suas aptidões, na pessoa e nos
seus ambientes.
Retomando e redimensionando uma semiose em seus princípios
fundantes (Eco, 2016), apenas reconsiderando a importância de todo espectro da
intelectualidade, inclusive e imprescindivelmente aquela ingênua que conquista
sua voz com as novas conexões midiáticas. Recusando a percepção de que apenas
na erudição está sua melhor manifestação e afirmando que são intrinsecamente
complementares. O significado, como a gestão do impulso, a semente do processo
criativo, uma intenção ou uma necessidade que pressiona a pulsão criadora. O
significante, como a gestão da manifestação, da execução necessária onde a
materialidade se estabiliza, é o momento em que a força invisível da criação
assume os limites da matéria. Enfim, na síntese instável dessa dialética
vertical e descontínua (Bachelard, 1963), surgem os temas primitivos como a
declaração extrema de uma significação. Reavaliando somente que a intuição não
necessariamente deva ser superada para que exista uma sistematização
metodológica, contrariamente, que se incorporam simultaneamente por uma
simbiose filosófica.
Como a revelação daquilo que induz à criação dos
signos, assim como os arquétipos e os mitos que toda e qualquer expressão vai
se inspirar por princípio. As disposições e os temas primitivos são
apresentados durante atividades práticas, sugeridos como rudimentos capazes de
provocar reflexões complexas. Justamente nos movimentos primevos da geração da
obra imaginativa e que se manifestam imanentemente no poema e na pintura
abstrata.
5. A Abstração
e a Poetização
O abstrato e a poesia são o cerne desta experiência
anímica. Um fenômeno subjacente a uma dialética passional. Um é substância e
sem este a poesia é vazia, a outra é essência e sem esta o abstrato perde
sentido. Revertendo a ideia de que a poetização e a abstração sejam fúteis ou
apenas entretenimento, sem pragmatismo suficiente para influenciar uma
realidade trágica que exige ações concretas. Contudo, é importante perceber que
são fundamentais na capacidade humana da compreensão do verdadeiro e da sua comunicação
honesta, pois, sem estes valores a experiência é incompleta. É a conjunção
entre pensar, sentir e agir, como uma combinação capaz de desencadear essa
perspectiva, que tem o poder de iniciar uma completude que, sem este
alinhamento, nunca é alcançada.
É através destas expressões que se criou a música,
a base das linguagens e até tecnologias. Línguas têm origem em oralidades e
textos poetizados, a escrita e mesmo cálculos são elaborados a partir de
abstrações. Igualmente, por uma maiêutica alegórica reversa da superfície ao
fundo, através destes movimentos se pode olhar e entender a violência originada
no seu desalinhamento. Para retificar os problemas que a racionalidade nunca
resolve, exatamente porque esta mesma os inventou, nada é mais original do que
a poetização e a abstração. Porquanto, a abstração não é o desprezo ao real,
mas sua sintetização na poesia. E a poetização não é a contradição da razão,
mas sua universalização no abstrato. Assim, como encaminhamento central se toma
o poema literário e a obra de arte abstrata, concretizando estas expressões,
inaugurando o processo artístico que a educação estética deveria assumir como
seu fundamento. Uma combinação espiritual que é a gênese da movimentação do
imaginário e que anterior a esta, provavelmente, ainda não seria possível uma
definição de humanidade.
5.1. O Poema
A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema, ela deve dar uma
visão do universo e o segredo de uma alma, um ser e objetos, tudo ao mesmo tempo.
Se segue simplesmente o tempo da vida, ela é menos que esta; só pode ser mais
que a vida imobilizando-a, vivendo no próprio lugar a dialética das alegrias e
das dores. Ela é, então, o princípio de uma simultaneidade essencial em que o
ser mais disperso, mais desunido, conquista sua unidade. (Bachelard, 2007, p.
99)
O poema é para todos, desde um ditado popular até
uma Odisseia, passando pelas orações, as letras das canções e até mesmo um
texto publicitário, tudo isso mantém e contém a linguagem do poema. Esta
abrangência e amplitude o torna insubstituível para evocar as manifestações desta
alma. O importante na frase poética é não necessitar ser explicada porque esta
é em si mesma uma explicação, no afetamento subjetivo de sua leitura intuitiva.
Por isso se propõe usar a forma do poema, pois somente sua expressão pode ser
entendida diretamente, na descoberta de que a imaginação é negativa. Ou seja,
na sua subjetividade o verdadeiro é o que não é evidente, não é aparente, não é
afirmativamente objetivo, mas, é negação e transgressão de ideias e ações
condicionadas. É um “não fazer”, porque é somente neste estado de
reversibilidade que se fomenta a intenção artística. Sem o impulso poético
nunca haverá a realização estética e, antes do encontro com esta sua
significação verídica, mesmo que insuficiente e ingênua, o texto criativo ou
sua leitura, não acontecerá.
Um exemplo de atividade prática de imersão neste
universo, realizada em cursos de qualificação de professores (Catani, 2011), é
uma oficina de criação de poemas a partir de palavras recortadas de jornais,
revistas, cartazes ou folhetos, provocando um rearranjo destas na montagem de
um poema inédito. A proposta é disponibilizar esse material aos participantes
para que, pela necessidade de encontrar e ressignificar as palavras, acabem
sendo afetados pela própria mensagem do texto onde estão inseridas, gerando um
contexto para a elaboração do seu poema, criado destes retalhos e influenciado
pela realidade contada nas páginas impressas. É uma maneira de demonstrar como
o poeta encontra insuspeitadamente os seus motes espalhados pelo ambiente.
Assim, o participante pode sentir a dificuldade que tem o poeta em reescrever aquilo
que vê e ao mesmo tempo provocar a capacidade de expor a sua própria realidade.
Aqui uma questão é crucial na organização da
escrita poética, principalmente para iniciantes: o melhor caminho é pela provocação
dos movimentos do impulso que motiva o escritor. Uma aproximação poético-estética
das realizações literárias, pelo cultivo desse fenômeno da imaginação, vai
gerar muito mais qualificação na elaboração dos textos. Assim é necessário dar
espaço para que o iniciante exista em suas dúvidas e despreparo, porquanto, o
que é importante é essencialmente este diálogo fenomenológico, uma dialética
espiritualidade/materialidade, como seu principal elemento. Como o
desencadeamento de uma tensão filosófica entre um possível mote latente e a
realidade imediata e insustentável que inspire o aparecimento desse impulso e
não apenas um conjunto de regras, normas ou medidas em que seja possível se
enquadrar forçando uma identificação. A técnica da escrita poética, de um modo
ou de outro, surge ou se adaptará no momento certo se esta for uma necessidade
do escritor em potencial.
5.2. A Pintura
Abstrata
A abstração do belo escapa a todas as polêmicas dos filósofos. De um
modo geral, tais polêmicas são curiosamente vãs em todos os casos em que a
atividade espiritual é criadora, tanto no que concerne à atividade da abstração
racional na matemática como à atividade estética que abstrai rapidamente as
linhas da beleza essencial. Se déssemos mais importância à imaginação, veríamos
muitos falsos problemas psicológicos esclarecidos. (Bachelard, 2001, p. 65)
Uma imagem abstrata, seja bidimensional ou
tridimensional, também tem o poder de manifestar uma sensibilidade atávica
desse potencial da imaginação negativa por excelência. É a linguagem da alma,
onde a imagem reversa é a ampliação da razão, é alegórica, pois se revela pelo
que não se enxerga imediatamente, pelo que não é explícito, porém, onírico e
pleno de lirismo. E mesmo quando a abstração é geométrica, esta carrega muito
mais de significações metafóricas do que planos de uma descrição objetiva. As
cores são belas em si mesmas, suas combinações encantam a qualquer pessoa sem
nenhuma restrição. As formas afetam quem quer que se aproxime destas. A
intencionalidade da sua combinação em composição e das cores em arranjo
traduzem o próprio movimento anímico.
Se o processo artístico é subjetivo, então pode ser
algo inconsciente e irracional, porém, é ao mesmo tempo ecumênico. Em sua
essência, pode ser coletivo e ainda assim, anônimo. Essa qualidade surpreende
ao ser encontrada em algumas criações espontâneas que falam sobre esta
existência comum. Uma parede com uma textura sublime, um outdoor raspado que se
transforma em uma abstração maravilhosa, composta de texturas, formas e cores
incríveis. Pedras, peças antigas ou galhos dispostos em um arranjo estético que
revela uma imensa história dos atos e sonhos humanos em uma única visão
emocionante. Descobrir essas obras incomuns é um acometimento artístico, como
uma arqueologia do sublime, que cativa o artista abstrato na busca por decifrar
e recriar, intencionalmente, a manifestação de sua obra misteriosa.
Um exemplo prático de ação para o encontro com este
fenômeno, aplicado em laboratórios com adolescentes internados sob medidas
socioeducativas (Catani, 2004), é uma atividade propondo o descobrimento das
formas e das cores a partir das três cores primárias. O mais recorrente
exercício é apresentar antes o círculo das cores para uma demonstração
intelectual das cores primárias e da formação das secundárias de maneira
objetiva, onde sua reprodução posterior é resultado de um conhecimento pragmático,
sem o fomento da reflexão intuitiva tão importante ao artista. Apresentar o
surgimento das cores desta maneira é como querer construir um telhado antes das
paredes de uma casa. Em contraste a esta tradição, a maneira como as misturas
das cores devem ser encontradas pela primeira vez e de como as formas podem ser
abstraídas, é realizada através de uma descoberta subjetiva. Antes de mais
nada, devem ser vistas realmente surgindo durante o fazer artístico.
Assim, a proposta é que se parta de uma folha de
papel em branco e que as cores primárias sejam disponibilizadas por tintas e
pincéis. O participante é avisado a “fazer algo que não existe”, como um
incentivo para que se evite a reprodução viciada de temas recorrentes.
Começando a aplicá-las sobre o papel, devagar e com cuidado para que cada cor
tenha sua própria manifestação ao criar formas inusitadas, encontram as outras
cores sendo misturadas ao acaso e assim revelam as combinações em tempo real. Neste
movimento, o participante entra em contato com a sugestão de “manter o que está
bonito”, fazendo com que um alto nível de atenção seja despertado durante a
execução do exercício. Para formar a intuição das cores e das formas, além de
também exercitar esta concentração da sua realização, há aqui uma diferença capital
entre um modelo fixo e imposto e a emoção de uma expressão fluida sendo
descoberta diretamente por quem realiza o trabalho. A surpresa da beleza da
combinação das cores e a delicadeza da aparição das formas é uma oportunidade única
para um momento de sensibilidade inédita.
6. Sobriedade,
Compaixão e Vocação
A base poética da alma tira a psicologia dos limites do laboratório e do
consultório, e até da subjetividade pessoal do indivíduo, e a transforma numa
psicologia das coisas como encarnações de imagens com vida interior. (Hillman,
1983, p. 49)
Esta base da imaginação, que foi redimensionada nas
sessões anteriores como uma manifestação poético-estética complexa, pode ser considerada
como imprescindível à integralidade e à incorruptibilidade do ser, capaz de incentivar
uma personalidade necessária e comprometida com o melhor coletivo que a
educação almeja. No entanto, antes é importante redefinir a compreensão de
personalidade ideal que, na maior redução possível, é a de um senso comum em
que esta figura apenas como o lugar do bem estar positivo. Naquela que aqui se
aceita sua melhor definição, na compreensão da noção arquetípica (Hillman,
1983), esta é reflexiva sobre sua situação dramática, reagindo bem humorada ou
irônica e afirmando a compaixão como uma de suas marcas. Porém, acredita-se ser
possível ir além de uma esperança de superação contida na sua abordagem, o que
não deixa de ser ainda um movimento positivo.
Algumas dessas características são vistas aqui
apenas como derivados, variações ou mesmo desfigurações daquela compaixão. É esta
última que figura no primeiro plano, como uma noção atômica e não apenas mais uma
das muitas manifestações de ânimo, sendo uma das fontes de onde fluem estes outros
aspectos que constituem uma personalidade. Outro princípio primário, que aqui se
inclui ao lado da compaixão é a sobriedade, sendo esta também capaz de se
desdobrar em inúmeros fragmentos secundários. Desta maneira, a sobriedade e a
compaixão são esta base original onde se equilibra qualquer outra manifestação
possível desses estados de ânimo. Sendo que sem estes dois vetores poderiam
facilmente degenerar como poderosos instrumentos da violência, assumindo apenas
características reativas, agressoras ou autodestrutivas e se distanciando
daquela vitalidade originária. Entretanto, aqui se sugere seja incluída ainda
mais um aspecto fundante desta base para a sua integridade. Esta é a vocação, a
fonte da expressão de todos os talentos, que através da sua evocação será
também reconhecida nestes impulsos específicos, aprofundados e engajados. Manifestando-se
como o eixo onde todo este fenômeno irá se apoiar, onde todo o impulso de uma
realização humana tem essa sua força motriz.
Deste modo, surge um novo arranjo desta prioridade amplificadora
de uma manifestação espiritual a ser cultivada. Apresentada aqui como o mínimo imaginável
para a definição dessa alma: a sobriedade, a compaixão e a vocação. Esta última,
figura como a descoberta e a vivência de uma paixão que se torna o sentido da
experiência do viver, a expressão máxima daquilo que se pode perceber como o
agir anímico. A compaixão, o sentir anímico, como mais do que o simples
sentimentalismo da bondade, negando a mera comiseração; um elemento que está à
disposição pela capacidade da consciência em se dedicar e se absorver; amparada
por uma visão além de si mesmo, tanto pelo sofrimento e o pesar como pela
fragilidade e a ingenuidade da sua própria condição em relação à mesma situação
imediatamente reconhecida nos outros. A sobriedade, o pensar anímico, não como
o pedantismo da erudição e da disciplina imposta, nem a simples austeridade da
abstinência, mas como a castidade de uma escolha vivenciada; seja em qualquer
um de todos os seus níveis possíveis nunca se manifesta como apenas moralidade
ou penitência, porém, na abnegação de um desapego; é a negação profunda da
alienação, como uma atenção e prontidão diante das necessidades e da
responsabilidade consigo mesma, os outros e a sua realidade.
E ainda que não baste apenas a dedicação ao próprio
talento no cultivo constante da vocação, visto que inúmeras são as situações em
que esta é vivenciada plenamente e mesmo assim a desordem, o conflito e a
violência não estão controlados, esta é inadiável. Seja a coletiva, como a da
cultura de um povo, ou a individual, como a desse talento único, o
enriquecimento profundo desta personalidade se faz nos relacionamentos
cotidianos destas vocações compartilhadas. Porém, é somente ao se alinhar com
aquela sobriedade e aquela compaixão que se cria a única estrutura dinâmica
possível para a equilibração desta experiência humana, que assume o pesar do viver
e a defasagem entre o possível e o seu próprio destino. Estas três premissas
alinhadas são a configuração conclusiva de um arquétipo conceitual, ou um
conceito arquetípico. Uma peça dinâmica, complexa e uma entidade que pode
trabalhar, simultaneamente, a matéria-prima das disposições e dos temas
primitivos como um álibi de uma presença pensando, sentindo e agindo. Uma
manifestação que suporta a si mesma, sendo ao mesmo tempo a força de um
questionamento e o poder de uma definição, juntando toda a perspectiva e a percepção
de uma alma.
A linguagem primária e irredutível desses padrões arquetípicos é o
discurso metafórico dos mitos. Eles podem assim ser compreendidos como os
padrões fundamentais da existência humana. Para estudar a natureza humana no
seu nível mais básico, é necessário voltar-se para a cultura (mitologia,
religião, arte, arquitetura, o épico, o drama, o ritual) onde esses padrões são
retratados. (Hillman, 1983, p. 23)
Esta sugestão, durante a organização desta educação
poético-estética, não somente se descobre uma metáfora máxima para uma
conceitualidade mitológica, mas ainda muito mais importante, encontra-se aquilo
que é o âmago primordial da consciência que cria o discurso metafórico e suas
materializações. Provocando a expansão destes movimentos primordiais para que a
violência não seja apenas suprimida, mas redimensionada e passe a ocupar o seu
lugar, que de fato existe, enquanto a força vital que carrega também a sua
significação. O estudo da natureza humana pelos seus padrões fundamentais pode ser
interessante, no entanto, é insuficiente por exigir uma transformação que apenas
pode acontecer no vir a ser. O problema é que, visto a imensidão do material a assimilar
antes de conseguir mudanças radicais, talvez seja necessário mais do que toda uma
vida, enquanto estas são urgentes no agora, nas rupturas do instante onde as
tragédias como a da violência afloram. É infinitamente mais
revolucionário e emancipador uma negação dos padrões, abrindo um espaço para a
descoberta de qual é a energia original que os produziu. É a tríade da
sobriedade, da compaixão e da vocação, não como uma fórmula dada e finalizada,
senão como um fenômeno em movimento que constantemente descobre a si mesmo, que
instaura a consciência de uma transformação no mesmo instante de sua concepção.
7. Considerações
Finais
O imaginador, o apaixonado pela alma rústica, artística, é despertado e
parte para retificar a sacralidade da sua vida, ao retomar constantemente a
reflexão filosófica ingênua sobre os temas primitivos. Afirma neste ato que
cada uma dessas potências atávicas, que podem ser conquistadas intuitivamente
simplesmente na evocação desses temas, desencadeia neste ser imaginador os
elementos arquetípicos fundamentais para o processo de criação de imagens que,
simultaneamente, mantêm-no apto ao instante silencioso da presença mítica do
espírito do mundo. (Catani, 2011, p.203)
É preciso ainda lembrar que toda obra imagética
prevê um impasse perigoso. Porque a identificação e o apego que as imagens provocam
na personalidade favorece o condicionamento positivista (Krishnamurti, 1982). Por
outro lado, o processo imaginativo proporciona o único grande momento para
compreender os movimentos dessa alma, que é exatamente o que livra deste mesmo
comprometimento na sua negação. O próprio intento em direção desta condição vital
é o mais importante passo para o redimensionamento da violência. Antes da
afirmação das respostas é imprescindível uma paixão pelo mistério das grandes
questões. Porque a liberdade só é liberdade se está no começo não no fim, na
ampliação do foco semiótico daquilo o que é discutido, nas suas miríades
especulativas, para o fenômeno da discussão em si mesma. Sem a imposição do
suposto verdadeiro, negando o que é falso, o discernimento dessa realidade começa
e, neste exato momento,está em vigor a verdade. Assim como o falso não é o
oposto do verdadeiro, mas a sua degeneração, essa violência em metástase é a sua
própria degradação. Somente o imaginador pode encontrar estas potencialidades
anímicas, porque a excelência humana não está na razão positiva e sim na reversibilidade
da sua imaginação.
Então, o que é o amor? Sabe, para descobrir o que é, é preciso negar,
deixar de lado completamente o que não é. Através da negação, chega-se ao
positivo; não busque o positivo, mas chegue a ele compreendendo o que ele não
é. Ou seja, se eu quiser descobrir o que é a verdade, sem saber o que ela é,
preciso ser capaz de ver o que é falso. Se eu não tiver a capacidade de
perceber o que é falso, não posso ver o que é a verdade. Portanto, preciso
descobrir o que é falso. (Krishnamurti, 1973, p. 6)
Antes de retornar a este ponto, onde a especulação
afirmativa ainda não havia inventado toda essa fragmentação, nada livrará da
violência. A importância do cultivo desta vitalidade é tal que, mesmo se esta
perspectiva não seja exclusivamente o que provoca esta desprendimento, certamente
a sua ausência torna qualquer tentativa neste sentido simplesmente impossível. Sem
negar a especulação ideológica do pensamento positivista, nenhuma integralidade
poderá existir e este apenas produzirá mais violência. Pois a verdade é
complexa e reversa, ou seja, a verdade é tudo aquilo que ela não é. É esta alma
rústica, fora daquele pensamento escravizado ou
autossabotado, que carrega toda a especificidade do ser humano. Como este signo
potente, este arquétipo polissêmico em movimento que abarca e sintetiza todos os outros possíveis em si, inspirando a manifestação imediata do
fenômeno profundo da própria fundação de sua espiritualidade equânime. Firmada no
compromisso vocacional por uma relação cosmogônica com sua época e o espírito
de seu mundo, esta passa a amparar o instinto reativo pela intuição que
instaura, compartilhada, sóbria e compassiva, enfim, a gênese de uma
consciência que emerge liberta, unificadora e universalizada.
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