Uma Pedagogia da Alma: A Educação Estética e a Raiz da Violência
Fernando Henrique Catani, M. Ed.
Introdução
É uma particularidade da alma ser não apenas mãe e origem de toda ação
humana, como também expressar-se em todas as formas e atividades do espírito;
não podemos encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas
somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação.
(Jung, 1985, p. 74)
A Pedagogia, além de desenvolver processos
educativos formais, não formais e informais, é uma ciência que assume a
investigação dos problemas humanos, articulando uma intersecção de variados
saberes, sejam leigos ou científicos, imbricando as teorias e as práticas de
diversas outras áreas e ciências, para propor e aplicar soluções aos grandes
desafios das sociedades. A violência é um desses temas dramáticos sobre o qual
a Pedagogia se debruça, não apenas para a definir ou a denunciar, mas,
principalmente para desenvolver ações que possam transformar situações e
contextos onde esta se manifesta explícita ou subjacentemente. Este
pequeno ensaio se dedica a um olhar específico sobre o fenômeno da violência,
embasado por um trabalho reflexivo mais extenso ainda em desenvolvimento
que, através da proposição de uma educação poético-estética, pretende redimensionar
e defender a importância do signo anímico na formação humana integral. É um
recorte reflexivo para uma fundamentação conceitual de um curso de formação de
atores dos diversos âmbitos da educação, que propõe que cada indivíduo é capaz
e deve descobrir e desenvolver por si próprio uma concepção dessa alma, que é
propositadamente apenas sugerida nesta proposta, porque se admite que é
exatamente esta intenção de retificação do signo o que provoca uma
transformação mais profunda. Propondo assim uma pedagogia da alma,
artística, inspirada pelos estudos dos arquétipos de Carl Jung (1985) e por
uma semiose fenomenológica fincada em Umberto Eco (2016), que inicia uma
reflexão sobre ações educativas desenvolvidas através do diálogo entre a
educação estética da psicologia pedagógica de Lev Vygotsky (1968, 2016),
a filosofia do não e a poética do devaneio de Gaston Bachelard (1978, 2001,
2007), a piedade política na psicologia arquetípica de James Hillman (1983,
1986, 2016) e, como um contraponto não acadêmico, a negação libertadora
e a meditação ativa do momento a momento de Jiddu Krishnamurti (1973,
1982, 1985).
Educação Poético-Estética e Violência
Daí a função de uma arte aberta como metáfora epistemológica: em um
mundo em que a descontinuidade dos fenômenos colocou em crise a possibilidade
de uma imagem unitária e definitiva, isso sugere uma forma de ver o vivido e,
ao vê-lo, aceitando-o, integrá-lo em nossa sensibilidade. Uma obra aberta enfrenta
plenamente a tarefa de oferecer uma imagem de descontinuidade: pois não a
descreve, é a própria descontinuidade. É um mediador entre a categoria abstrata
da metodologia científica e a matéria viva de nossa sensibilidade; quase como
uma espécie de esquema transcendental que nos permite compreender novos
aspectos do mundo. (Eco, 1968, p. 158)
A abstração e a poesia têm uma relação passional,
uma é substância e sem esta o poema se torna vazio, a outra é essência e sem
esta o abstrato perde o sentido. Desta maneira a afirmação central desta
proposta é que o poema literário e a obra de arte abstrata estão na inauguração
do processo artístico e que qualquer iniciativa de educação estética deveria assumir
estes como seu fundamento. A partir de algumas atividades artísticas práticas e
de uma exposição crítica, incluindo alguns questionamentos pontuais aos autores
citados, sobre as limitações de um pensamento afirmativo e de sua diferenciação
em relação à amplitude de uma imaginação negativa, a intenção é esboçar de
maneira formativa a importância da compreensão de uma situação que aqui se
propõe como uma das mais significativas relacionadas ao problema desse pensar
positivo. Uma ansiedade pelo possível que ignora a necessidade da atenção e da
compreensão de seu comprometimento com preconceitos e condicionamentos
psicológicos e culturais, que é: o conflito comparativo entre reação e ação,
entre o que se pensa deveria ser e o que realmente é, entre a ilusão da ideia e
a verdade do fato. Esta é uma realidade que se manifesta intrínseca desde a
violência geopolítica, instrumentalizada pela ação predatória das corporações
financeiras, que promove a exploração econômica e até guerras pelo mundo; tanto
a cultural, como a do racismo, ou a do domínio psicológico das celebridades
sobre seus seguidores ou a da publicidade com sua constante humilhação
subliminar; passando pela social, seja a de um vizinho arruaceiro que não
respeita nada nem ninguém, ou aquela muitas vezes velada que os eruditos usam
para controlar e submeter os leigos, ou como a de muitos professores contra
seus alunos; até, enfim, aquela violência doméstica que usurpa um espaço
pessoal de alguém ou a segurança física e psicológica de uma criança.
É esse positivismo do pensar, que como proposta
para este problema apenas exige uma ação punitiva e vingativa, nunca consegue perceber a
estruturação complexa que envolve a violência. De certa maneira, em um conflito
subconsciente entre ímpetos violentos, esta é instrumentaliza como indesejável
apenas quando está naquele que ameaça a estabilidade do outro violento, ou de
um contexto violento social ou institucionalizado. Reafirmando a violência até
mesmo na racionalização que a pretende controlar ao exigir atos não violentos
dos indivíduos quando o próprio ambiente onde esta se manifesta é extremamente
violento. Mas, se negamos os apelos pela intervenção positiva que quase sempre está
inquieta por um imediatismo que reaja também violentamente, percebemos que a
punição que espera como solução vem somente depois do ato violento, que
geralmente é resultado de um impulso reativo que não considera a racionalidade
da proibição no seu momento passional. Por
este motivo a imaginação negativa é uma grande oportunidade e, se realmente se
pretende agir contra a violência, é fundamental que a prevenção de sua
manifestação seja sempre antecipada, na pessoa ou na sociedade, desarticulando
a instalação dos gatilhos de seu desencadeamento, que de tão incorporados na
nossa cultura, apenas provocarão mais violência. Deste modo, é preciso resgatar
e estabelecer novos lugares, psicológicos e sociais, onde a violência nunca
existirá na forma como tem há séculos se disseminado.
Nas composições das crianças Tolstói encontrou muito mais verdade
poética do que nos maiores modelos da literatura. E se nas composições
apareciam algumas passagens torpes, isso acontecia sempre por culpa do próprio
Tolstói; onde as crianças estavam entregues a si mesmas elas não pronunciavam
nenhum som falso. Daí Tolstói concluía que o ideal da educação estética como da
educação moral não está no futuro mas no passado, não está na aproximação da
alma infantil à alma do adulto, mas na conservação das qualidades primitivas
naturais dessa alma. (Vygotsky, 2001, p. 348)
Para cultivar esta especificidade imaginativa como
uma resistência potencial, que é antes a negação desse positivismo que acaba
bloqueando este mesmo possível pelo próprio paroxismo especulativo de propostas
que fomenta, é imperativo começar por entender a função da reflexão poético-estética.
Esta surge na elaboração da significação de uma obra artística enquanto este
signo semiótico, ao qual se dedica o processo artístico, através da descoberta
e também da tentativa de criação de seus significados (disposição poética) e de
suas significantes (disposição estética). Retomando e redimensionando esses
seus conceitos fundantes (Eco, 2016), o significado, como a gestão do impulso, a semente do
processo criativo, uma intenção ou uma necessidade que pressiona o imaginador,
é a pulsão anímica; o significante, como a gestão da manifestação, da execução
necessária, onde a materialidade se estabiliza, é o momento em que a força
invisível da criação assume os limites da matéria, para finalmente florescer no
seu mundo. O intuito é então estabelecer, a partir e para além de uma educação
estética, uma ampliação para uma nova conceitualização que aqui se nomeia de
educação poético-estética.
Aqui reside a chave para a tarefa mais importante da educação estética:
introduzir a educação estética na própria vida. A arte transfigura a realidade
não só nas construções da fantasia, mas também na elaboração real dos objetos e
situações. A casa e o vestiário, a conversa e a leitura, e a maneira de andar,
tudo isso pode servir igualmente como o mais nobre material para a elaboração
estética. De coisa rara e fútil a beleza deve transformar-se em uma exigência
do cotidiano. O esforço artístico deve impregnar cada movimento, cada palavra,
cada sorriso da criança. É de Potiebniá a bela afirmação de que, assim como a
eletricidade não existe só onde existe a tempestade, a poesia também não existe
só onde há grandes criações da arte, mas em toda parte onde soa a palavra do
homem. E é essa poesia de ‘cada instante’ que constitui quase que a tarefa mais
importante da educação estética. (Vygotsky, 2001, p. 352)
É realmente comum a ideia de que a linguagem da
poesia e da imagem abstrata sejam esse algo fútil, inútil, decorativo ou apenas
para entretenimento prazeroso e diletante; até mesmo não pragmáticas o
suficiente para influenciar uma realidade trágica que exige ações
concretas. Mas, é importante perceber o quanto estas são fundamentais e o
quão profundamente se relacionam com a capacidade humana para essa compreensão
do verdadeiro e da sua comunicação honesta, sendo que sem estes valores a
experiência humana se torna incompleta. É através de uma conjunção entre o
pensar, o sentir e o agir que a vivência destes elementos têm o potencial de
provocar, que se evoca e descobre uma combinação capaz de proporcionar, de
desencadear a perspectiva anímica por excelência, que por si mesma tem o poder
de iniciar essa completude, pois, sem este alinhamento esta nunca pode ser
alcançada e se manifestar. Não na redução de uma especulação sensitiva ou na
ilusão de algo extrassensorial, porém, por uma organização concreta da própria
natureza do ser. É através destes mesmos elementos que se criou desde as
linguagens até muito das tecnologias. A maioria das línguas têm sua origem
também em oralidades e textos poéticos, assim como a escrita e até mesmo
cálculos são elaborados a partir de abstrações imagéticas. Da mesma maneira,
por uma maiêutica alegórica reversa, ou seja, da superfície ao fundo, é através
destes mesmos movimentos que se pode olhar, que se pode entender algumas das
raízes da violência originadas no seu desalinhamento: a comparação detratora, a
reatividade impulsiva e, principalmente, o desvio, a coisificação, a reificação
ou até mesmo um fetichismo do talento.
O Poema
A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema, ela deve dar uma
visão do universo e o segredo de uma alma, um ser e objetos, tudo ao mesmo
tempo. Se segue simplesmente o tempo da vida, ela é menos que esta; só pode ser
mais que a vida imobilizando-a, vivendo no próprio lugar a dialética das
alegrias e das dores. Ela é, então, o princípio de uma simultaneidade essencial
em que o ser mais disperso, mais desunido, conquista sua unidade. (Bachelard, 2007,
p. 99)
O poema é para todos, desde um ditado popular até
uma Odisseia, passando pelas orações, as letras das canções e até mesmo um
texto publicitário, tudo isso mantém e contém a linguagem do poema. Esta
abrangência e amplitude o torna um elemento insubstituível para evocar aquelas
qualidades da alma. O importante na frase poética, que seria interessante não
necessitar ser explicada porque poemas não se explicam desde que são em si
mesmos a explicação de algo, não é qualificar ou definir o que sejam os
sentidos, ou qualquer outro termo em separado de uma maneira racionalista, mas,
sob um afetamento poético e subjetivo criado pela sua leitura intuitiva,
provocar o entendimento de uma maneira direta. Por isso se propõe usar a forma
do poema, pois somente uma metáfora pode ser entendida diretamente, na
descoberta de que a imaginação é negativa e, nunca, positiva. Ou seja, na sua
subjetividade o que diz a sua verdade é o que não é evidente, não é aparente,
não é afirmativamente objetivo, mas, é negação e transgressão de ideias e ações
condicionadas. É um “não fazer”, porque é somente neste estado de
reversibilidade que se fomenta a intenção artística. Sem o impulso poético
nunca haverá a realização estética e, por mais que se promova técnicas e
explicações antes do encontro com esta sua significação verídica, mesmo que
insuficiente e ingênua, o texto criativo, ou sua leitura, não nascerá jamais.
Um exemplo de atividade prática, realizada em
cursos de qualificação de professores, é uma oficina de criação de poemas
a partir de palavras recortadas de jornais, revistas, cartazes ou folhetos,
provocando um rearranjo destas na montagem de um poema inédito. A
proposta é disponibilizar esse material aos participantes para que, pela
necessidade de encontrar e resignificar as palavras, acabem sendo afetados pela
própria mensagem do texto onde estão inseridas, gerando um contexto para a
elaboração do seu poema criado com estes retalhos e influenciado pela realidade
contada nas páginas impressas. É uma maneira de demonstrar como o poeta
encontra insuspeitadamente os seus motes espalhados pelo ambiente onde vive.
Assim, o participante pode sentir a dificuldade que tem o poeta em reescrever
aquilo que vê e ao mesmo tempo provocar a capacidade de expor as próprias
significações de sua realidade. Aqui uma questão é fundamental na organização
da escrita poética, principalmente para iniciantes: o melhor caminho não é pela
apresentação de técnicas, mas sim, pela provocação dos movimentos do impulso
poético que motiva o escritor. Uma aproximação pelo elemento poético e pela
qualidade estética das realizações literárias, pelo seu fenômeno e no cultivo
dessa provocação da imaginação, vai gerar muito mais qualidade na elaboração
dos textos. Assim é necessário dar espaço para que o iniciante exista em suas
dúvidas e despreparo, pois, o que é importante é essencialmente este diálogo
fenomenológico, uma dialética espiritualidade/materialidade, poética/estética,
como principal elemento dessa proposta artística. Como o desencadeamento de uma
tensão filosófica entre um possível mote latente e a realidade imediata e
insustentável que inspire o aparecimento desse impulso e não apenas um conjunto
de regras, normas, medidas e gráficos em que seja possível se enquadrar
forçando uma identificação. A técnica da escrita poética, de um modo ou de
outro, surge ou se adaptará no momento certo se esta for uma necessidade do
escritor em potencial.
A Pintura Abstrata
A abstração do belo escapa a todas as polêmicas dos filósofos. De um
modo geral, tais polêmicas são curiosamente vãs em todos os casos em que a
atividade espiritual é criadora, tanto no que concerne à atividade da abstração
racional na matemática como à atividade estética que abstrai rapidamente as
linhas da beleza essencial. Se déssemos mais importância à imaginação, veríamos
muitos falsos problemas psicológicos esclarecidos. (Bachelard, 2001, p. 65)
Uma imagem abstrata, seja bidimensional ou
tridimensional, também tem o poder de manifestar uma sensibilidade atávica
desse potencial da imaginação negativa por excelência. É a linguagem da alma,
onde a imagem reversa é irracional, é alegórica, pois se revela pelo que não se
enxerga imediatamente, pelo que não é explícito, não é descritivo, porém,
inerentemente onírico e pleno de lirismo. E mesmo quando a abstração é
geométrica, esta carrega muito mais de significações metafóricas do que planos
de uma descrição objetiva. As cores são belas em si mesmas, suas combinações
encantam a qualquer pessoa sem nenhuma restrição. As formas afetam quem quer
que se aproxime destas. A intencionalidade da combinação de formas em
composição e das cores em arranjo traduzem o próprio movimento de uma alma. Se
o processo artístico é subjetivo, então pode ser algo inconsciente e
irracional, mas ao mesmo tempo ecumênico. Em sua essência, pode ser coletivo e
ainda assim, anônimo. Essa qualidade surpreende ao ser encontrada em algumas
criações, pode-se dizer, espontâneas que falam sobre esta existência comum. Uma
parede com uma textura sublime, um outdoor raspado que se transforma em uma
abstração maravilhosa, composta de texturas, formas e cores incríveis. Pedras,
peças antigas ou galhos dispostos em um charmoso arranjo poético que revelam
uma imensa história e a poesia dos atos e sonhos humanos em uma única visão
emocionante. Descobrir essas obras incomuns é um impulso poético, como uma
arqueologia sublime, que cativa o artista abstrato na busca por decifrar e
recriar, intencionalmente, a manifestação de sua estética misteriosa.
Um exemplo prático de ação, aplicado em
laboratórios com adolescentes internados sob medidas socioeducativas, para o
encontro com este fenômeno é uma atividade propondo provocar o aparecimento das
formas e o desdobramento das cores a partir das três cores primárias. O mais
recorrente exercício é apresentar antes o círculo das cores para uma
demonstração intelectual das cores primárias e da formação das secundárias de
maneira objetiva, positiva, onde sua reprodução posterior é resultado de um
conhecimento dado e pragmático, sem o fomento da reflexão intuitiva tão
importante ao artista. Apresentar o surgimento das cores desta maneira é como
querer construir um telhado antes das paredes de uma casa. Em contraste a esta
tradição, a maneira como se propõe que as misturas possíveis das cores sejam
encontradas pela primeira vez e de como as formas se abstraem intuitivamente é
que estas devam ser descobertas subjetivamente; antes de mais nada, devem ser
vistas realmente surgindo durante o fazer artístico. Assim, a proposta é que se
parta de uma folha de papel em branco e que as cores primárias sejam
disponibilizadas por tintas e pincéis. Antes de tudo, o participante é
avisado a “fazer algo que não existe”, como um incentivo para que se evite a
reprodução viciada de temas recorrentes. Começando a aplicá-las sobre o papel
devagar e com muita atenção para que cada cor tenha sua própria manifestação
criando formas inusitadas e que, ao encontrar as outras cores diretamente sobre
o papel, sejam misturadas ao acaso gerando as combinações com sua revelação
acontecendo em tempo real. Neste movimento, o participante entra em contato com
a sugestão de "manter o que já está bonito", fazendo com que um nível
de atenção e concentração seja despertado exclusivamente pela observação
durante a execução do exercício. A surpresa da beleza da combinação das cores e
a delicadeza da aparição das formas é uma oportunidade para um momento de
sensibilidade inédita. Para uma educação estética que visa formar a intuição
das cores e das formas, além de também exercitar a atenção da sua realização,
há aqui uma diferença fundamental entre um modelo cartesiano fixo e imposto e a
emoção de uma expressão fluida sendo descoberta diretamente por quem realiza o
trabalho.
Sobriedade, Compaixão e Vocação
A base poética da alma tira a psicologia dos limites do laboratório e do
consultório, e até da subjetividade pessoal do indivíduo, e a transforma numa
psicologia das coisas como encarnações de imagens com vida interior. (Hillman, 1983,
p. 49)
Esta base poético-estética da imaginação, pode ser
definida como uma qualidade anímica imprescindível à integralidade e à
incorruptibilidade do ser, capaz de desenvolver a personalidade necessária e
comprometida com o melhor coletivo. Redefinindo a concepção de personalidade
ideal, que na melhor hipótese do senso comum é definida como um lugar do bem
estar, mas que desta base é afirmada como um pouco mais reflexiva, conhecedora da
sua situação dramática, onde a “ironia, humor e compaixão será a sua marca” (Hillman,
1983, p.89), que a faz consciente da multiplicidade e das possibilidades que
qualquer pessoa pode alcançar. Porém, a partir daqui se apresenta uma
elaboração de um arranjo que talvez venha a ser mais profundo e mais
significativo na definição desta prioridade, amplificando a sua ação
espiritual. A ironia e o humor são vistos aqui, na verdade, como subprodutos da
compaixão, que figura assim no primeiro plano, pois é um fundamento anímico,
sendo a fonte donde fluem outros elementos que a constituem. É a compaixão que
equilibra a ironia e o humor que sem esta poderiam facilmente degenerar para o
sarcasmo e o escárnio como poderosos instrumentos da violência. Outro
fundamento anímico, ao lado da compaixão, que torna essa personalidade muito
mais profunda é a sobriedade, sendo também capaz de se desdobrar em inúmeros
elementos que se estabilizariam a partir desta. Entretanto, aqui se sugere seja
incluída ainda mais um aspecto de enriquecimento dessa personalidade que, através
da sua evocação anímica, será reconhecida nestes elementos específicos mais
aprofundados e engajados, sendo que teríamos então esta trindade: a sobriedade,
a compaixão e a atenção à vocação. Assim, esta última figura como a descoberta
e a vivência de uma paixão que se torna o sentido da experiência do viver, a
expressão máxima daquilo que se pode perceber como o agir anímico. A compaixão,
o sentir anímico, como mais do que o simples sentimentalismo da bondade ou da
comiseração, mas um elemento de uma alma que está à disposição; é a capacidade
da consciência em se dedicar e se absorver, amparada por uma visão além de si
mesmo, tanto pelo sofrimento ou o pesar como pela fragilidade e a ingenuidade
da sua própria condição em relação à mesma situação imediatamente reconhecida
nos outros. A sobriedade, o pensar anímico, não como o pedantismo da erudição
ou da disciplina imposta, nem a simples austeridade da abstinência, mas a
castidade de uma escolha vivenciada, seja em qualquer um de todos os seus
níveis possíveis; não como a moralidade ou a penitência, mas na abnegação de um
desapego, a negação da alienação, uma atenção e prontidão desta alma diante das
necessidades e da responsabilidade consigo mesma, os outros e a sua realidade.
A linguagem primária e irredutível desses padrões arquetípicos é o
discurso metafórico dos mitos. Eles podem assim ser compreendidos como os
padrões fundamentais da existência humana. Para estudar a natureza humana no
seu nível mais básico, é necessário voltar-se para a cultura (mitologia,
religião, arte, arquitetura, o épico, o drama, o ritual) onde esses padrões são
retratados. Esse movimento, que se afasta das bases bioquímicas,
histórico-sociais e comportamentais da natureza humana, e privilegia a imaginação,
foi articulado por Hillman como ‘a base poética da mente’. (Hillman, 1983, p. 23)
É por isso que também é possível, através da
compreensão do processo artístico da pintura abstrata e da elaboração do poema,
justamente pela potência das significações anímicas que proporcionam,
estabelecer um campo seguro e controlado onde seria possível descobrir algumas
das origens dessas situações e desses contextos em movimento, em tempo real.
Desta maneira, desencadeia-se uma oportunidade para encontrar mais caminhos
para libertar o pensamento, o sentimento e a ação desses elementos da
violência, retomando a sua fundação para os transcender, desde sua forma
simbólica até a sua manifestação física. A proposição é que pelo exercício
constante do desenvolvimento dessas qualidades, catarticamente inspiradas pela
poesia imaginativa e a abstração das formas e das cores, é que essa liberdade
pode renascer nessa personalidade. Ou seja, é pelo cultivo daquilo que se
apresentará como temas primitivos da alma que se pode intuir como a violência
pode ser neutralizada. Não por um esforço pela sua extinção, não pela ideia da
sua repressão, não pelo conflito constante contra o seu impulso, o que é ainda
um movimento próprio da violência e que a provoca ainda mais. Porém, justamente
porque este cultivo começa com uma iniciação à consciência da riqueza desta
noção anímica, que deveria se manter anterior a qualquer sistematização de sua
própria qualidade, como são as reflexões filosóficas, as religiões e até mesmo
a racionalização científica, pois frequentemente estas agravam o problema.
A desordem não pode ser transformada em ordem, mas a negação da desordem
é a natureza da mudança. A própria negação é a mudança. A negação da desordem é
a natureza positiva da mudança. Ou seja, vejo desordem em mim mesmo – raiva,
ciúme, brutalidade, violência, suspeita, culpa – você sabe como são os seres
humanos – estou ciente disso; a mente está totalmente ciente de tudo isso, que
é desordem. Ela pode negá-la completamente, eliminá-la? Quando a elimina por
meio da negação, a natureza da mudança é a ordem positiva. O positivo só pode
vir através do negativo. (Krishnamurti, J. Talk to Young People 2. Universidade
de Stanford. 12 de fevereiro de 1969)
Assim, seguindo por esta aproximação se espera
provocar a expansão destes movimentos anímicos primordiais para que a violência
não seja apenas suprimida, mas redimensionada e passe a ocupar o seu lugar, que
de fato existe. Isto porque, assim como o falso não é o oposto do verdadeiro,
mas a sua degeneração, sendo que o próprio reconhecimento desta realidade já é
a sua libertação, essa violência em metástase é a degradação de uma vocação na
sua sobriedade e na sua compaixão. Seja este fenômeno coletivo como a da
cultura de um povo ou individual como a desse talento único, seu drama começa
quando não é reconhecida ou possibilitada, sendo perdida, silenciada ou
excluída de seu próprio meio e de si mesma. É assim porque a revolução
mais profunda quem faz são os relacionamentos cotidianos dessa vocação compartilhada.
E ainda que não baste apenas se dedicar completamente ao próprio talento, pois,
inúmeros são os exemplos em que a vocação é vivenciada plenamente, mas mesmo
assim a desordem, o conflito e a violência não estão controlados, esta é um
elemento inadiável. Porém, é somente ao se alinhar com aquela sobriedade e
aquela compaixão que se cria a única estrutura dinâmica possível para a
equilibração desta experiência humana.
O que vos libertará da realidade da violência? Não a ideia da não
violência, mas a realidade da violência – conhecer o fato do que é, não a ideia
do que não deveria ser. Já tentamos isso, pregamos incessantemente sobre a não
violência; todas as religiões falam de não violência: 'Sejam bondosos, sejam
gentis, não machuquem, amem o próximo'. Mas as religiões não produziram paz;
pelo contrário, provocaram guerras religiosas. O que pode pôr fim à violência é
encará-la, confrontá-la com a sua realidade. (Krishnamurti, J. Discurso Público
5. Saanen, 19 de julho de 1966)
As primeiras oportunidades de cultivar o talento na
vida são muito sutis e delicadas, são espontâneas e se incorporam pacificamente
ao seu entorno, mas, por outro lado, são as que mais, maior e melhor impacto
produzem na qualidade e na completude da vida de uma pessoa e, assim, podem
afetar de volta o seu meio com esta mesma qualidade também. Uma sociedade só
desenvolve realmente um equilíbrio e equanimidade coletiva, transforma
eventuais injustiças ou consegue mudar o rumo das coisas pacificamente, quando
as pessoas têm a possibilidade de encontrar e não perder essas oportunidades
iniciais e bem específicas da sua vocação, incorporando-as, desta maneira,
nesse ritmo sóbrio e compassivo. Entretanto, alguns sistemas, algumas
organizações sociais que vivenciamos hoje e no passado são tão disfuncionais,
chegam a ser tão brutais e cruéis, que destroem essa possibilidade na grande
maioria dos casos. Assim, no desejo de recriar algum contexto e reencontrar
oportunidades, muitas dessas pessoas são induzidas, quase obrigadas, a pensar,
sentir e agir com a mesma violência e brutalidade deste seu meio hostil, numa
tentativa aflita por reconquistar as situações favoráveis àquelas oportunidades
iniciais perdidas. É uma condição que, também na maioria dos casos, gera cada
vez mais profundamente um desequilíbrio psicossociológico destas sociedades,
provocando um círculo vicioso de desumanização que se fecha mais e mais em si
mesmo, gerando um coágulo social denso também cada vez mais caótico e
conflituoso.
Enquanto houver uma dualidade, isto é, violência e não violência, haverá
conflito e, portanto, mais violência. Enquanto eu não reconhecer que sou
estúpido e impuser a isso a ideia de que devo ser inteligente, a violência
começa. Quando me comparo com você, isso também é violência. Comparação,
supressão e controle indicam violência. Sou assim: comparo, reprimo, sou
ambicioso. (Krishnamurti, J. Discussão Pública 1. Saanen, 3 de agosto de 1969)
Por outro lado, embora a elaboração de imagens ofereça o risco de um distanciamento do drama do fato, não se trata de abandonar o exercício imagético, mas de dar a este seu melhor lugar onde um tênue equilíbrio começa quando a
vocação de cada um tem a chance de aparecer naturalmente, aninhando-se ao seu
contexto harmoniosamente, ao encontrar com as circunstâncias existentes e
favoráveis nesse ambiente. Quando um contexto permite a aproximação e a
circulação destas inúmeras vocações em todos os seus espaços, quando oferece
diversificações e diversidade de movimentações culturais de fácil acesso,
cotidianas, dando atenção a essas possibilidades e a esse consentimento, o
talento se expressa sem pressão, coação ou outra imposição competitiva qualquer
que, apenas baseada na corrida pela fama, sucesso e exclusividade, o sufocava
desvirtuando este seu destino. Será isso, simplesmente, a melhor ajuda que se
poder dar, principalmente às crianças e aos mais jovens, para que descubram e
se apaixonem pelo aprofundamento nas incontáveis formas de expressão,
habilidades e realização humanas. Revela-se, então, uma fonte que fomentará, ao
longo do tempo, relacionamentos enriquecedores e um consistente desenvolvimento
psicológico, social e cultural de uma natureza tão especial que poderá se
expandir como um cristal, refletindo suas infinitas faces e luminosidades para
todos os cantos deste seu mundo. Por fim, é imperativo afirmar que a
própria compreensão desta condição desequilibrada já é o principal movimento da
verdade e do enriquecimento da vocação humana.
Conclusão
O imaginador, o apaixonado pela alma rústica, artística, é despertado e
parte para retificar a sacralidade da sua vida, ao retomar constantemente a
reflexão filosófica ingênua sobre os temas primitivos. Afirma neste ato que
cada uma dessas potências atávicas, que podem ser conquistadas intuitivamente
simplesmente na evocação desses temas, desencadeiam neste ser imaginador os
elementos arquetípicos fundamentais para o processo de criação de imagens que,
simultaneamente, mantêm-no apto ao instante silencioso da presença mítica do
espírito do mundo. (Catani, 2011, p.203)
A expectativa é, então, de que o próprio intento em
direção à retomada desta condição anímica vital já seja, em si mesmo, o maior e
mais importante passo para a inauguração desta libertação da violência e que,
se não é exclusivamente o que a provoca, provavelmente sem este movimento esta
nunca aconteça. Porque este desfoca a aglutinação do pensamento positivista,
abrindo espaço para a imaginação negar e dissipar este condicionamento, o que
permite que novas concepções aflorem ao se encontrar o inusitado, neste intante
intuitivo. É quando uma ação poético-estética consegue afetar a
superficialidade da personalidade pelo sentido profundo de sua alma, quando
neste momento o imaginador se enxerga nessas qualidades anímicas e se espanta
pela extensão daquilo que apenas acabou de realizar intuitivamente. Isto é, a
importância do cultivo desta vitalidade é tal que, mesmo se esta não garanta
automaticamente a resolução deste ou todos os problemas humanos, certamente a
sua ausência torna qualquer tentativa neste sentido simplesmente impossível. É
uma afirmação de que qualquer projeto de solução para qualquer problema humano,
principalmente o da violência, deve impreterivelmente começar desta base
esboçada aqui. Uma violência que é intrínseca e subjacente a esse pensamento
que exige o positivo, à necessidade da comparação, da conquista, da superação
que a ideia do sucesso e a ânsia do vir a ser a qualquer custo impõe,
alimentando um perene conflito com o que julga defeito, desqualificando o
talento ingênuo em todos os ambientes, moralizando-o como incompetência ou
deficiência. Sendo o epicentro de onde esta reverbera, estando subliminarmente
infiltrada na sociedade, instrumentalizada como um ativo de arregimentação das
vontades e dos desejos imediatistas que abandonam o talento e a vocação,
manifestando-se sempre se não se desvela e se age sobre estas suas verdadeiras
raízes. Deste modo, ao ser realinhada pelos sentidos da poesia e pelas
dimensões da abstração, na imprescindível ampliação da potência da
imaginação, é possível diluir a violência e a adequar à sua necessidade;
cultivando aquilo que é em si mesma a sua própria negação: essa alma rústica
que então a mitiga. Não como uma entidade mística ou sobrenatural, mas sim como
este signo potente, este arquétipo polissêmico em movimento que carrega tudo o
que dá especificidade ao ser e o envolve, inspirando a manifestação do fenômeno
de uma integralidade profunda e a própria fundação da humanidade, da sua
espiritualidade. Firmada no compromisso entre as vocações de cada um em uma
relação cosmogônica com sua época e o espírito de seu mundo, que assim passa a
amparar o instinto reativo pela intuição que instaura, compartilhada, sóbria e
compassiva, enfim, a gênese de uma consciência liberta, integradora e
universalizada.
Bibliografia Básica:
Bachelard, G. (1978). A Filosofia do Não. São Paulo: Abril Cultural
Bachelard, G. (2001).
A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins fontes
Bachelard, G.
(2007). A Intuição do Instante. Campinas: Verus
Catani, F. H. (2004). Arte Banida Arte Bandida: TCC. FE-Unicamp
Catani, F. H. (2011). Uma Visão da Alma Artística. Mestrado. FE-Unicamp
Catani, F. H. (2026). A Alma Rústica. Campinas: Edição do autor
(no prelo)
Eco, U. (1968). Obra Aberta. São Paulo: Editora Perspectiva
Eco, U. (2016). Trattato di Semiotica Generale. Milano: La Nave di Teseo
Hillman, J. (1983). Psicologia Arquetípica. São Paulo: Cultrix
Hillman, J. (1986).
Paranoia. Petrópolis: Vozes
Hillman, J. (2006).
City & Soul. Connecticut: Spring Publications
Jung, C.G. (2016). Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes.
Jung, C.G.
(1991). Psicologia e Alquimia. Vozes: Petrópolis
Jung, C.G. (1985).
O Espírito na Arte e na Ciência. Petrópolis: Vozes
Krishnamurti, J. (1973). Fora da Violência. São Paulo: Cultrix
Krishnamurti,
J. (1982). A Rede do Pensamento. São Paulo: Cultrix
Krishnamurti,
J. (1985). A Educação e o Significado da Vida. São Paulo: Cultrix
Vygotsky, L.
(1999). Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes
Vygotsky, L. (2001). Psicologia Pedagógica. São Paulo: Martins Fontes
