30 de mai. de 2026

Uma Raiz da Violência (paper)

 

Uma Pedagogia da Alma:

A Educação Estética e a Raiz da Violência

 

Fernando Henrique Catani, M.Ed. - Independent Researcher (Brazil)

 

 

Fernando Henrique Catani - Bachelor’s degree in Pedagogy and a Master’s degree in Education from the State University of Campinas - Unicamp, Brazil. Italian-Brazilian independent researcher, artist and activist, with 29 years of experience in addiction recovery and trauma rehabilitation programs, art educational projects for children and adolescents at social risk or in conflict with the law, as well as teacher and educator training programs.

 

Abstract:

This short essay offers a specific look at the phenomenon of violence and its prevention, providing a conceptual foundation for a training course for actors in various educational fields. It is based on a more extensive, ongoing reflective work that, through the proposition of a poetic-aesthetic education, aims to defend the importance of the soul’s sign in integral human formation. The objective is to expose the manifestations of violence, explicit or underlying, pointing to the limitations of affirmative thought in its comparative conflict and the objectification of talents as its main root. It seeks to deconstruct the idea that artistic language is futile and insufficient for concrete actions; to demonstrate the fundamental importance of a negative imagination for understanding truth and its honest communication; and to propose the artistic process of abstraction in painting and writing poetry to define a poetic-aesthetic basis for imagination recognized in sobriety, compassion, and attention to the vocation.

 

Keywords: Phenomenological Semiosis; Soul-Making Pedagogy; Poetic-Aesthetic Education; Soulful Imagination; Violence Roots.  

 

 

1.  Introdução

 

É uma particularidade da alma ser não apenas mãe e origem de toda ação humana, como também expressar-se em todas as formas e atividades do espírito; não podemos encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação. (Jung, 1985, p. 74)

 

A Pedagogia desenvolve processos educativos formais, não formais e informais. Na investigação dos problemas humanos, articula variados saberes, imbricando diversas outras áreas, para criar soluções a grandes desafios. A violência é também um tema da Pedagogia, principalmente, em ações para transformar situações e contextos onde esta se manifesta. Este ensaio é um olhar específico sobre este fenômeno, expondo o problema do conflito comparativo e da objetificação dos talentos. Embasado por um trabalho ainda em desenvolvimento (Catani, 2026), através de uma educação poético-estética, redimensiona e defende a importância do signo anímico na formação humana. É um recorte conceitual de um curso de formação de atores da educação, que propõe descobrir e desenvolver uma concepção dessa alma, apenas sugerida nesta proposta, porque é exatamente a retificação do signo o que provoca transformações profundas.

Propondo uma pedagogia da alma, artística, inspirada em autores que, embora não sejam em si o objeto de estudo, têm em comum serem um pouco negligenciados e são citados pela excelência de algumas das suas definições. Além de apresentarem uma ruptura de paradigmas, todos convergem em especial no tema da alma, mesmo que não pela mesma aproximação. Então, começando pelos estudos dos arquétipos de Carl Jung (1985). Seguido por uma semiose fenomenológica embasada em Umberto Eco (2016). A educação estética da psicologia pedagógica de Lev Vygotsky (1968, 2016). A filosofia do não e a poética do devaneio de Gaston Bachelard (1978, 2001, 2007). E a piedade política na psicologia arquetípica de James Hillman (1983, 1986, 2016). Finalmente, como um contraponto não acadêmico, a negação libertadora e a meditação ativa do momento a momento de Jiddu Krishnamurti (1973, 1982, 1985)

A partir destes pilares teóricos, redimensionando paradigmas e modelos ideológicos ineficientes e inapropriados, inicia-se então uma reflexão sobre ações educativas possíveis, desenvolvidas através do diálogo com estas referências e a intenção desta proposta: organizar um ambiente onde se busque entender uma raiz desta violência, retomar uma noção abrangente da qualidade e da importância de uma concepção da alma e sugerir alguns meios para transformar os fatos da realidade desta condição violenta.

 

2.  Uma Raiz da Violência

 

A etimologia da palavra violência vem claramente do substantivo latino vis que, além de traduzir violência em si mesma, define uma essência que faz uma coisa ser o que é, seu princípio e vigor primário. As definições atuais, no entanto, focam mais no ato violento do que nesta força vital. Já a aproximação acadêmica, embora assuma a impossibilidade da definição absoluta do termo, prefere definições multifacetadas do que manter uma definição geral reducionista. Este trabalho oferece uma dessas visões complementares na possibilidade de uma qualidade remanescente, uma raiz da violência herdada de uma necessidade instintiva de sobrevivência a qualquer ameaça atávica. A preocupação é que o pensar foi impregnado e é capaz de contaminar o sentir e o agir. Uma realidade além da criminalidade e que se manifesta intrínseca desde uma violência geopolítica, na exploração da miséria; uma cultural, como a do racismo, das celebridades sobre seus seguidores e da publicidade com sua humilhação subliminar; passando pela social, na violência do privilégio, naquela dos eruditos para submeter os leigos, assim como de professores contra alunos; até aquela doméstica contra a segurança física e psicológica da criança. 

A denúncia principal é de um pensamento que apenas exige uma ação punitiva contra essa violência competitiva ancestral sem perceber sua complexidade. Um conflito subconsciente calcado na fragmentação das identidades ideológicas, instrumentalizando como indesejável apenas contra outro violento. Reafirmando a violência até mesmo na racionalização que a pretende controlar. Sempre inquieta por um imediatismo que reaja também violentamente. Contradizendo que a repressão violenta seja a solução, porque observando a história a punição severa realmente produzisse resultados a violência seria extinta, mas, na realidade tem aumentado.

Para agir contra a violência é fundamental a prevenção ainda mais antecipada, na pessoa ou na sociedade, desarticulando seu desencadeamento no cotidiano, que de tão incorporada provocará mais violência. Uma violência subjacente ao pensamento positivo, à necessidade da conquista a qualquer custo. Um perene conflito, na comparação detratora, na reatividade impulsiva e, principalmente, no fetichismo dos talentos. Julgando e condenando, desqualificando um talento ingênuo e o moralizando como uma deficiência. Autointoxicando a pessoa, infiltrada na sociedade e entre grupos de identidades irreconciliáveis. Instrumentalizada na arregimentação das vontades, dos desejos imediatistas para viabilizar a exploração. Manifestando-se sempre em todos estes níveis, dificultando o desvelamento de suas raízes. Deste modo, sendo a educação um momento de excelência para sua prevenção, é urgente estabelecer novos lugares, pela refundação da alma, onde essa violência não exista como tem há séculos se disseminado.

 

3.  A Educação Poético-Estética

 

O que queremos empreender aqui, com efeito, é apenas uma tarefa de libertação pela intuição. Como a intuição do contínuo nos oprime com frequência, é indubitavelmente útil interpretar as coisas com a intuição inversa.” (Bachelard, 2007, p. 59)

 

As primeiras oportunidades de cultivar um talento na vida são muito sutis e espontâneas. São as que melhor impacto produzem na completude da pessoa e que afetam de volta o seu meio. Uma sociedade desenvolve um equilíbrio, transforma injustiças ou muda pacificamente, quanto mais possibilidades aparecem em um ritmo equilibrado. Entretanto, algumas organizações sociais são tão disfuncionais que acabam banindo a preocupação com os talentos. Assim, no desejo por reencontrar algum contexto, pessoas são induzidas a pensar, sentir e agir pela mesma brutalidade, antes de tudo contra si mesmas. Quando se deixa de recriar este ambiente favorável se instaura um círculo vicioso de desumanização, gerando uma sociedade caótica e violenta.

 

Nas composições das crianças Tolstói encontrou muito mais verdade poética do que nos maiores modelos da literatura. E se nas composições apareciam algumas passagens torpes, isso acontecia sempre por culpa do próprio Tolstói; onde as crianças estavam entregues a si mesmas elas não pronunciavam nenhum som falso. Daí Tolstói concluía que o ideal da educação estética como da educação moral não está no futuro, mas no passado, não está na aproximação da alma infantil à alma do adulto, mas na conservação das qualidades primitivas naturais dessa alma. (Vygotsky, 2001, p. 348)

 

O cultivo da imaginação é uma dessas oportunidades. Por isso é possível através da compreensão do processo artístico, justamente pela potência anímicas que incentiva, estabelecer um campo seguro e controlado para expor as origens dessas brutalização em tempo real. Surgem então caminhos para o pensamento, o sentimento e a ação se desvencilharem desses elementos da violência, retomando a sua fundação para a transcender, desde suas formas simbólicas até as físicas. É pelo exercício constante dessa manutenção das qualidades primordiais da alma, catarticamente inspiradas por uma poetização e uma abstração imaginativas, que se pode decifrar e repudiar essa violência. Não pelo esforço de sua extinção, não pela ideia da sua repressão, não pelo conflito constante contra o seu impulso, que é ainda um movimento desta violência. Porém, para não provocar e agravar o problema como fazem ideologias, religiões e até mesmo a racionalização científica, é preciso evocar a perspectiva da alma no cotidiano.

 

Aqui reside a chave para a tarefa mais importante da educação estética: introduzir a educação estética na própria vida. A arte transfigura a realidade não só nas construções da fantasia, mas também na elaboração real dos objetos e situações. A casa e o vestiário, a conversa e a leitura, e a maneira de andar, tudo isso pode servir igualmente como o mais nobre material para a elaboração estética. De coisa rara e fútil a beleza deve transformar-se em uma exigência do cotidiano. O esforço artístico deve impregnar cada movimento, cada palavra, cada sorriso da criança. É de Potiebniá a bela afirmação de que, assim como a eletricidade não existe só onde existe a tempestade, a poesia também não existe só onde há grandes criações da arte, mas em toda parte onde soa a palavra do homem. E é essa poesia de ‘cada instante’ que constitui quase que a tarefa mais importante da educação estética. (Vygotsky, 2001, p. 352)

 

Assim, a partir de algumas atividades artísticas e uma exposição crítica, incluindo questionamentos aos autores citados, pretende-se acusar as limitações desse pensamento afirmativo e em relação à amplitude da imaginação negativa. Os problemas desse positivismo,  que aparece em concepções aparentemente passivas e até julgadas como louváveis, podem afetar todas as iniciativas educacionais por aquele conflito comparativo entre o que se pensa deveria ser e o que realmente é. Para desfazer a ansiedade pelo possível através do reconhecimento dessa violência específica, que ignora a necessidade da compreensão dos preconceitos e condicionamentos psicológicos e culturais, apresentam-se algumas provocações pedagógicas para enriquecer o processo artístico como vetor e eixo transformador, escapando desta visão de que apenas a produção do belo é seu ápice. O intuito é estabelecer uma base que anseia um novo paradigma, a partir e para além da educação estética conhecida, que é insuficiente para exigências contemporâneas complexas. Incorporando novos elementos que provoquem uma ampliação para uma nova conceitualização que planeja uma educação poético-estética (Catani, 2026).  

 

3.1.  A Abstração e a Poetização

 

O abstrato e a poesia são o cerne desta experiência anímica. Um fenômeno subjacente a uma dialética passional, um é substância e sem este a poesia é vazia, outra é essência e sem esta o abstrato perde sentido. Revertendo a ideia de que a poetização e a abstração sejam fútil ou apenas entretenimento prazeroso. Sem um pragmatismo suficiente para influenciar uma realidade trágica que exige ações concretas. É importante a percepção de que são fundamentais para a capacidade humana da compreensão verdadeira e a comunicação honesta, pois sem estes valores a experiência é incompleta. É uma conjunção entre pensar, sentir e agir que provoca uma combinação capaz de desencadear a perspectiva anímica, que tem o poder de iniciar essa completude. Sem este alinhamento esta nunca é alcançada. Não na especulação sensitiva ou extrassensorial, porém, na significação que esta alma carrega na organização da natureza do ser.

É através destes elementos que se criou a música, que também foi base para linguagens e tecnologias. Línguas têm origem em oralidades e textos poetizados, a escrita e cálculos são elaborados a partir de abstrações. Assim, por uma maiêutica alegórica reversa, da superfície ao fundo, através destes movimentos se pode olhar e entender as raízes da violência, originadas no seu desalinhamento. Para retificar esses problemas que a racionalidade nunca resolve, exatamente porque esta mesma os inventou, nada é mais original do que a poetização e a abstração. Como o encaminhamento central se pode tomar o poema literário e a obra de arte abstrata, concretizando estas qualidades, inaugurando o processo artístico que a educação estética deveria assumir como seu fundamento. Porque esta combinação é a gênese da movimentação do imaginário, é sua fonte e provavelmente, anterior a esta, ainda não seria possível uma definição de humanidade.

 

3.2.  Disposições e Temas da Alma

 

Daí a função de uma arte aberta como metáfora epistemológica: em um mundo em que a descontinuidade dos fenômenos colocou em crise a possibilidade de uma imagem unitária e definitiva, isso sugere uma forma de ver o vivido e, ao vê-lo, aceitando-o, integrá-lo em nossa sensibilidade. Uma obra aberta enfrenta plenamente a tarefa de oferecer uma imagem de descontinuidade: pois não a descreve, é a própria descontinuidade. É um mediador entre a categoria abstrata da metodologia científica e a matéria viva de nossa sensibilidade; quase como uma espécie de esquema transcendental que nos permite compreender novos aspectos do mundo. (Eco, 1968, p. 158)

 

Na especificidade imaginativa dessa transcendência potencial, é preciso descobrir suas disposições, anteriores a novas idealizações, como negação desse positivismo. Porque este bloqueia possibilidades de compreensão da violência, pelo paroxismo propositivo que fomenta. Então, é imperativo entender a função da reflexão poético-estética. Esta surge na elaboração da significação deste signo semiótico no processo artístico, revelando movimentos dessa alma transcendente que está disponível ao ser humano. Uma inerência da essência e substância anímicas, através da criação das disposições poéticas do significado e as disposições estéticas do significante.

O conceito das disposições poético-estéticas foi elaborado em uma dissertação anterior (Catani, 2011), que refletiu sobre atividades de formação de professores, partindo da decodificação semiótica de obras icônicas das definições banalizadas da história da arte. Foi tomado desta maneira porque estariam presentes tanto nesta simplória quanto nas mais elaboradas. Esta escolha poderia abranger mais possibilidades de compreensão, o que se confirmou pelos participantes reconhecendo os períodos nestas disposições e não nas suas datas. Estas formam uma visão conjectural incorporadas aos processos de ação, invenção ou criação e também expressas na imaginação. Sendo sedimentadas através das experiências psicológicas e culturais não inatas, mas também não apenas evoluídas do primitivo ao contemporâneo. Destiladas como uma alegoria do senso comum dos períodos, foram arranjadas em duplas, contendo um elemento de poética subjetiva e um outro correspondente de estética objetiva, cada dupla gerando um dos temas primitivos: Primitivo - Ritmo / Ritual = O Tempo; Antigo - Reflexão / Mitologia = O Divino; Medieval - Devoção / Religiosidade = O Sacrifício; Renascimento - Identidade / Humanidade = A Verdade; Moderno - Dinamização / Sociedade = O Ser; Contemporâneo - Equanimidade / Panculturalidade = A União (Catani, 2011).

Cada palavra, em sua própria etimologia, é apresentada como o mínimo contido em uma obra, como uma senha ou uma equação, para a aproximação a sua significação. São um conceito arquetípico complexo, que evoca qualidades anímicas fundamentais. Disposições intrínsecas ao signo anímico, abrangem um espectro de conflitos e aptidões, da pessoa e dos ambientes. Um cenário imagético que figura elementos inerentes ao processo criativo, como motes, noções relacionadas a qualquer obra, como temas primitivos da alma. Redimensionando uma semiose de conceitos fundantes (Eco, 2016), reconsiderando a importância de todo espectro da intelectualidade, inclusive aquela ingênua revelada pelas novas conexões, recusando a erudição como sua melhor manifestação, pois são complementares. O significado, como a gestão do impulso, a semente do processo criativo, uma intenção ou uma necessidade que pressiona a imaginação, é a pulsão anímica. O significante, como a gestão da manifestação, da execução necessária, onde a materialidade se estabiliza, é o momento em que a força invisível da criação assume os limites da matéria, para finalmente florescer no seu mundo. Enfim, na síntese dessa dialética descontínua (Bachelard, 1963), surgem como declaração extrema da sua significação nos temas. Com uma intuição não necessariamente superada pela sistematização metodológica, mas incorporada em uma simbiose filosófica. Carregando a descrição de um arquétipo conceitual que vai inspirar toda expressão, como o reflexo manifestado da alma humana comum. 

 

3.3.  O Poema

 

A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema, ela deve dar uma visão do universo e o segredo de uma alma, um ser e objetos, tudo ao mesmo tempo. Se segue simplesmente o tempo da vida, ela é menos que esta; só pode ser mais que a vida imobilizando-a, vivendo no próprio lugar a dialética das alegrias e das dores. Ela é, então, o princípio de uma simultaneidade essencial em que o ser mais disperso, mais desunido, conquista sua unidade. (Bachelard, 2007, p. 99)

 

O poema é para todos, desde um ditado popular até uma Odisseia. Esta amplitude o torna insubstituível para evocar a alma. Importante pelo afetamento subjetivo criado na leitura intuitiva, provocando o entendimento de maneira direta. Por isso se propõe usar a forma do poema, pois sua expressão é entendida diretamente, na descoberta da imaginação negativa.  Na sua subjetividade o que diz a sua verdade é o que não é evidente, não é aparente, mas, é transgressão de ideias condicionadas. É um “não fazer”, porque é reversibilidade na intenção artística. Sem o impulso poético nunca haverá a realização estética e, antes da sua significação verídica, mesmo que insuficiente, o texto ou sua leitura não nascerá.

Uma atividade prática, realizada em cursos de qualificação de professores (Catani, 2011), é uma oficina de poemas a partir de palavras recortadas de jornais, provocando um rearranjo de um poema. É uma maneira de demonstrar como o poeta encontra seus motes espalhados pelo ambiente. Assim, o participante pode sentir a dificuldade que tem o poeta em reescrever aquilo que vê e ao mesmo tempo provocar a capacidade de expor as próprias significações de sua realidade. Aqui uma questão é fundamental na organização da escrita poética, principalmente para iniciantes: o melhor caminho não é pela apresentação de técnicas, mas sim, pela provocação dos movimentos do impulso poético que motiva o escritor. Uma aproximação pelos elementos poéticos e estéticos das realizações literárias, pelo seu fenômeno e no cultivo dessa provocação da imaginação, vai gerar muito mais qualificação na elaboração dos textos. Assim é necessário dar espaço para que o iniciante exista em suas dúvidas e despreparo, pois, o que é importante é essencialmente este diálogo fenomenológico, uma dialética espiritualidade/materialidade, poética/estética, como principal elemento dessa proposta artística. Como o desencadeamento de uma tensão filosófica entre um possível mote latente e a realidade imediata e insustentável que inspire o aparecimento desse impulso e não apenas um conjunto de regras, normas, medidas e gráficos em que seja possível se enquadrar forçando uma identificação. A técnica da escrita poética, de um modo ou de outro, surge ou se adaptará no momento certo se esta for uma necessidade do escritor em potencial.

 

3.4.  A Pintura Abstrata

 

A abstração do belo escapa a todas as polêmicas dos filósofos. De um modo geral, tais polêmicas são curiosamente vãs em todos os casos em que a atividade espiritual é criadora, tanto no que concerne à atividade da abstração racional na matemática como à atividade estética que abstrai rapidamente as linhas da beleza essencial. Se déssemos mais importância à imaginação, veríamos muitos falsos problemas psicológicos esclarecidos. (Bachelard, 2001, p. 65)

 

Uma imagem abstrata tem o poder de manifestar uma sensibilidade atávica desse potencial da imaginação negativa. É linguagem da alma, onde a imagem reversa é negação alegórica, pois se revela pelo que não se enxerga, pelo não explícito, porém, onírico e pleno de lirismo. E mesmo a abstração geométrica carrega mais significações metafóricas do que planos de uma descrição. As cores são belas em si mesmas, suas combinações encantam a qualquer pessoa. As formas afetam quem se aproximar. A combinação de formas em composição e das cores em arranjo traduzem o movimento da alma. O processo artístico é subjetivo, inconsciente e irracional, mas ecumênico. Sua essência é coletiva e, ainda assim, anônima. Essa qualidade surpreende ao ser encontrada nas criações espontâneas de uma existência comum. Uma parede com textura sublime, um outdoor transformado em uma abstração maravilhosa, com texturas e cores incríveis. Pedras ou galhos dispostos em um arranjo poético que revelam uma imensa história e a poesia dos atos e sonhos humanos. Descobrir essas obras incomuns é um impulso poético, como uma arqueologia sublime, que cativa o artista abstrato na busca por decifrar e recriar, intencionalmente, a manifestação de sua estética misteriosa.

Um exemplo prático aplicado em laboratórios com adolescentes internados sob medidas socioeducativas (Catani, 2004), é uma atividade provocando o aparecimento das formas e das cores a partir das três cores primárias. O exercício recorrente é apresentar antes o círculo das cores, onde sua reprodução posterior é resultado de um conhecimento dado, sem o fomento da reflexão intuitiva. Isto é como construir o telhado antes das paredes. Em contraste a esta tradição, propõe-se que as misturas possíveis das cores sejam encontradas e descobertas subjetivamente. Devem ser vistas surgindo durante o fazer artístico. A proposta é que se parta de uma folha de papel em branco e que as cores primárias sejam disponibilizadas por tintas e pincéis. O participante é avisado a “fazer algo que não existe”, como um incentivo para que se evite a reprodução viciada de temas. Aplicando as tintas sobre o papel devagar e com atenção para que cada cor tenha sua própria manifestação e que, ao encontrar as outras cores diretamente sobre o papel, sejam misturadas ao acaso gerando as combinações com sua revelação instantânea. Assim, o participante entra em contato com a sugestão de “manter o que já está bonito”, fazendo com que um nível de concentração seja despertado pela observação durante a execução. A surpresa da beleza da combinação das cores e a delicadeza da aparição das formas é uma oportunidade para um momento de sensibilidade inédita. Para uma educação estética que visa formar a intuição das cores e das formas, além de também exercitar a atenção da sua realização, há aqui uma diferença fundamental entre um modelo cartesiano fixo e imposto e a emoção de uma expressão fluida sendo descoberta diretamente por quem realiza o trabalho.

 

4.  Sobriedade, Compaixão e Vocação

 

A base poética da alma tira a psicologia dos limites do laboratório e do consultório, e até da subjetividade pessoal do indivíduo, e a transforma numa psicologia das coisas como encarnações de imagens com vida interior. (Hillman, 1983, p. 49)

 

Esta base da imaginação, entendida como uma manifestação poético-estética complexa, pode ser definida como uma qualidade anímica imprescindível à integralidade do ser, capaz de desenvolver uma personalidade necessária e comprometida com o melhor coletivo. No entanto, é importante também redefinir a concepção de personalidade ideal, que na melhor hipótese do senso comum é sabida apenas como um lugar do bem estar. Redimensionando também esta base poética que admite a compaixão, mas que reconheceria seu drama com humor, irônica de si mesma (Hillman, 1983), acredita-se ser possível ir além. Estes elementos seriam, na verdade, como variações desta compaixão. Esta última é que figura assim no primeiro plano, pois é tomada como um fundamento anímico, como um elemento atômico e não apenas uma manifestação de ânimo, sendo uma das fontes de onde fluem estes outros aspectos de uma personalidade. Outro fundamento primário, incluído ao lado da compaixão, é a sobriedade. Esta também capaz de se desdobrar em inúmeros outros elementos que orbitam a personalidade.

Desta maneira, são a sobriedade e a compaixão que equilibram qualquer outra manifestação possível desses estados de ânimo, que sem estas poderiam facilmente degenerar como poderosos instrumentos da violência, assumindo estas características reativas agressoras ou mesmo autodestrutivas. Entretanto, há mais um aspecto fundante desta alma que pode enriquecer essa personalidade na sua integridade. Esta é a vocação, a base da expressão de todos os talentos, que através da sua evocação anímica será também reconhecida, manifestando-se como o eixo onde todo o movimento anímico irá se apoiar, onde todo o impulso de uma realização humana tem a sua força motriz. É a elaboração de um arranjo que mais significativo na definição da prioridade anímica, amplificando a sua manifestação espiritual.

Teríamos então esta trindade a ser cultivada: a sobriedade, a compaixão e a vocação. Esta última, figura como a descoberta e a vivência de uma paixão que se torna o sentido da experiência do viver, a expressão máxima daquilo que se pode perceber como o agir anímico. A compaixão, o sentir anímico, como mais do que o simples sentimentalismo, negando a mera comiseração. Um elemento de uma alma que está à disposição, é a capacidade da consciência dedicada a absorver, amparada por uma visão além de si mesmo, tanto o sofrimento ou o pesar como a fragilidade e a ingenuidade da sua própria condição em relação à mesma situação imediatamente reconhecida nos outros. A sobriedade, o pensar anímico, não como o pedantismo da erudição ou da disciplina imposta, nem somente a austeridade da abstinência, mas, como a castidade de uma escolha vivenciada. Seja em qualquer um de todos os seus níveis possíveis nunca se manifestaria como apenas moralidade ou penitência, mas na abnegação de um desapego, a negação profunda da alienação. Como uma atenção e uma prontidão desta alma diante das necessidades e da responsabilidade consigo mesma, os outros e a sua realidade. Enfim, os três elementos alinhados configuram conclusivamente este arquétipo conceitual, ou conceito arquetípico. Uma peça dinâmica e complexa que, movimentando-se simultaneamente, é a entidade que pode organizar um álibi dessa presença anímica pensando, sentindo e agindo. A expressão de um fenômeno que suporta em si mesmo, juntando na força de um questionamento e no poder de uma definição, toda a possibilidade da perspectiva e da concepção de uma alma.

 

A linguagem primária e irredutível desses padrões arquetípicos é o discurso metafórico dos mitos. Eles podem assim ser compreendidos como os padrões fundamentais da existência humana. Para estudar a natureza humana no seu nível mais básico, é necessário voltar-se para a cultura (mitologia, religião, arte, arquitetura, o épico, o drama, o ritual) onde esses padrões são retratados. (Hillman, 1983, p. 23)

 

Ao sugerir esta trindade, uma metáfora máxima de uma conceitualidade mitológica, como matéria-prima durante a organização desta educação poético-estética, buscando esta base arquetípica na potência do processo artístico através da poetização e da abstração. Estabelecendo um reequilíbrio quando a vocação de cada um tem a chance de reaparecer naturalmente, realinhando-se ao seu contexto harmoniosamente, ao se encontrar com novas circunstâncias intencionalmente preparadas e favoráveis. Quando um contexto permite a reaproximação e a circulação destas inúmeras vocações em todos os seus espaços, passa a oferecer diversificações e diversidades em movimentações de fácil acesso. Onde aquela comparação e aquela reatividade não encontram a sua reverberação violenta e perdem a força, uma transformação pode realmente iniciar. Com a atenção a esse consentimento, a vocação se expressa sem pressão, coação ou outra imposição competitiva qualquer que, apenas baseada na corrida pela fama, sucesso e exclusividade, sufoca-a desvirtuando este seu destino. Será isso, simplesmente, a melhor ajuda que se poder dar, principalmente às crianças e aos mais jovens, para que descubram e se apaixonem pelo aprofundamento nas incontáveis formas de expressão, habilidades e realização humanas. Revela-se, então, uma fonte que fomentará, ao longo do tempo, relacionamentos enriquecedores e um consistente desenvolvimento psicológico, social e cultural, em que responsabilidades são voluntariamente assumidas. Uma natureza tão especial que poderá se expandir, refletindo suas faces e luminosidades próprias. E ainda que não baste apenas se dedicar completamente ao próprio talento, pois, inúmeros são os exemplos em que a vocação é vivenciada plenamente, mas mesmo assim a desordem, o conflito e a violência não estão controlados, esta é um elemento inadiável, porque é somente ao se alinhar com aquela sobriedade e aquela compaixão que se cria a única estrutura dinâmica possível, aqui se acredita, para a equilibração desta experiência humana.

 

5.  Considerações Finais

 

O imaginador, o apaixonado pela alma rústica, artística, é despertado e parte para retificar a sacralidade da sua vida, ao retomar constantemente a reflexão filosófica ingênua sobre os temas primitivos. Afirma neste ato que cada uma dessas potências atávicas, que podem ser conquistadas intuitivamente simplesmente na evocação desses temas, desencadeia neste ser imaginador os elementos arquetípicos fundamentais para o processo de criação de imagens que, simultaneamente, mantêm-no apto ao instante silencioso da presença mítica do espírito do mundo. (Catani, 2011, p.203)

 

Toda obra imagética prevê um impasse perigoso. Porque a identificação que provoca na personalidade favorece o condicionamento positivista, por outro lado, é o único grande momento para compreender os movimentos dessa alma, que é exatamente o que liberta pela negação deste mesmo comprometimento. É o próprio intento em direção à retomada desta condição anímica vital o maior e mais importante passo para a inauguração também desta libertação da violência. É esta trindade, tomando a abstração e a poesia, as disposições e os temas, que acessa, antes de respostas, as grandes questões que impulsionam uma libertação. Porque esta liberdade só é liberdade se está no começo não no fim. Quando se deixa de tentar impor o que é o verdadeiro, de especular qual é a melhor solução e de empilhar mais uma ideia acerca de como a realidade deveria ser, a decisão de estabelecer esta base originária capaz de discernir essa realidade e negar o que é falso começa enfim a observar toda a extensão da violência e, neste exato momento, já está em vigor a verdade. Pois a verdade é complexa, polissêmica e reversa, ou seja, a verdade é tudo aquilo que ela não é. Não pode ser afirmada senão no desprendimento de tudo o que é falso, no abandono de tudo o que pretende ser para o encontro com o que é. A importância do cultivo desta vitalidade é tal que, mesmo se a perspectiva dessa alma não é exclusivamente o que a provoca, mesmo se esta não garanta automaticamente a resolução deste ou todos os problemas humanos, certamente a sua ausência torna qualquer tentativa neste sentido simplesmente impossível.

 

Então, o que é o amor? Sabe, para descobrir o que é, é preciso negar, deixar de lado completamente o que não é. Através da negação, chega-se ao positivo; não busque o positivo, mas chegue a ele compreendendo o que ele não é. Ou seja, se eu quiser descobrir o que é a verdade, sem saber o que ela é, preciso ser capaz de ver o que é falso. Se eu não tiver a capacidade de perceber o que é falso, não posso ver o que é a verdade. Portanto, preciso descobrir o que é falso. (Krishnamurti, 1973, p. 6)


Na expansão destes movimentos anímicos primordiais a violência é redimensionada e passa a ocupar o seu lugar, que de fato existe, enquanto a força vital que carrega também uma significação a ser descoberta. Assim como o falso não é o oposto do verdadeiro, mas a sua degeneração, essa violência em metástase é a degradação, a perda da sobriedade em acolher e o despreparo da compaixão em entender, sendo que o próprio reconhecimento desta realidade já é a retomada da sua regeneração. Cultivando esta alma rústica que é em si mesma a sua própria liberdade, para a superação deste pensamento escravizado ou autossabotado, não apenas como uma entidade mística ou sobrenatural, mas sim como este signo potente, este arquétipo universal e polissêmico em movimento que carrega a especificidade do ser, inspirando a manifestação do fenômeno de uma integralidade profunda e a própria fundação da sua humanidade, da sua espiritualidade. Firmada no compromisso entre as vocações de cada um em uma relação cosmogônica com sua época e o espírito de seu mundo, que assim passa a amparar o instinto reativo pela intuição que instaura, compartilhada, sóbria e compassiva, enfim, a gênese de uma consciência já liberta, integradora e universalizada.

 

 

 

 

 

 

Referências:

 

Bachelard, G. (1963). La Dialectique de la Durée. Paris: Les Presses Universitaires de France

Bachelard, G. (1978). A Filosofia do Não. São Paulo: Abril Cultural

Bachelard, G. (2001). A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins fontes

Bachelard, G. (2007). A Intuição do Instante. Campinas: Verus

Catani, F. H. (2004). Arte Banida Arte Bandida: TCC. FE-Unicamp

Catani, F. H. (2011). Uma Visão da Alma Artística. Mestrado. FE-Unicamp

Catani, F. H. (2026). A Alma Rústica. Campinas: Edição do autor. Manuscrito em preparação.

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