27 de mar. de 2025

O Batom de Sísifo (crônica)




O Batom de Sísifo...


"Assim como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que eles percebem. A constância de um movimento ou de uma repulsão na alma é encontrada em hábitos de fazer ou pensar, continua em consequências das quais a própria alma desconhece. Grandes sentimentos carregam consigo seu universo, esplêndido ou miserável... Nenhuma moral e nenhum esforço são a priori justificáveis ante as sangrentas matemáticas que regem a nossa condição.” Albert Camus¹


Escalando os muros do absurdo, a radicalização de pretensas posições ideológicas somente alimenta ainda mais a intolerância que apodrece nos corações e mentes dos que se identificam pelos seus discursos, provocados pela comoção do pensamento². Nisto prolifera o antagonismo e não a compreensão. A tomada de consciência de uma piedade política no cotidiano, como explica James Hillman³, de que tanto é urgente, nunca veio nem virá através disto, porém, talvez será somente pela organização inteligente, coerente e espontânea que respeita o outro contraditório e que pode acontecer apenas quando este outro é uma peça essencial da própria expêriencia coletiva onde todos estão envolvidos. Muito da capacidade de tolerância vem do cultivo de algo inédito no conhecimento, vem do simples exercício de imaginar as possibilidades de uma aproximação entre antagônicos. Este movimento da imaginação, que é o princípio do processo artístico, provoca os sentimentos e o próprio pensamento, num campo seguro que permite uma espécie de simulação preventiva. A moralidade estagnada, o preconceito e o escárnio mútuo, que julga ser possível anular ou subjugar contrariedades, somente vai fazer com que aqueles que ainda estão em dúvida, aprendendo a viver, endureçam as atitudes, bloqueando essa imaginação, de um lado ou de outro, mesmo que não necessariamente desejem conscientemente que isto aconteça.


Desde os líderes políticos até as crianças e os jovens ainda com certa abertura mental natural, que estejam inseridos num meio que fomenta a intolerância, mas, de certo modo, percebam a problemática disso e comecem a desejar mudar, no entanto, por algum motivo, ameaças, insegurança ou ingenuidade, ainda terão dificuldade de negar o seu grupo, sua família, seus amigos (que honestamente, não é tão fácil assim) e talvez nunca encontrem um espaço para desenvolver deste desejo para uma ação. É quando as atitudes se tornam polarizadas demais, que fica ainda mais difícil para sair desse meio, porque as contradições acabam por fabricar uma barreira muito grande para que seja possível pular para fora. Assim, isto afasta cada vez mais estranhos que poderiam se encontrar. Fechados em grupos de identificação, mesmo aqueles que tentam se proteger desta mesma intolerância, ao repelir possíveis contraditórios, acabam por usar os mesmos elementos psicologicamente agressivos dos intolerantes. Então, seria este conflito pela supressão do contrário o melhor caminho? E aqui o que poderia ser feito para evitar isso?


No caso dos líderes políticos, essa polarização é sempre fomentada porque as lideranças assumem posições para defender interesses, usando partidários insanos que querem destruir tudo o que não lhes causa identificação, desde simbolicamente até mesmo materialmente, porque não sabem mais o que fazer com aquilo que julgam uma ameaça. Manipular e conduzir pessoas inflamadas por discursos definitivos, agindo cegamente, emocionadas de raiva é muito mais fácil. E ainda, se tudo der errado é possível prendê-las, usadas como boi de piranha, com um bom motivo aparente e assim retomar sempre o equilíbrio do controle e dominação. As lideranças políticas são testas de ferro que manipulam a polarização das opiniões, o fomento da intolerância, porque é através dessa polarização que sempre disputam, acumulam e vendem o seu poder, o chamado capital político, posto a serviço dos grupos que as financiam, consequentemente, para defender os privilégios destes grupos, associações do poder econômico, muitas vezes organizações criminosas. 


Quando se trata de anônimos, pessoas comuns atraídas para uma identificação qualquer, alguém pode pensar (pensar?) que hostilizar, ridicularizar e ofender quem defende idéias absurdas e intolerantes é a melhor maneira de lutar contra isso, mas, na verdade, isso não toca a consciência nem daqueles que são ignorantes deste aspecto e nem dos que querem sair dessa ignorância, ao contrário, somente serve como reafirmação perante aqueles cúmplices entre si e também acaba por reafirmar ainda mais a intolerância das posições contrárias. Assim, na busca por algo que possa resolver este problema, resurge sempre a velha utopia da educação redentora, que salva da ignorância, sempre enaltecida por aquelas lideranças ou pelas celebridades, que diz que se deveria ensinar a pensar, ao contrário de acumular ou decorar, para criar a consciência de tolerância, de coletividade, melhorar a sociedade.


Pode-se ensinar a pensar, porém, é impossível ensinar alguém a imaginar, a imaginação só se pode cultivar, é de essência desconhecida, atemporal e libertária, já o pensamento é, em si mesmo, uma pilha de fatos, acumulação de memória, tradição e passado, a matéria prima dos preconceitos, mesmo porque a grande maioria dos líderes intolerantes são extremamente bem formados e letrados, provando que a educação em si mesma não implica diretamente na formação de um ser humano melhor. Por outro lado, quando se busca por um movimento realmente capaz de transformar esta realidade das identificações, temos em Gaston Bachelard um caminho na sua fenomenologia da alma4, pois, talvez seja somente a imaginação que possa superar o preconceito intolerante e é muito intrigante que, por sua própria natureza inusitada, pois é uma nuvem de devaneios, a imaginação não cabe na educação e não é, de modo nenhum, um instrumento da educação, além disso, se a imaginação fosse realmente provocada para atuar sobre os processos educativos, estes muito provavelmente seriam desmantelados dos modelos que hoje se conhece. Isto porque o problema da educação não é numênico, mas fenomênico. A educação é resultado muito mais do que causadora. Acreditar que a educação pode mudar a condição que a inventou é incongruente, pois, aquela só existe na continuidade desta e, assim, transformar seu contexto seria se autodestruir. A questão é anímica, não é aplicar um modelo, reformar um modelo ou modernizá-lo, mas se render à escala e quem cuida da escala não é o pensamento, o modelo, mas a imaginação, a inventividade humana e não se pode prever o que a imaginação poderia propor ao encontrar o problema da educação.


A imaginação não é produto da educação, como o é o pensamento, ela produz consciência em movimento e a educação é um subproduto da cultura. A sua escala é pela necessidade, nunca pelo desejo. A necessidade é dinamicamente inédita, já o desejo é reincidentemente repetitivo. A inteligência de uma personalidade ideal, que agrega a imaginação e o pensamento, a escala e os modelos, só será coroada pelo ato da consciência, pela sobriedade e pela compaixão, numa concepção alargada do conceito expresso por James Hillman⁵, porém, nunca pelo acúmulo do pensamento pragmático e comovido, na defesa de identidades fragmentárias, senão pela libertação criativa das identificações. Quando desejamos ser livres, então, não precisamos pertencer a ninguém, a nenhum modelo, mas nesta admissão vemos que ninguém vai ajudar a subir a pedra mais uma vez, outra vez e mais uma vez, percebemos que estamos sozinhos e, talvez, seja este o melhor reinício, caro Sísifo.




1- Albert Camus. (1942). "Le mythe de Sisyphe. Essai sur l’absurde. Un raisonnement absurde". Capítulo: LES MURS ABSURDES, p18

2- Muito elucidativa a entrevista com um ex-neonazista sobre identificação e intolerância: https://youtu.be/d-g3Z8IWsdU?si=rL4lXkO7Aryuf9VY

3- "Político, segundo entendo, não implica em partidos políticos, mas em piedade política; sugere não deixarmos as implicações políticas das idéias tornarem-se grosseiramente inconscientes; que possamos admitir a parte política da psique e, assim, tomar partido político." James Hillman (in Paranóia, Editora Vozes - 1993 - p68)

4- "A imagem, em sua simplicidade, não precisa de um saber. Ela é a dádiva de uma consciência ingênua. Em sua expressão, é uma linguagem jovem. O poeta, na novidade de suas imagens, é sempre origem de linguagem. Para especificarmos bem o que possa ser uma fenomenologia da imagem, para frisarmos que a imagem existe antes do pensamento, seria necessário dizer que a poesia é, antes de ser uma fenomenologia do espírito, uma fenomenologia da alma. Deveríamos então acumular documentos sobre a consciência sonhadora." Gaston Bachelard (in A filosofia do não; O novo espírito científico: A poética do espaço. Abril Cultural - 1978 - p185)

5- "Dessa maneira, a personalidade não é concebida tanto em termos de estágios da vida e de desenvolvimento, de tipologias de caráter e funcionamento, da psicoenergética direcionada a objetivos (sociais, individuais, etc.) ou de faculdades (vontade, afeto, razão) e seu equilíbrio. Em vez disso, a personalidade é imaginativamente concebida como uma drama vivo e cheio de gente no qual o sujeito "Eu" toma parte mas não é nem o único autor, nem o diretor, e nem sempre a personagem principal. Às vezes, está em cena. Muitas vezes, as teorias de personalidade acima revistas podem exercer seus papéis como ficções necessárias para o drama. A personalidade saudável, madura ou ideal irá, então, mostrar que conhece a sua situação ambígua e dramaticamente mascarada. Ironia, humor e compaixão será a sua marca, uma vez que estes traços indicam uma consciência da multiplicidade de significados e destinos e a multiplicidade de intenções incorporadas por qualquer sujeito a qualquer momento. A "personalidade saudável" é imaginada menos sobre um modelo de homem natural, primitivo ou antigo com sua nostalgia, ou sobre um homem sócio-político com sua missão, ou o racional burguês com seu moralismo; mas é imaginada em contraste com o background do homem-artista para o qual imaginar é um estilo de vida e cujas reações são reflexivas, animais e imediatas. Este modelo não pretende, obviamente, ser literal ou isolado. Ele serve para enfatizar certos valores da personalidade aos quais a psicologia arquetípica dá importância: sofisticação, complexidade, e profundidade impessoal; um fluxo de vida animal que desconsidera conceitos de vontade, escolha e decisão; ética como dedicação ao artesanato da alma; sensibilidade à continuidade da tradição; a significação do patologizar e do viver nos "limites"; reações estéticas." James Hillman (in Psicologia Arquetípica, Editora Cultrix - 1983 - p89)