Mais é menos e menos é mais
O paroxismo acumulador da erudição não elimina o primitivismo ingênuo da imaginação; no entanto, atrapalha muito, confundindo sua movimentação. O seu patrimônio habita somente o reino da memória, onde a consciência foi escravizada. Para a libertação da originalidade, é preciso assumir a revolução heroica do imaginário e resgatar das masmorras do senhor da razão o impulso criador. A obra do erudito é interessante em si, mas qualquer mudança necessária vem de antes, está nas disposições que se realizam tanto pela ingenuidade quanto por aquela erudição. Inadvertidamente, como esta última é grande e poderosa, tende a parecer mais relevante do que aquela anterior; porém, ambas têm o mesmo acesso aos processos de criação, e é apenas isso que deveria interessar. E é demasiadamente importante essa compreensão se existe um anseio genuíno por qualquer transformação. Justamente porque a erudição é autofágica e, alimentando-se de si mesma e provocando uma metástase dessa confusão, obriga cada vez mais o erudito a ser recluso de uma realidade que o ingênuo, ao contrário, experiencia plenamente e, por isso, é muito mais apto a transformar. O ingênuo coletiviza o conhecimento que produz; por outro lado, o erudito se apropria deste, agregando-o ao seu próprio e, além de desvalorizar aquela ingenuidade, capitaliza a ambos como se fossem apenas seus. O erudito trata o ingênuo como se este fosse portador de alguma deficiência e, ao se dirigir a este, aquele muda até o tom de voz, inventando amenizações linguísticas, como se temesse ofendê-lo mostrando aquilo que, em uma suposição arrogante, não conseguiria entender de forma direta. Libertária, a ingenuidade é essencialmente uma servidora; entretanto, a erudição é reacionária e substancialmente uma dominadora. Esta condição também reverbera sobre a sociedade que, por sua vez, devolve ampliando aquilo que exige dos indivíduos. Seja o comerciante, o prestador de serviços ou o agricultor, estes produzem ingenuamente por uma necessidade coletiva, e não porque a erudição institucionalizada organiza a produção, senão, ao contrário, explora-a, colonizando sua produtividade. Nas suas sagas incongruentes, o erudito é um obcecado e o ingênuo é um contemplador. A erudição, exclusiva e excludente, tem fascinação pela tirania, pelo poder sobre aquilo que possui e raramente compartilha. A ingenuidade, anônima, plural e anárquica, doa tudo o que tem para fazer crescer os saberes de todos.