Uma Pedagogia da Alma:
A Educação Estética e a Raiz da Violência
Por Fernando Henrique Catani, M.Ed.
1. Introdução
É uma particularidade da alma ser não apenas mãe e origem de toda ação
humana, como também expressar-se em todas as formas e atividades do espírito;
não podemos encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas
somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação.
(Jung, 1985, p. 74)
A Pedagogia, além de desenvolver processos
educativos formais, não formais e informais, é uma ciência que assume a
investigação dos problemas humanos, articulando uma intersecção de variados
saberes, sejam leigos ou científicos, imbricando as teorias e as práticas de
diversas outras áreas e ciências, para propor e aplicar soluções aos grandes
desafios das sociedades. A violência é um desses temas dramáticos sobre o qual
a Pedagogia se debruça, não apenas para a definir ou a denunciar, mas,
principalmente, para desenvolver ações que possam transformar situações e
contextos onde esta se manifesta explícita ou subjacentemente. Este pequeno ensaio se dedica a um olhar específico sobre o fenômeno da
violência, expondo um conflito comparativo e uma objetificação do talento. Embasado
por um trabalho reflexivo mais extenso ainda em desenvolvimento (Catani, 2026),
através da proposição de uma educação poético-estética, pretende redimensionar
e defender a importância do signo anímico na formação humana integral. É um recorte para uma fundamentação conceitual de um curso de formação
de atores dos diversos âmbitos da educação, que propõe que cada indivíduo é
capaz e deve descobrir e desenvolver por si próprio uma concepção dessa alma,
que é propositadamente apenas sugerida nesta proposta, porque se admite que é
exatamente esta intenção de retificação do signo o que provoca uma
transformação mais profunda.
Propondo assim uma pedagogia da alma, artística,
que não deixa de ser inspirada em alguns autores que, de maneira bem
interessante, têm em comum o fato de talvez serem um pouco negligenciados em
sua abrangência. Ao mesmo tempo, além de apresentarem uma significativa ruptura
de paradigmas em suas obras, todos estes autores também convergem para
enriquecer em especial o tema da alma enquanto um conceito determinante para
este trabalho, mesmo que não exatamente pela mesma aproximação. Então,
começando pelos estudos dos arquétipos de Carl Jung (1985), um marco histórico
em que o universo anímico é extensamente descrito, definido e reelaborado,
sendo uma referência indispensável quando se tenta refletir sobre esta alma,
pois, a partir de sua obra surge uma perspectiva totalmente nova em relação às
anteriores. Seguindo na fundação do alicerce desta reflexão a adoção de uma
semiose fenomenológica embasada em Umberto Eco (2016), na sua sugestão da obra
artística com significação aberta e que, redimensionando a discussão sobre uma
descontinuidade inerente aos signos, seria capaz de provocar uma integração
transcendente entre uma subjetividade ingênua e uma objetividade científica.
Definida esta base metodológica, a seguir se assume
mais alguns autores completando o escopo desta reflexão e que, embora nem os
dois primeiros e nem os seguintes sejam em si o objeto de um estudo direto, são
citados pela excelência de algumas das suas definições dos elementos aqui
propriamente abordados. A visão de educação estética da psicologia pedagógica
de Lev Vygotsky (1968, 2016), com a sua determinação de que o talento é
inerente à qualidade humana sem restrição e a sua valorização da importância de
manutenção da expressão de uma alma infantil. A filosofia do não e a poética do
devaneio de Gaston Bachelard (1978, 2001, 2007), na sua exigência por uma
fenomenologia da alma e a revolucionária concepção de uma dialética da
existência diante de uma intuição reversa no instante. A piedade política na
psicologia arquetípica de James Hillman (1983, 1986, 2016), na sugestão da
necessidade do cultivo da imaginação e sua valiosa e transgressora crítica que
amplia a noção de alma para a reconhecer manifestada em todos os lugares do
mundo. Finalmente, como um contraponto não acadêmico, a negação libertadora e a
meditação ativa do momento a momento de Jiddu Krishnamurti (1973, 1982, 1985)
que, embora não pareça ser entendido em todo o mérito da sua expressão de
vanguarda e não tenha uma sistematização propriamente científica, é talvez uma
reflexão ontológica tão profunda que represente uma das mais avançadas e
pertinentes de seu tempo.
A partir destes pilares teóricos, redimensionando
paradigmas e modelos ideológicos ineficientes e inapropriados, inicia-se então
uma reflexão sobre ações educativas possíveis, desenvolvidas através de um
diálogo com estas referências e a intenção desta proposta: organizar um
ambiente onde se busque entender qual é a raiz desta violência, retomar uma
noção abrangente da qualidade e da importância de uma concepção da alma e
sugerir alguns meios para transformar os fatos da realidade desta condição
violenta.
2. Uma Raiz
da Violência
A etimologia da palavra violência vem claramente do
substantivo latino vis que, além de traduzir violência em si mesma,
agrupa muitos outros significados como autoridade, poder, resolução, pressão, energia,
vigor, recursos, mas também capacidade, valor, virtude e até mesmo define a
essência que faz uma coisa ser o que é, ou ainda, um princípio e força primária
de um organismo. As constantes definições atuais de violência, no entanto, parecem
focar mais no ato violento já concretizado do que nesta qualidade de força
vital. A aproximação acadêmica ao fenômeno, embora assuma uma impossibilidade
de se cunhar uma definição absoluta do termo, prefere deixar que definições
multifacetadas se manifestem a partir de suas inúmeras especificidades, do que
manter uma definição geral que poderia ser reducionista. Para este trabalho, na
tentativa de oferecer mais uma dessas visões complementares, o que importa é a
possibilidade de uma qualidade remanescente, como uma raiz da violência herdada
de uma necessidade instintiva atávica, talvez de sobrevivência ou como uma
reação a qualquer ameaça. Porém, a preocupação é que esta, não reconhecida e
compreendida, impregnou de alguma maneira algumas formas do pensar que, por sua
vez, é capaz de contaminar o sentir e o agir. Esta pode ser uma realidade que
vai além da própria criminalidade violenta e que se manifesta intrínseca desde
uma violência geopolítica, instrumentalizada pela ação predatória das
corporações financeiras, que promove a exploração econômica e até guerras pelo
mundo; tanto uma cultural, como a do racismo, ou a do domínio psicológico das
celebridades sobre seus seguidores e também a da publicidade com sua constante
humilhação subliminar; passando pela social, seja a de um vizinho arruaceiro
que não respeita nada nem ninguém, ou aquela muitas vezes velada que os
eruditos usam para controlar e submeter os leigos, assim como a de muitos
professores contra seus alunos; até, enfim, aquela violência doméstica que
usurpa um espaço pessoal de alguém ou a segurança física e psicológica de uma
criança.
A denúncia principal, embora não inédita, é de um
positivismo deste pensar comprometido, formado talvez por essa agressividade
competitiva ancestral, que quando oferece propostas para os problemas humanos,
como contra a violência, apenas exige uma ação punitiva e vingativa que
aprofunda o problema por nunca conseguir perceber esta sua estruturação
complexa. De certa maneira, em um conflito subconsciente entre ímpetos
violentos que é muitas vezes calcado na identidade ideológica, esta é
instrumentaliza como indesejável apenas quando está naquele que ameaça a
estabilidade do outro violento, de um contexto social ou uma estrutura institucionalizada
violenta. Reafirmando a violência até mesmo na racionalização que a pretende
controlar, exigindo atos não violentos dos indivíduos quando a própria
repressão ou o próprio ambiente onde esta se manifesta é extremamente violento.
Mas, se flagramos os apelos pela exclusividade dessa intervenção positivista,
que quase sempre está inquieta por um imediatismo que reaja também
violentamente, percebemos que a punição que espera como solução vem inutilmente
somente depois do ato violento. Sendo este, geralmente, o resultado de um
impulso reativo que não considera a racionalidade da proibição no seu momento
passional. O que contradiz a ideia de que a repressão violenta da violência
seja a solução total, porque observando a história da aplicação da punição
severa e da extensão absurda de que foi e ainda é implementada, se esta
realmente produzisse resultados, hoje a violência deveria ter sido extinta, mas,
o que se constata é que na realidade tem aumentado.
Se realmente se pretende agir contra a violência, é
fundamental que a prevenção de sua manifestação seja ainda mais antecipada, na
pessoa ou na sociedade, desarticulando a instalação dos gatilhos de seu
desencadeamento no cotidiano, que de tão incorporados na cultura, apenas
provocarão mais violência. Pois é uma violência instintiva, intrínseca e
subjacente a esse pensamento positivo, à necessidade da conquista, da superação
que a ideia do sucesso e a ânsia do vir a ser a qualquer custo impõe.
Alimentando um perene conflito, fomentando uma comparação detratora, a
reatividade impulsiva e, principalmente, o desvio, a coisificação, a reificação
ou um fetichismo dos talentos. Julgando e condenando, como defeito moral apenas
a identificação de seu oposto, ou até mesmo desqualificando um talento ingênuo
que não se adapta ao ímpeto da competição em todos os ambientes, também moralizando-o
como incompetência ou uma deficiência. Sendo este o epicentro de onde esta
violência reverbera, autointoxicando a pessoa e estando subliminarmente
infiltrada na sociedade, ou aflorando na fragmentação entre grupos de
identidades irreconciliáveis. Sempre instrumentalizada como um ativo de
arregimentação das vontades, dos desejos imediatistas e da dominação de uma
mentalidade pragmática que desilude e abandona a vocação para viabilizar a
exploração. Manifestando-se sempre em todos estes níveis da malha social e
expressões culturais, dificultando seu desvelamento e reafirmando estas suas
verdadeiras raízes. Deste modo, assumindo que a educação é um momento de
excelência para o desafio da sua prevenção, é uma urgência resgatar e
estabelecer novos lugares, imunes tanto psicológica como socialmente, pela
refundação da alma que criará um espaço onde essa violência nunca consiga
existir na forma como tem há séculos se disseminado.
3. A Educação
Poético-Estética
O que queremos empreender aqui, com efeito, é apenas uma tarefa de
libertação pela intuição. Como a intuição do contínuo nos oprime com
frequência, é indubitavelmente útil interpretar as coisas com a intuição
inversa.” (Bachelard, 2007, p. 59)
As primeiras oportunidades de cultivar um talento
na vida são muito sutis e delicadas, são espontâneas e se emanam pacificamente do
seu entorno. Porém, são as que mais, maior e melhor impacto produzem na
qualidade e na completude da vida de uma pessoa e, assim, podem afetar de volta
o seu meio com esta mesma qualidade. Historicamente, uma sociedade só
desenvolve mais amplamente um equilíbrio e equanimidade coletiva, transforma
eventuais injustiças ou consegue mudar o rumo das coisas também pacificamente,
quando as pessoas têm mais possibilidades de encontrar e não perder essas
oportunidades iniciais, bem específicas de uma vocação, incorporando-as, desta
maneira, em um ritmo sóbrio e compassivo. Entretanto, em alguns sistemas e algumas
organizações sociais que ainda se vivencia hoje, tanto como no passado, são tão
disfuncionais que acabam banindo a preocupação com a diversidade dos talentos, chegando
a ser tão brutais e cruéis na imposição de um enquadramento, que podem autodestruir
essa possibilidade. Assim, no desejo de reencontrar algum contexto e oportunidades,
se estas não são oferecidas estrategicamente, muitas dessas pessoas continuam a
ser induzidas, quase obrigadas, a pensar, sentir e agir refletindo a mesma
brutalidade deste seu meio hostil, antes de tudo contra si mesmas e depois em
uma tentativa aflita por reconquistar as situações favoráveis àquelas
oportunidades iniciais perdidas. Quando se deixa de
recriar este ambiente favorável se instaura uma condição que alimenta cada vez
mais profundamente aquele desequilíbrio psicossociológico, provocando um
círculo vicioso de desumanização que se fecha mais em si mesmo, gerando um
coágulo social denso também cada vez mais caótico, conflituoso e, como
consequência, violento.
Nas composições das crianças Tolstói encontrou muito mais verdade
poética do que nos maiores modelos da literatura. E se nas composições
apareciam algumas passagens torpes, isso acontecia sempre por culpa do próprio
Tolstói; onde as crianças estavam entregues a si mesmas elas não pronunciavam
nenhum som falso. Daí Tolstói concluía que o ideal da educação estética como da
educação moral não está no futuro, mas no passado, não está na aproximação da
alma infantil à alma do adulto, mas na conservação das qualidades primitivas
naturais dessa alma. (Vygotsky, 2001, p. 348)
Por este motivo se propõe o cultivo da imaginação
como uma grande oportunidade. É por isso que também é possível através dessa
compreensão do processo artístico, justamente pela potência destas
significações anímicas que proporciona, estabelecer um campo seguro e
controlado onde seria possível expor algumas das origens dessas situações e
desses contextos brutalizados se movimentando em tempo real. Desta maneira, surgem
mais caminhos para o pensamento, o sentimento e a ação se desvencilharem desses
elementos que possam reproduzir violência, retomando a sua fundação para a
transcender, seja desde suas formas simbólicas até a sua manifestação física. A
proposição é que pelo exercício constante dessa manutenção e desse
desenvolvimento das qualidades primordiais da alma, anteriores a qualquer
sistematização de sua própria qualidade, catarticamente inspiradas por uma poetização
e uma abstração imaginativas, é que se pode decifrar e repudiar essa violência nas
suas piores formas. Não por um mero esforço pela sua extinção, não pela ideia apenas
da sua repressão, não pelo conflito constante contra o seu impulso, o que é
ainda um movimento próprio desta violência. Porém, com a atenção de não a provocar
ainda mais, agravando o problema, como acontece com as ideologias, as religiões
e até mesmo a racionalização científica, mas, pela evocação desta perspectiva
ampliada da alma espalhada pelo cotidiano.
Aqui reside a chave para a tarefa mais importante da educação estética:
introduzir a educação estética na própria vida. A arte transfigura a realidade
não só nas construções da fantasia, mas também na elaboração real dos objetos e
situações. A casa e o vestiário, a conversa e a leitura, e a maneira de andar,
tudo isso pode servir igualmente como o mais nobre material para a elaboração
estética. De coisa rara e fútil a beleza deve transformar-se em uma exigência
do cotidiano. O esforço artístico deve impregnar cada movimento, cada palavra,
cada sorriso da criança. É de Potiebniá a bela afirmação de que, assim como a
eletricidade não existe só onde existe a tempestade, a poesia também não existe
só onde há grandes criações da arte, mas em toda parte onde soa a palavra do
homem. E é essa poesia de ‘cada instante’ que constitui quase que a tarefa mais
importante da educação estética. (Vygotsky, 2001, p. 352)
Assim, a partir de algumas atividades artísticas
práticas e de uma exposição crítica, incluindo alguns questionamentos e ajustes
pontuais aos autores citados, pretende-se acusar as limitações desse pensamento
afirmativo e de sua diferenciação em relação à amplitude de uma imaginação que
aqui se propõe seja negativa. A intenção é esboçar de maneira formativa a
importância da compreensão e da negação daquela condição da violência que também
pode afetar todas as iniciativas educativas e educacionais e que, embora
aparentemente passiva e até mesmo julgada como louvável, está significativamente
relacionada aos problemas desse pensar positivo. Na tentativa de desfazer
aquela ansiedade pelo possível, que ignora a necessidade da atenção e da
compreensão de seu comprometimento com preconceitos e condicionamentos
psicológicos e culturais, estes baseados naquele conflito comparativo entre
reação e ação, entre o que se pensa deveria ser e o que realmente é, entre a
ilusão da ideia e a verdade do fato. Nesta proposta se espera, então, através
do reconhecimento da origem dessa violência específica, apresentar algumas provocações
pedagógicas para enriquecer a consciência do processo artístico, com o intuito
de estabelecer uma base para um novo paradigma, a partir e para além de uma
educação estética que já aspirava a uma formação humana integral, mas que
talvez seja insuficiente para as exigências desta contemporaneidade, incorporando
novos elementos e propondo uma ampliação para uma nova conceitualização que
aqui se nomeia de educação poético-estética (Catani, 2026).
3.1. A Abstração
e a Poetização
Aquilo que é abstrato e aquilo que é poesia podem
ser definidos como o cerne desta experiência anímica. Um fenômeno que tem subjacente
uma relação dialética passional, um é substância e sem este a poesia se torna
vazia, a outra é essência e sem esta o abstrato perde o sentido. Revertendo a
ideia comum de que a poetização e a abstração sejam esse algo fútil, inútil,
decorativo ou apenas para entretenimento prazeroso e diletante. Até mesmo sem
um pragmatismo suficiente para influenciar uma realidade trágica que exige
ações concretas. É importante provocar a percepção do quanto estes são
fundamentais e o quão profundamente se relacionam com a capacidade humana para
essa compreensão do verdadeiro e da sua comunicação honesta, sendo que sem
estes valores a experiência humana se torna incompleta. É através de uma
conjunção entre o pensar, o sentir e o agir que a vivência destes elementos tem
o potencial de provocar uma combinação capaz de proporcionar, de desencadear a
perspectiva anímica por excelência e que por si mesma tem o poder de iniciar
essa completude, pois, sem este alinhamento esta nunca pode ser alcançada e se
manifestar. Não na redução de uma especulação sensitiva ou na ilusão de algo
extrassensorial, porém, por toda a significação que esta alma carrega para a organização
da própria natureza do ser.
É através destes mesmos elementos, no seu melhor
exemplo, que se criou a música e que também foi a base para o desenvolvimento
desde as linguagens até muito das tecnologias. A maioria das línguas têm sua
origem também em oralidades e textos poetizados, assim como a escrita e até
mesmo cálculos são elaborados a partir de abstrações imagéticas. Da mesma
maneira, por uma maiêutica alegórica reversa, ou seja, da superfície ao fundo,
é através destes mesmos movimentos que se pode olhar, que se pode entender
algumas dessas raízes da violência, originadas no desalinhamento deste pensar
em relação ao sentir e o agir. Para fazer essa viagem de volta no tempo e
retificar esses problemas que a racionalidade sozinha nunca conseguiu resolver,
exatamente porque foi esta mesma que os inventou, nada pode ser mais original
do que se dedicar à poetização e à abstração. Desta maneira, o encaminhamento
central desta proposta é que se pode tomar o poema literário e a obra de arte
abstrata, enquanto uma concretização destas qualidades, como a inauguração do
processo artístico e que qualquer iniciativa de educação estética deveria
assumir estes como o seu fundamento. Porque esta combinação é em si mesma a
gênese de toda a movimentação do imaginário, é a sua verdadeira fonte e muito
provavelmente, anterior a estas manifestações, ainda não seria possível uma definição
de humanidade.
3.2. Disposições
e Temas da Alma
Daí a função de uma arte aberta como metáfora epistemológica: em um
mundo em que a descontinuidade dos fenômenos colocou em crise a possibilidade
de uma imagem unitária e definitiva, isso sugere uma forma de ver o vivido e,
ao vê-lo, aceitando-o, integrá-lo em nossa sensibilidade. Uma obra aberta
enfrenta plenamente a tarefa de oferecer uma imagem de descontinuidade: pois
não a descreve, é a própria descontinuidade. É um mediador entre a categoria
abstrata da metodologia científica e a matéria viva de nossa sensibilidade;
quase como uma espécie de esquema transcendental que nos permite compreender
novos aspectos do mundo. (Eco, 1968, p. 158)
Para cultivar esta especificidade imaginativa como essa
transcendência potencial, é preciso descobrir as suas disposições que,
anteriores a novas idealizações, são a negação desse positivismo radical.
Porque senão este acaba bloqueando as possibilidades da compreensão dessa raiz
da violência, pelo próprio paroxismo da continuidade especulativa de propostas
que fomenta irrefletidamente. Para tanto, é imperativo começar por entender a
função de uma reflexão poético-estética inerente à imaginação. Esta sempre
surge na elaboração da significação de uma obra artística como este signo
semiótico ao qual se dedica o processo artístico, em seu poder de revelar os
movimentos dessa alma transcendente que, por este princípio, está disponível a
qualquer ser humano. Uma inerência que está exatamente na essência e na
substância dessa qualidade anímica, através da tentativa de criação do que pode
ser descrito como as disposições poéticas do significado e as disposições
estéticas do significante nessa obra artística.
O conceito das disposições poético-estéticas foi
elaborado em uma dissertação anterior (Catani, 2011), que registrou e refletiu sobre
atividades de formação de professores, partindo de uma decodificação semiótica
de algumas obras icônicas relacionadas às definições mais banalizadas dos
períodos da história da arte. Foi tomado desta maneira porque, enquanto
significações e ainda pelo mesmo princípio, estariam presentes tanto nesta
simplória quanto nas mais elaboradas. Sendo que esta escolha poderia então
abranger mais possibilidades de compreensão, o que realmente se confirmou na
sua apropriação pelos participantes, que reconheciam os períodos baseados
nestas disposições e não na obrigação de decorar as imagens e suas datas. Deste
modo, formam uma visão conjectural que de alguma maneira estariam incorporadas
aos processos de ação, invenção ou criação de que é capaz o ser humano e também
expressas, sem nenhuma restrição, em todos os movimentos da imaginação. Estas
teriam sido sedimentadas através dos milhares de anos da experiência
psicológica e cultural humana, ou seja, não são inatas, mas, por outro lado,
também não representam exclusivamente um cenário de evolução do primitivo ao
contemporâneo, pois, talvez sempre estiveram orbitando essa experiência como
sentido, esperando apenas a sua descrição. Destiladas como uma alegoria a
partir desse senso comum dos períodos, foram arranjadas em duplas, sendo que
cada uma destas contém um elemento de característica poética subjetiva e um
outro correspondente de característica estética objetiva e que, por sua vez,
cada dupla gera um dos temas primitivos de uma alma artística: Primitivo -
Ritmo / Ritual = O Tempo; Antigo - Reflexão / Mitologia = O Divino; Medieval -
Devoção / Religiosidade = O Sacrifício; Renascimento - Identidade / Humanidade
= A Verdade; Moderno - Dinamização / Sociedade = O Ser; Contemporâneo -
Equanimidade / Panculturalidade = A União (Catani, 2011).
Cada uma destas palavras escolhidas, em sua própria
etimologia, é apresentada como o mínimo contido em uma obra qualquer, como se
fosse uma senha ou mesmo uma equação, para a aproximação à significação de qualquer
criação imaginativa humana. Se tornam, então, um elemento de um conceito
arquetípico complexo, responsável por evocar as qualidades que podem
representar algumas qualidades anímicas fundamentais. Como disposições
intrínsecas a um signo anímico, tentam abranger o espectro de seus conflitos e
de suas aptidões, da pessoa e dos seus ambientes. Criam um cenário imagético em
que figuram como uma espécie de elementos inerentes ao processo criativo, sugeridos
então como motes, noções bem estáveis que podem ser relacionadas
conceitualmente a qualquer obra de arte ou peça literária, como os temas mais primitivos
de uma alma artística. Retomando e redimensionando uma semiose em seus
conceitos fundantes (Eco, 2016), apenas reconsiderando a importância de todo
espectro da intelectualidade, inclusive e imprescindivelmente aquela ingênua
que conquista sua voz com as novas conexões midiáticas, recusando a concepção de
que apenas na erudição está sua melhor manifestação e afirmando, porém, que são
intrinsecamente complementares. Desta maneira, o significado, como a gestão do
impulso, a semente do processo criativo, uma intenção ou uma necessidade que
pressiona o imaginador, é a pulsão anímica; o significante, como a gestão da
manifestação, da execução necessária, onde a materialidade se estabiliza, é o
momento em que a força invisível da criação assume os limites da matéria, para
finalmente florescer no seu mundo. Enfim, na síntese dessa dialética vertical,
aberta e descontínua (Bachelard, 1963), surgem os temas primitivos como a
declaração extrema da sua significação. Reaprendendo daí somente que a intuição
não necessariamente deva ser superada para que exista uma sistematização
metodológica, mas que se incorpora a esta simultaneamente, em uma simbiose
filosófica necessária. Carregando aquilo que pode ser apresentado como a
descrição de um arquétipo conceitual que toda e qualquer expressão vai se
inspirar por princípio, como o reflexo dessa manifestação de uma alma humana
comum.
3.3. O Poema
A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema, ela deve dar uma
visão do universo e o segredo de uma alma, um ser e objetos, tudo ao mesmo
tempo. Se segue simplesmente o tempo da vida, ela é menos que esta; só pode ser
mais que a vida imobilizando-a, vivendo no próprio lugar a dialética das
alegrias e das dores. Ela é, então, o princípio de uma simultaneidade essencial
em que o ser mais disperso, mais desunido, conquista sua unidade. (Bachelard,
2007, p. 99)
O poema é para todos, desde um ditado popular até
uma Odisseia, passando pelas orações, as letras das canções e até mesmo um
texto publicitário, tudo isso mantém e contém a linguagem do poema. Esta
abrangência e amplitude o torna um elemento insubstituível para evocar aquelas
qualidades da alma. O importante na frase poética, que seria interessante não
necessitar ser explicada porque poemas não se explicam desde que são em si
mesmos a explicação de algo, não é qualificar ou definir o que sejam os
sentidos, ou qualquer outro termo em separado de uma maneira racionalista, mas,
sob um afetamento poético e subjetivo criado pela sua leitura intuitiva,
provocar o entendimento de uma maneira direta. Por isso se propõe usar a forma
do poema, pois somente sua expressão pode ser entendida diretamente, na
descoberta de que a imaginação é negativa. Ou seja, na sua subjetividade o que
diz a sua verdade é o que não é evidente, não é aparente, não é afirmativamente
objetivo, mas, é negação e transgressão de ideias e ações condicionadas. É um “não
fazer”, porque é somente neste estado de reversibilidade que se fomenta a
intenção artística. Sem o impulso poético nunca haverá a realização estética e,
por mais que se promova técnicas e explicações antes do encontro com esta sua
significação verídica, mesmo que insuficiente e ingênua, o texto criativo, ou
sua leitura, não nascerá jamais.
Um exemplo de atividade prática, realizada em
cursos de qualificação de professores (Catani, 2011), é uma oficina de criação
de poemas a partir de palavras recortadas de jornais, revistas, cartazes ou
folhetos, provocando um rearranjo destas na montagem de um poema inédito. A
proposta é disponibilizar esse material aos participantes para que, pela
necessidade de encontrar e ressignificar as palavras, acabem sendo afetados
pela própria mensagem do texto onde estão inseridas, gerando um contexto para a
elaboração do seu poema criado com estes retalhos e influenciado pela realidade
contada nas páginas impressas. É uma maneira de demonstrar como o poeta
encontra insuspeitadamente os seus motes espalhados pelo ambiente onde vive.
Assim, o participante pode sentir a dificuldade que tem o poeta em reescrever
aquilo que vê e ao mesmo tempo provocar a capacidade de expor as próprias
significações de sua realidade. Aqui uma questão é fundamental na organização
da escrita poética, principalmente para iniciantes: o melhor caminho não é pela
apresentação de técnicas, mas sim, pela provocação dos movimentos do impulso
poético que motiva o escritor. Uma aproximação pelos elementos poéticos e estéticos
das realizações literárias, pelo seu fenômeno e no cultivo dessa provocação da
imaginação, vai gerar muito mais qualificação na elaboração dos textos. Assim é
necessário dar espaço para que o iniciante exista em suas dúvidas e despreparo,
pois, o que é importante é essencialmente este diálogo fenomenológico, uma
dialética espiritualidade/materialidade, poética/estética, como principal
elemento dessa proposta artística. Como o desencadeamento de uma tensão
filosófica entre um possível mote latente e a realidade imediata e
insustentável que inspire o aparecimento desse impulso e não apenas um conjunto
de regras, normas, medidas e gráficos em que seja possível se enquadrar
forçando uma identificação. A técnica da escrita poética, de um modo ou de
outro, surge ou se adaptará no momento certo se esta for uma necessidade do
escritor em potencial.
3.4. A
Pintura Abstrata
A abstração do belo escapa a todas as polêmicas dos filósofos. De um
modo geral, tais polêmicas são curiosamente vãs em todos os casos em que a
atividade espiritual é criadora, tanto no que concerne à atividade da abstração
racional na matemática como à atividade estética que abstrai rapidamente as
linhas da beleza essencial. Se déssemos mais importância à imaginação, veríamos
muitos falsos problemas psicológicos esclarecidos. (Bachelard, 2001, p. 65)
Uma imagem abstrata, seja bidimensional ou
tridimensional, também tem o poder de manifestar uma sensibilidade atávica
desse potencial da imaginação negativa por excelência. É a linguagem da alma,
onde a imagem reversa é irracional e nessa sua negação da razão é alegórica,
pois se revela pelo que não se enxerga imediatamente, pelo que não é explícito,
não é descritivo, porém, inerentemente onírico e pleno de lirismo. E mesmo
quando a abstração é geométrica, esta carrega muito mais de significações
metafóricas do que planos de uma descrição objetiva. As cores são belas em si
mesmas, suas combinações encantam a qualquer pessoa sem nenhuma restrição. As
formas afetam quem quer que se aproxime destas. A intencionalidade da
combinação de formas em composição e das cores em arranjo traduzem o próprio
movimento de uma alma. Se o processo artístico é subjetivo, então pode ser algo
inconsciente e irracional, mas ao mesmo tempo ecumênico. Em sua essência, pode
ser coletivo e ainda assim, anônimo. Essa qualidade surpreende ao ser
encontrada em algumas criações, pode-se dizer, espontâneas que falam sobre esta
existência comum. Uma parede com uma textura sublime, um outdoor raspado que se
transforma em uma abstração maravilhosa, composta de texturas, formas e cores
incríveis. Pedras, peças antigas ou galhos dispostos em um charmoso arranjo
poético que revelam uma imensa história e a poesia dos atos e sonhos humanos em
uma única visão emocionante. Descobrir essas obras incomuns é um impulso
poético, como uma arqueologia sublime, que cativa o artista abstrato na busca
por decifrar e recriar, intencionalmente, a manifestação de sua estética
misteriosa.
Um exemplo prático de ação, aplicado em
laboratórios com adolescentes internados sob medidas socioeducativas (Catani,
2004), para o encontro com este fenômeno é uma atividade propondo provocar o
aparecimento das formas e o desdobramento das cores a partir das três cores
primárias. O mais recorrente exercício é apresentar antes o círculo das cores
para uma demonstração intelectual das cores primárias e da formação das
secundárias de maneira objetiva, onde sua reprodução posterior é resultado de
um conhecimento dado e pragmático, sem o fomento da reflexão intuitiva tão
importante ao artista. Apresentar o surgimento das cores desta maneira é como
querer construir um telhado antes das paredes de uma casa. Em contraste a esta
tradição, a maneira como se propõe que as misturas possíveis das cores sejam
encontradas pela primeira vez e de como as formas se abstraem intuitivamente é
que estas devam ser descobertas subjetivamente; antes de mais nada, devem ser
vistas realmente surgindo durante o fazer artístico. Assim, a proposta é que se
parta de uma folha de papel em branco e que as cores primárias sejam
disponibilizadas por tintas e pincéis. O participante é avisado a “fazer algo
que não existe”, como um incentivo para que se evite a reprodução viciada de
temas recorrentes. Começando a aplicá-las sobre o papel devagar e com muita
atenção para que cada cor tenha sua própria manifestação criando formas
inusitadas e que, ao encontrar as outras cores diretamente sobre o papel, sejam
misturadas ao acaso gerando as combinações com sua revelação acontecendo em
tempo real. Neste movimento, o participante entra em contato com a sugestão de “manter
o que já está bonito”, fazendo com que um nível de atenção e concentração seja
despertado exclusivamente pela observação durante a execução do exercício. A
surpresa da beleza da combinação das cores e a delicadeza da aparição das
formas é uma oportunidade para um momento de sensibilidade inédita. Para uma
educação estética que visa formar a intuição das cores e das formas, além de
também exercitar a atenção da sua realização, há aqui uma diferença fundamental
entre um modelo cartesiano fixo e imposto e a emoção de uma expressão fluida
sendo descoberta diretamente por quem realiza o trabalho.
4. Sobriedade,
Compaixão e Vocação
A base poética da alma tira a psicologia dos limites do laboratório e do
consultório, e até da subjetividade pessoal do indivíduo, e a transforma numa
psicologia das coisas como encarnações de imagens com vida interior. (Hillman,
1983, p. 49)
Esta base da imaginação, que foi redimensionada nas
sessões anteriores para ser entendida como uma manifestação poético-estética
complexa, pode ser definida como uma qualidade anímica imprescindível à
integralidade e à incorruptibilidade do ser, capaz de desenvolver uma
personalidade necessária e comprometida com o melhor coletivo. No entanto, é importante
também redefinir uma concepção de personalidade ideal, que na melhor hipótese
do senso comum é sabida apenas como um lugar do bem estar, redimensionando esta
base poética afirmada como mais reflexiva e conhecedora da sua situação
dramática, onde a “ironia, humor e compaixão será a sua marca” (Hillman, 1983,
p.89), pois, acredita-se ser possível ir além. Desta maneira, a ironia ou o
humor são vistos aqui, na verdade, como derivados fragmentados, variações
facetadas ou mesmo desfigurações da compaixão. Esta última é que figura assim
no primeiro plano, pois é tomada como um fundamento anímico, como um elemento
atômico e não apenas uma manifestação de ânimo, sendo uma das fontes de onde
fluem estes outros aspectos que podem constituir uma personalidade. Outro
fundamento primário, que aqui se inclui ao lado da compaixão e que também torna
essa personalidade muito mais profunda é a sobriedade, sendo também capaz de se
desdobrar em inúmeros elementos que, a partir desta, estabilizar-se-iam. Desta
maneira, são a sobriedade e a compaixão que equilibram seja a ironia, o humor
ou mesmo a raiva, a agressividade, ou seja, qualquer outra manifestação
possível desses estados de ânimo, que sem estas poderiam facilmente degenerar
como poderosos instrumentos da violência, assumindo estas características reativas
agressoras ou mesmo autodestrutivas.
Entretanto, aqui se sugere seja incluída ainda mais
um aspecto fundante desta alma que pode enriquecer essa personalidade na sua
integridade e que poderia estabilizar a violência. Esta é a vocação, que
através da sua evocação anímica será também reconhecida nestes elementos
específicos mais aprofundados e engajados, manifestando-se como o eixo onde
todo o movimento anímico irá se apoiar, onde todo o impulso de uma realização
humana tem a sua força motriz. A partir daqui se apresenta uma elaboração de um
arranjo que talvez venha a ser mais significativo na definição desta prioridade
anímica, amplificando a sua manifestação espiritual. Deste modo, teríamos então
esta trindade a ser cultivada: a sobriedade, a compaixão e a atenção à vocação.
Esta última, figura como a descoberta e a vivência de uma paixão que se torna o
sentido da experiência do viver, a expressão máxima daquilo que se pode
perceber como o agir anímico. A compaixão, o sentir anímico, como mais do que o
simples sentimentalismo da bondade, negando a mera comiseração. Um elemento de
uma alma que está à disposição, é a capacidade da consciência em se dedicar e
se absorver, amparada por uma visão além de si mesmo, tanto pelo sofrimento ou
o pesar como pela fragilidade e a ingenuidade da sua própria condição em
relação à mesma situação imediatamente reconhecida nos outros. A sobriedade, o
pensar anímico, não como o pedantismo da erudição ou da disciplina imposta, nem
a simples austeridade da abstinência, mas como a castidade de uma escolha
vivenciada. Seja em qualquer um de todos os seus níveis possíveis nunca se
manifesta como apenas moralidade ou penitência, mas na abnegação de um
desapego, a negação profunda da alienação, como uma atenção e prontidão desta
alma diante das necessidades e da responsabilidade consigo mesma, os outros e a
sua realidade. Enfim, os três elementos alinhados configuram como a
configuração conclusiva deste arquétipo conceitual, ou um conceito arquetípico,
elaborado nesta proposta. Uma peça dinâmica e complexa que, movimentando-se simultaneamente,
é a entidade que pode organizar as disposições e ratificar os temas primitivos
como o álibi dessa presença anímica pensando, sentindo e agindo. A expressão de
um fenômeno que suporta em si mesmo, juntando na força de um questionamento e no
poder de uma definição, toda a possibilidade da perspectiva e da concepção de
uma alma.
A linguagem primária e irredutível desses padrões arquetípicos é o
discurso metafórico dos mitos. Eles podem assim ser compreendidos como os
padrões fundamentais da existência humana. Para estudar a natureza humana no
seu nível mais básico, é necessário voltar-se para a cultura (mitologia,
religião, arte, arquitetura, o épico, o drama, o ritual) onde esses padrões são
retratados. (Hillman, 1983, p. 23)
Ao sugerir esta trindade, uma metáfora máxima de
uma conceitualidade mitológica, como matéria-prima durante a organização desta
educação poético-estética, buscando esta base arquetípica na potência do
processo artístico através da poetização e da abstração, um tênue reequilíbrio recomeça
quando a vocação de cada um tem a chance de reaparecer naturalmente,
realinhando-se ao seu contexto harmoniosamente ao se encontrar com novas circunstâncias
intencionalmente preparadas e favoráveis nestes ambientes. Quando um contexto
permite a reaproximação e a circulação destas inúmeras vocações em todos os
seus espaços, passa a oferecer diversificações e diversidade de movimentações
culturais de fácil acesso, cotidianas. Onde aquela comparação e aquela
reatividade não encontram apenas a sua reverberação violenta e perdem a força,
uma transformação pode realmente iniciar. Com a atenção a essas possibilidades
e a esse consentimento o talento se expressa sem pressão, coação ou outra
imposição competitiva qualquer que, apenas baseada na corrida pela fama,
sucesso e exclusividade, o sufocava desvirtuando este seu destino. Será isso,
simplesmente, a melhor ajuda que se poder dar, principalmente às crianças e aos
mais jovens, para que descubram e se apaixonem pelo aprofundamento nas
incontáveis formas de expressão, habilidades e realização humanas. Revela-se,
então, uma fonte que fomentará, ao longo do tempo, relacionamentos
enriquecedores e um consistente desenvolvimento psicológico, social e cultural,
em que responsabilidades são voluntariamente assumidas. Uma natureza tão
especial que poderá se expandir como um cristal, refletindo suas infinitas
faces e luminosidades para todos os cantos deste seu mundo.
5. Considerações
Finais
O imaginador, o apaixonado pela alma rústica, artística, é despertado e
parte para retificar a sacralidade da sua vida, ao retomar constantemente a
reflexão filosófica ingênua sobre os temas primitivos. Afirma neste ato que
cada uma dessas potências atávicas, que podem ser conquistadas intuitivamente
simplesmente na evocação desses temas, desencadeiam neste ser imaginador os
elementos arquetípicos fundamentais para o processo de criação de imagens que,
simultaneamente, mantêm-no apto ao instante silencioso da presença mítica do
espírito do mundo. (Catani, 2011, p.203)
A expectativa é, então, de que o próprio intento em
direção à retomada desta condição anímica vital já seja, em si mesmo, o maior e
mais importante passo para a inauguração desta libertação da violência. Porque
a liberdade só é liberdade se está no começo não no fim e até mesmo alguém
encarcerado deve ser livre em algum aspecto para conseguir suportar esta
realidade. Quando se deixa de tentar impor o que é o verdadeiro, de especular
qual é a melhor solução e de empilhar mais uma ideia acerca de como a realidade
deveria ser, a decisão de estabelecer esta base originária capaz de discernir essa
realidade e negar o que é falso começa enfim a observar toda a extensão da
violência e, neste exato momento, já está em vigor a verdade. Antes de retornar
ao ponto onde esta especulação afirmativa ainda não havia inventado toda essa
fragmentação, nada vai se libertar dessa violência. Sem negar o que é
fragmentário, nenhuma integralidade poderá existir e qualquer movimento apenas
vai produzir mais violência, pois a verdade é complexa, polissêmica e reversa,
ou seja, a verdade é tudo aquilo que ela não é. Porque a verdade não pode ser
afirmada senão no desprendimento de tudo o que é falso, no abandono de tudo o
que pretende ser para o encontro com o que é. Porque é essa liberdade que
desfoca a aglutinação do pensamento positivista, abrindo espaço para a
imaginação dissipar este condicionamento, o que permite que novas concepções
aflorem. Ao se encontrar o inusitado, instigado pelas disposições e pelos temas
primitivos, surge um alento inédito neste instante intuitivo. É quando uma expressão
poético-estética, ao mesmo tempo mergulhada e envolvida nesta trindade anímica
apresentada, consegue afetar a superficialidade da personalidade pelo sentido
profundo de sua alma. Quando neste momento o imaginador se enxerga nessas
qualidades anímicas e se espanta pela extensão daquilo que apenas acabou de
realizar intuitivamente. Isto é, a importância do cultivo desta vitalidade é
tal que, mesmo se aquela perspectiva da alma não é exclusivamente o que a
provoca, mesmo se esta não garanta automaticamente a resolução deste ou todos
os problemas humanos, certamente a sua ausência torna qualquer tentativa neste
sentido simplesmente impossível. É uma condição de que qualquer projeto de solução
para qualquer problema humano, principalmente o da violência, deve
impreterivelmente começar desta base esboçada aqui.
Então, o que é o amor? Sabe, para descobrir o que é, é preciso negar,
deixar de lado completamente o que não é. Através da negação, chega-se ao
positivo; não busque o positivo, mas chegue a ele compreendendo o que ele não
é. Ou seja, se eu quiser descobrir o que é a verdade, sem saber o que ela é,
preciso ser capaz de ver o que é falso. Se eu não tiver a capacidade de
perceber o que é falso, não posso ver o que é a verdade. Portanto, preciso
descobrir o que é falso. (Krishnamurti, 1973, p. 6)
Assim, seguindo por esta aproximação se espera
provocar a expansão destes movimentos anímicos primordiais para que a violência
não seja apenas suprimida, mas redimensionada e passe a ocupar o seu lugar, que
de fato existe, enquanto a força vital que carrega também a sua significação.
Isto porque, assim como o falso não é o oposto do verdadeiro, mas a sua
degeneração, essa violência em metástase é a degradação de uma vocação, a perda
de sua sobriedade em acolher e o despreparo de sua compaixão em entender, sendo
que o próprio reconhecimento desta realidade já é a retomada de um processo
para a sua regeneração. Seja um fenômeno da vocação coletiva como a da cultura
de um povo ou individual como a desse talento único reconhecido na expressão da
vocação, sua tragédia começa quando não é reconhecida ou possibilitada, sendo
perdida, silenciada ou excluída de seu próprio meio e de si mesma. É assim
porque a revolução mais profunda quem faz são os relacionamentos cotidianos
dessas vocações apenas quando compartilhadas. E ainda que não baste apenas se
dedicar completamente ao próprio talento, pois, inúmeros são os exemplos em que
a vocação é vivenciada plenamente, mas mesmo assim a desordem, o conflito e a
violência não estão controlados, esta é um elemento inadiável, porque é somente
ao se alinhar com aquela sobriedade e aquela compaixão que se cria a única
estrutura dinâmica possível, aqui se acredita, para a equilibração desta
experiência humana. Por fim, é imperativo declarar que a própria compreensão
desta condição desequilibrada já é a negação do seu domínio e é o principal
movimento para o enriquecimento da própria vocação de toda a humanidade. Deste
modo, ao ser realinhada pelos sentidos da poesia e pelas dimensões da
abstração, na imprescindível ampliação da potência da imaginação, a violência
se dilui ao se adequar à sua necessidade. Cultivando esta alma rústica que é em
si mesma a sua própria liberdade, para a superação deste pensamento escravizado
ou autossabotado. Não apenas como uma entidade mística ou sobrenatural, vencendo inclusive
um preconceito acadêmico que recusa uma aproximação. Mas sim como este signo
potente, este arquétipo universal e polissêmico em movimento que carrega tudo o
que dá especificidade ao ser, inspirando a manifestação do fenômeno de uma
integralidade profunda e a própria fundação da humanidade, da sua
espiritualidade. Firmada no compromisso entre as vocações de cada um em uma
relação cosmogônica com sua época e o espírito de seu mundo, que assim passa a
amparar o instinto reativo pela intuição que instaura, compartilhada, sóbria e
compassiva, enfim, a gênese de uma consciência já liberta, integradora e
universalizada.
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